segunda-feira, 6 de setembro de 2021

ENSAIO - O papel do jornalismo nas ações de conservação ambiental e sustentabilidade - Dúvidas e Constatações


Qual o papel do jornalismo na conservação ambiental e no desenvolvimento de atividades que tenham a sustentabilidade como premissa?

Como jornalista, esses são alguns dos questionamentos que me motivam a buscar mais aprendizado sobre Meio Ambiente e Sustentabilidade. Acredito que “o jornalismo tem (ou deveria ter) compromisso com a pluralidade: ele precisa mostrar como nosso entorno funciona em sua complexidade e diversidade” (REGINATO, 2016).

E foi isso que tentei desempenhar ao longo de mais de 20 anos de atuação em jornalismo, seja como assessora de comunicação ou como repórter.

Como define Lüersen (2021, p.34), no jornalismo literário, a apuração, a checagem das informações e o contato “real” com as fontes é imprescindível, como em qualquer bom jornalismo. E foi dessa forma que busquei desenvolver meu trabalho.

Apurar, pesquisar e checar. Quer melhor forma de aprender e ensinar do que essa?

Acredito que o jornalismo profissional tenha esse poder de engajar as pessoas em torno de um tema. Sobretudo, vejo no jornalismo o poder de encantar as pessoas por meio de histórias de vida, de lugares, projetos e experiências.

Já foi provado que a fotografia é uma forte aliada da conservação ambiental, como me revelou o fotógrafo da natureza Luciano Candisani, em uma entrevista, em 2015, durante uma visita à RPPN Estação Veracel, em Porto Seguro. Para Candisani, “a fotografia é uma ferramenta poderosa, que estabelece essa comunicação imediata. É uma linguagem universal que atrai a atenção das pessoas, gera mudanças, gera um movimento em direção à mudança”. Enxerguei, como repórter e assessora de comunicação, muito dessa ferramenta no jornalismo. Como repórter do jornal Agora (Rio Grande/RS), tive a oportunidade de produzir algumas reportagens que possibilitaram que eu aprofundasse meus conhecimentos sobre meio ambiente e mostrasse a importância do conhecimento multidisciplinar no processo de apuração e de produção dos textos jornalísticos. Mais que repórteres, aprendi que precisamos ser um pouco cientistas, biólogos, professores, músicos, guias de turismo, investigadores. Enfim, temos que transitar por diversos campos do saber. Aprendi que a pesquisa desenvolvida em nossas universidades gera excelentes pautas e nos garante fontes confiáveis.

Como exemplo, cito a entrevista que fiz com o biólogo Pedro Fruet em 2014, para o Caderno O Peixeiro do jornal Agora. Fruet havia garantido dupla titulação como doutor graças à pesquisa que desenvolvia sobre botos junto ao Programa de Pós-Graduação em Oceanografia Biológica (PPGOB) da Fundação Universidade de Rio Grande. 

A matéria “Estudo sobre botos garante dupla titulação de doutor para estudante da Furg” deu mais visibilidade ao programa de pesquisa, despertou o interesse da comunidade local sobre o estudo e o interesse de pesquisadores da universidade em divulgar suas pesquisas. 

Fruet deu seguimento a sua pesquisa, o que lhe possibilitou, em 2021, ficar entre os sete ganhadores do prêmio Whitley Awards, conhecido como o Oscar da Ecologia. 

Em 2015, acabei fazendo outra matéria com Fruet sobre o estudo com botos e, graças ao contato com o pesquisador, conheci o também biólogo Augusto Silva Costa, do Projeto Albatroz. Com Costa, tive a oportunidade de conhecer um projeto de conservação de albatrozes desenvolvido junto a colônias de pesca de Rio Grande/RS. 

Com a matéria “Parceria entre pescadores e pesquisadores ajuda na conservação de aves marinhas”, compreendi não só a importância dessa parceria mas também a das atividades de conscientização junto à comunidade. 

Costa foi minha fonte também em uma matéria que denunciou vulnerabilidade de uma importante área de reprodução de aves, localizada na Ilha dos Marinheiros (Rio Grande). Recebi a denúncia e identifiquei a necessidade de ter um especialista para explicar cientificamente a relevância do local. Fiz o contato com o biólogo, que prontamente me acompanhou ao ninhal. 

