sábado, 29 de dezembro de 2007

Vida de Curumim



"Os meninos tinham medo do sapo. Sempre que o enxergavam, corriam, mas um dia eles viram que o sapo estava ferido, quase morrendo. Correram, pegaram uma corda e o puxaram para fora d'água. Eles salvaram o sapo e ficaram amigos dele. Depois disso, iam todos os dias ao rio para brincar com ele." A história é uma das preferidas da indiazinha pataxó Iraê Novaes dos Santos, de 6 anos, chamada carinhosamente de Folhinha pelos familiares e amigos da Aldeia Indígena Pataxó de Coroa Vermelha, no município de Santa Cruz Cabrália (a 730 km de Salvador, no extremo sul do estado).
Folhinha é a filha do meio de cinco irmãos. Ela adora contar histórias para os irmãos menores e fazer desenhos, mas seu passa-tempo preferido é correr na frente de seu Kijeme (casa) com a prima Tailane dos Santos, também de seis anos. "Ela adora correr por aí. De manhã cedo, ela pula da cama, coloca a roupa e já sai para correr na rua", contou a mãe, índia Jumaira dos Santos (nome indígena que significa Sereia do Mar).
É Jumaira quem conta também por que Iraê é conhecida como Folhinha. "Quando ela nasceu, tinha uma pintinha bem no meio da testa e era um nenê curtinho e redondinho. Aí o avô dela disse que, se fosse filha dele, se chamaria Folhinha. Quase me bateu quando registrei o nome de Iraê. Acabou pegando o apelido de Folhinha. Nem ela lembra seu verdadeiro nome. No primeiro dia de aula, ela veio me perguntar por que a professora a tinha chamado de Iraê se seu nome era Folhinha", contou, entre sorrisos, a mãe da pequena.
O dia a dia de Folhinha na aldeia é igual ao de todas as crianças brancas. Ela acorda bem cedinho, toma seu leite (quando não tem leite, come feijão e farinha logo cedo) e vai brincar na rua com suas amigas. E espaço para correr é o que não falta em volta de seu Kijeme.
Aldeia - Apesar de morar na Aldeia Coroa Vermelha, a mais urbana de todas as 11 aldeias pataxós do extremo sul do estado, Folhinha mora numa área de retomada (ocupação), que ainda mantém o formato original de uma aldeia indígena, com kijemes (casas de barro arredondadas e com cobertura de palha) e sem muros ao redor.
Arêgawãy – Essa palavra na língua pataxó (patchorã) significa brincar. E é isso que Folhinha mais faz.
Pega-pega é a sua brincadeira favorita, mas a pequena pataxó também sonha em um dia ser igual à sua ídola, a ginasta Daiane dos Santos, e com a ajuda da irmã Joice Novaes dos Santos, de 11 anos, tem treinado cambalhotas, estrelinhas e pontes. "Como não tenho recursos e não tem estrutura aqui na aldeia, Folhinha está aprendendo a fazer ginástica com uma vizinha. O sonho dela é ver Daiane de perto", relatou sua mãe, que está separada do marido e sustenta os filhos com R$ 112,00 (por mês) do Bolsa Família.
A única Îhé Arêgawãy da casa (boneca, ou na tradução ao pé da letra: criatura de brincar) é mais um elo de união entre as três irmãs Pataxós nas brincadeiras.
As irmãs Folhinha, Joice (conhecida como Arara), de 11 anos, e Mairi (que significa cidade dos brancos reunidos), de 4 anos, pegam um pedaço de lata - que faz as vezes de uma panela, um tijolo – transformado em cama para a boneca – e colhem graminha pelo caminho - que nas brincadeiras das meninas farão as vezes de verduras e legumes, e irão para a panela, onde se transformarão numa gostosa sopa. "Esse aqui é a batata, verdura, tomate e cenoura", narra Folhinha, enquanto corta bem fininho as graminhas antes de colocá-las na "panela" e fingir estar cozinhando. "Eu gosto de sopa, mas gosto mesmo é de feijão, arroz e carne", conta ela.
Depois de passar a manhã brincando com as irmãs e a prima, Folhinha vai para casa tomar seu banho. O chuveiro de sua casa fica do lado de fora, ao ar livre, e só tem água fria. No inverno ou no verão, a pataxózinha encara com coragem o banho, sem esquecer de fechar a torneira para economizar água enquanto se ensaboa. "Quando não sai água no cano, ela toma banho de bacia aqui ao lado do tanque", conta Jumaira.
Enquanto sua mãe prepara o almoço, Folhinha aproveita para sentar no chão de seu "quarto". Apesar de morar numa casa de apenas um cômodo, a indiazinha faz questão de manter seu cantinho, com sua cama e seus poucos brinquedos – dois bichinhos de pelúcia e a boneca – arrumados.
Na hora do almoço, Folhinha senta em frente à TV para assistir ao final do programa da Xuxa. Arroz, feijão e dois pedaços de carne (Oba! Hoje minha mãe colocou dois pedaços porque vocês estão aqui) são a refeição do dia, que Folhinha come com vontade.
Hora de estudar - Folhinha estuda à tarde, na Escola Indígena Pataxó de Coroa Vermelha. O percurso de três quilômetros até a escola, Folhinha faz a pé todos os dias. Quando chega à escola, vai logo para frente de sua sala de aula e fica sentada junto com seus colegas até a professora chegar. Questionada por que não brinca com os coleguinhas enquanto aguarda a chegada da professora, Folhinha responde: "Ainda não está na hora de se sujar".
Na sala de aula, ela senta bem na frente. Antes de iniciar a aula, a professora Maria Jucélia reza o Pai Nosso com as crianças. Folhinha junta as mãozinhas e se concentra na oração.
Depois da oração, a indiazinha e seus coleguinhas sentam em roda no chão para ouvir a história do Leãozinho Lalo. Um leão valente, vaidoso e lindo. Folhinha presta bastante atenção na história narrada por sua professora. "Adoro histórias, mas aqui na escola, o que gosto mesmo é de aprender continhas", revela a pequena e simpática pataxó.
Na escola, além das continhas, Folhinha gosta muito é de correr e brincar de pega-pega com seus coleguinhas e, de vez em quando, até consegue realizar mais um de seus sonhos infantis, andar de bicicleta. Já que sua mãe ainda não teve condições de lhe dar uma, a valente Folhinha aprendeu a pedalar com a bicicleta de seu pai e com a de um amiguinho da escola.
À tardinha, depois que volta para casa, Folhinha faz as atividades da escola com a ajuda de sua irmã Arara. Conta para seus irmãos menores a nova história que aprendeu na escola e vai dormir para descansar e se preparar para mais um dia de aventuras.
Folhinha adora viver na aldeia. Gosta, principalmente, do sossego do lugar, onde ainda consegue correr e brincar com os amigos na rua, sem ter que se preocupar com o trânsito. Não acha que tenha nada de ruim em sua aldeia. Já a mãe, fala que gostaria que tivesse mais investimento em saúde.


A Tarde Online - 12/10/2007

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