Pouco depois de fazer essa reportagem, recebi a ligação da professora Karina da Rosa, que trabalhava com turmas de educação infantil em uma escola municipal, em uma vila de pescadores, também em Rio Grande. 

Karina me contou que estava desenvolvendo um trabalho de Educação Ambiental com seus alunos e que minhas matérias a estavam ajudando neste processo. Ela me convidou a conhecer um pouco do seu trabalho, e qual não foi minha alegria ao chegar à escola e ser surpreendida com um painel com todas as matérias que eu havia produzido sobre meio ambiente expostas. “Todas as manhãs eu pego o jornal e os alunos olham. Primeiro eles olham as figuras e depois escolhem um assunto que acharam mais interessante”, me contou a professora.

A visita à escola acabou gerando a matéria “Uma turminha de aprendizes e defensores do meio ambiente”, para o Agorinha – suplemento infantil do Jornal Agora

Eu poderia citar mais algumas conexões como essas, que surgiram ao longo da minha carreira profissional. Acredito que esses exemplos mostram a aplicabilidade dos meios de comunicação como importantes ferramentas na luta pela conservação ambiental e nas divulgações de projetos e ações sustentáveis. 

Acredito que o engajamento e a conscientização da comunidade passem por ações de educação ambiental e de divulgação de uma forma consciente, confiável e criativa. Como repórter na sucursal de Eunápolis do Jornal A Tarde – maior jornal da Bahia na época –, tive a oportunidade de produzir matérias para diferentes editorias, mas as que mais me encantavam eram relacionadas a questões ambientais e sociais. 

Foi nessa época que tive a oportunidade de produzir matérias de diferentes áreas ambientais ao acompanhar a equipe do escritório do Ibama de Eunápolis em algumas operações de fiscalização. 

Dentre os textos jornalísticos que produzi como repórter do A Tarde, destaco ainda a reportagem especial “Luta sem fim pela terra”, feita em comemoração ao dia do Índio, a qual me possibilitou conhecer um pouco sobre todas as terras indígenas existentes na região. Parte do meu texto acabou fazendo parte de um livro didático editado pela escola indígena Pataxó, de Coroa Vermelha, município de Santa Cruz Cabrália. 

Ainda em relação a questões ambientais, como assessora de comunicação da Veracel Celulose, tive a oportunidade de aprofundar esse aprendizado e passei a compreender melhor o significado de sustentabilidade, e passei a entender que sustentabilidade também envolve questões sociais e econômicas. 

No ramo de papel e celulose, tive oportunidade de elaborar e coordenar o Programa Ação e Cidadania, desenvolvido nas comunidades rurais da área de atuação da empresa. 

No período em que estive vinculada ao projeto, o Ação e Cidadania atendia às ações exigidas pela Licença de Operação da Veracel, que compreendiam palestras sobre as operações florestais, sobre doenças sexualmente transmissíveis (DSTs) e sobre segurança no trabalho. Mas o programa ia além, ele compreendia também atividades de educação ambiental e palestras que atendessem a necessidades da comunidade onde seria realizado. Por exemplo, no distrito de Monte Pascoal, município de Itabela, atendendo a solicitações da comunidade, o Ação e Cidadania desenvolveu também palestra sobre combate ao uso de drogas, ministrada por policiais militares; um curso de culinária com o Programa Cozinha Brasil (Sesi); e uma palestra sobre segurança no trânsito, com a participação de policiais rodoviários federais. 

Antes de organizar um evento do Ação e Cidadania, eu ia até a comunidade que seria atendida e conversava com as principais lideranças locais para compreender os problemas, ouvir as demandas e necessidades daquela comunidade. Só então a programação era definida. 

Com o Ação e Cidadania, tive a oportunidade de conhecer mais as comunidades rurais da área de atuação da empresa. Estreitei esse relacionamento e, mais uma vez, compreendi a importância da comunicação; nesse caso, da comunicação interna, com os colaboradores da empresa. Era de suma importância que eu relatasse aos coordenadores das áreas florestal e de sustentabilidade da empresa os ruídos identificados nas visitas às comunidades para que essas questões fossem resolvidas e para que se tornasse possível estreitar o relacionamento comunidades/empresa. 

Vale ressaltar que o Ação e Cidadania surgiu como programete de rádio de 30 segundos. Por meio dos programetes, a Veracel divulgava suas ações e iniciativas sociais e ambientais. Depois de um ano de veiculação dos programetes, a equipe de comunicação sentiu a necessidade de estar mais próxima das comunidades, e então aliamos o projeto às ações que já eram desenvolvidas para atender à Licença de Operação. 

O Ação e Cidadania continua sendo desenvolvido pela Veracel, atualmente, com o apoio de uma empresa terceirizada. 

Ainda como analista de comunicação da Veracel, produzi uma série de matérias para divulgar as ações desenvolvidas pelas comunidades rurais da área de atuação da empresa; iniciativas de resgate e preservação da cultura de comunidades tradicionais – no caso da comunidade indígena Pataxó; iniciativas ambientais e sociais da empresa. 

Essas matérias, definidas como publieditoriais, eram divulgadas mensalmente em jornais e sites de notícias da região. Com elas conquistei, juntamente com a equipe de Comunicação da Veracel, em 2012, o prêmio Aberje – Norte e Nordeste.

Com os publieditoriais foi possível dar visibilidade a iniciativas como o projeto Roça do Povo, desenvolvido no povoado de União Baiana, no município de Itagimirim. 

O Roça do Povo foi criado em 2007, com a concessão de uma área para que cerca de 80 agricultores familiares pudessem plantar mandioca. Hoje, o projeto se transformou na principal fonte de renda do município e, além da área de plantio, conta com uma fábrica de processamento da mandioca, que foi ampliada e adequada para atender às exigências ambientais. 

Na Veracel fiz ainda a divulgação do primeiro processo de certificação dos produtores florestais ligados ao Programa de Produtores Florestais (PFF) da empresa - parceria no plantio de eucalipto. 

O processo de certificação, pioneiro no Brasil, envolveu questões trabalhistas, sociais e ambientais e acabou se transformando no case “Pioneirismo quebrando paradigmas”, no qual tive a participação com a publicação de reportagens. 

Ainda na Veracel, trabalhei na divulgação de diferentes iniciativas ambientais, em especial de ações de pesquisa e de educação ambiental. Destaco, com orgulho, a ação que resultou no tratamento e soltura de uma harpia – maior ave de rapina das Américas. Entregue ao Ibama por trabalhadores rurais, a ave viveu durante 12 anos em cativeiro, mas, depois de um longo processo de readaptação, ela finalmente voltou a seu habitat. 

A ação envolveu programas de educação ambiental junto a comunidades, tratando da importância da conservação dessa espécie de ave de rapina; entrevistas com os pesquisadores que trabalharam na reabilitação da harpia; produção de releases; e atendimento à imprensa da região no dia da soltura. 

Dentre as oportunidades que me encantaram nessa época em que trabalhei na Veracel, destaco a reportagem que resultou do acompanhamento de plantadores de árvores do projeto Mata Atlântica à RPPN Estação Veracel. Nesse dia conheci histórias de pessoas simples que descobriram a importância da preservação ambiental ao trabalharem no plantio e na recuperação de remanescentes de Mata Atlântica. O texto “Árvores centenárias encantam os plantadores de florestas” fez parte da série de reportagens do Publieditorial que resultou na conquista do prêmio Aberje, em 2012. Essa reportagem, em especial, me mostrou que a conscientização de trabalhadores do campo no processo de conservação ambiental é de suma importância.

Nesse sentido, cito ainda as diversas entrevistas feitas com o analista ambiental Jailson Souza, que acabou se transformando em um excelente fotógrafo ambiental. Em especial destaco a reportagem. “Monitor Ambiental descobre na fotografia uma aliada na sensibilização sobre a importância da preservação do meio ambiente”, quando Jailson conta o início de sua história como fotógrafo da natureza. 

Meu fascínio por pautas relacionadas a meio ambiente continuou e, como repórter do site de notícia Radar 64, também em Eunápolis, fiz algumas entrevistas e reportagens que ampliaram o meu conhecimento sobre Mata Atlântica, sustentabilidade e conservação ambiental.

Aqui não poderia deixar de citar as matérias sobre a nova plataforma de turismo implementada pela Veracel em 2017: a observação de aves. 

Sobre esse assunto, tive a oportunidade de conversar algumas vezes com o ornitólogo Luciano Lima, hoje responsável pelo observatório de aves da RPPN Estação Veracel. 

Com Lima, aprendi sobre ciência cidadã e como a observação de aves ajuda na conservação ambiental. “Observar aves faz com que as pessoas se reconectem com a natureza, fazendo com que elas despertem para a conservação ambiental”, explica o ornitólogo. 

Tal somatório de experiências e aprendizados culminou na constituição da Casulo Comunicação, uma microempresa que presta serviços na área de assessoria de comunicação e como agência de notícias. 

Especializada na produção de conteúdo jornalístico, a Casulo preza pelo jornalismo que encanta, que permite a descoberta de um mundo novo e de novas vivências, valorizando pautas que esclarecem e trazem informações. Por isso, foca sua produção nos textos jornalísticos, principalmente relacionados a pautas sobre meio ambiente, sustentabilidade, projetos sociais, agricultura familiar e histórias de vida e de lugares.

Tendo como base o resgate de parte das minhas produções jornalística, acredito sim, que o jornalismo tem um papel fundamental nas ações de conservação ambiental e no incentivo a iniciativas que primem pela sustentabilidade. Com este propósito, pretendo seguir na linha de jornalismo ambiental, garimpando experiências e preservando, por meio da minha atividade profissional, histórias que deixem ensinamentos e conquistas para gerações futuras.


Referências:

REGINATO, G. D. As finalidades do jornalismo: o que pensam veículos,

jornalistas e leitores. Tese de Doutorado. Porto Alegre: UFRGS, 2016.

DIAS, M.S.M; OLÍVIA, B; BORELLI, Viviane (Org.). Jornalismo literário -

Itinerários possíveis. Santa Maria: FACOS/UFSM, 2021.

quinta-feira, 29 de abril de 2021

“Hoje, a definição ‘novo estilo de vida’ tem sentido para mim”

 

Onde eu possa ser eu, ao amanhecer e ao entardecer, é um vasto mundo pouco maior que 200 passos. Neste curto espaço, literalmente medido em passos, há seis casas, a maioria ao lado direito da rua, no sentido centro da cidade de Eunápolis. No lado esquerdo, são apenas duas e uma grande área verde — um pequeno remanescente de Mata Atlântica, onde, todos os dias, descubro um mundo à parte.

Casal de falcão-de-coleira (foto: Eduarda Toralles) 

Hoje, ao abrir a janela, meu olhar se direcionou, como sempre, à “minha” árvore”. Embora já sem vida, ela sempre me reserva alguma surpresa. E, mais uma vez, não me decepcionou. Lá estava um casal de falcão-de-coleira se alimentando. A presa, aparentemente um sabiá-laranjeira, estava sendo depenada. A cena rendeu algumas fotos.


(Foto: Eduarda Toralles)

Na “minha” árvore, além do falcão-de-coleira — que já havia flagrado em outro momento com um filhote — também fui apresentada a um carcará, um gavião-carijó e um carrapateiro. Além disso, em todos os entardeceres, ela acolhe um bando de periquitos-rei que ali descansam antes de seguir até a árvore que os abrigará durante a noite.


Anu-branco (Foto: Eduarda Toralles) 

Outro dia, estava caminhando por “Onde eu possa ser eu” — assim intitulei a rua onde moro — e uma vizinha me chamou, afoita: “Desce ali, tem um bando de passarinhos fazendo a maior algazarra!”. Nem precisei descer, de longe registrei uma turma de anus-brancos se alimentando. No mesmo local, já flagrei sabiás-laranjeira garantindo a refeição do dia — cenas que renderam fotos muito fofas — e aracuãs-de-barriga-branca entre os galhos das árvores. Esta semana, ouvi uns gritinhos diferentes e, lá no mesmo cantinho, estavam dois saguis se alimentando no coqueiro.


Suiriris (Foto: Eduarda Toralles) 

PRIMEIRO REGISTRO – O registro de dois suiriris brigando no ar foi o primeiro que fiz ao descer, pela primeira vez, com a máquina fotográfica. Foi meio no susto, mas a foto ficou bem legal. Nesse mesmo dia, registrei um lindo lavadeira-mascarada — que mais tarde soube ser também conhecida como lavadeira-de-Deus (nome que adotei desde então) — entre as folhas de uma das árvores no final da "minha" rua. Nos galhos dessa árvore, já fui surpreendida por uma fêmea de choca-listrada, por um beija-flor-tesoura e tantas outras aves, dentre elas os pardais, que fazem uma algazarra o dia todo.


gavião-urubu (Foto: Eduarda Toralles) 

DEZ PASSOS – Dia desses, estava caminhando pelo "meu" espaço quando notei uma grande ave preta em uma das árvores da curva, antes da descida para o vale. Comecei a fazer o registro de longe, para garantir alguma imagem caso ela voasse. Tenho uma mania: faço a foto e tento me aproximar mais. A cada dez passos (por que dez? Não sei. Coisa de doido talvez... rs), paro e faço outro registro. Fiz algumas fotos, e a ave voou. Continuei me aproximando e lá estava ela — um lindo e majestoso gavião-urubu, pousado em outra árvore. Fiz vários cliques antes de ele levantar voo e ficar, lentamente, sobrevoando a área — o que me garantiu mais algumas lindas fotos.
Nessa árvore, no final da rua, já registrei também um gavião-carijó e um alma-de-gato.


Corruíra (Foto: Eduarda Toralles) 

OS PRIMEIROS E OS MAIS ATENTADOS – Eles são minhas companhias diárias. Todas as manhãs e finais de tarde, lá estão eles: os pequenos corruíras. Lembro que fiquei encantada quando fotografei um pela primeira vez. Ele estava sobre o muro próximo à área de mata. Tirei várias fotos. Com certeza, até agora, foram eles que me renderam mais cliques. Tenho fotos lindas deles no meio do mato, em galhos caídos, no chão, sobre postes, e um lindo registro de um deles carregando uma pena branca no bico. Estão por toda parte — parece que anunciam a minha chegada. Apelidei-os de "atentados", porque dão pulinhos e mudam rapidamente de local. Canso de vê-los escalando, com pequenos saltos, os postes.

Tiziu (Foto: Eduarda Toralles)

Certo dia, estava próxima à árvore onde sempre vejo corruíras, quando uma pequena ave chamou minha atenção. Pensei que fosse mais um "atentado", pois era tão pequena quanto eles e estava sobre um galho caído ao chão. Fiz a foto e, ao baixar os arquivos no computador, fui surpreendida por um lindo passarinho em tons de azul-marinho. Logo descobri que se tratava de um jovem tiziu.


DÓ-RÉ-MI – Bem cedo, outro dia, vi um bando revoando sobre a área de mata. Nunca os havia notado por ali. Segui-os com o olhar e vi que pousaram no topo de uma árvore à margem da mata. Aproximei-me o máximo possível e consegui fazer o registro: eram garibaldis, também conhecidos como dó-ré-mi. Lindos pássaros pretos com a parte da cabeça em tom bordô. Depois desse dia, fotografei mais uma vez um casal da mesma espécie.

Assum-preto (Foto: Eduarda Toralles) 

“NÃO VENDO A LUZ, AI, CANTA DE DOR” – É o canto do pássaro livre que nos encanta. Estava caminhando quando ouvi uma linda vocalização. Comecei a olhar ao redor à procura do dono daquela bela “voz”. E ali estava ele, no topo de um poste de energia: uma bela ave preta — a graúna, ou, dentre outros nomes, o assum-preto. A espécie inspirou a música Assum-preto, de Luiz Gonzaga. Segundo a plataforma WikiAves:

“A música relata um ato cruel entre gaioleiros, principalmente do Nordeste, que furavam (em algumas regiões ainda o fazem) os olhos do graúna, pensando que assim ele cantaria mais na gaiola. Esse procedimento bizarro também é feito com o sabiá.”

Ah, os idiotas dos gaioleiros! Juro que não entendo qual é o prazer em manter passarinhos presos em uma minúscula gaiola e sair para “passear” com eles presos todas as manhãs. Aqui, na "minha" área, ainda existem muitos criadores de aves. Um deles vinha todas as manhãs trazer “seu” passarinho para tomar sol — me disse uma vez. Juro que pensei em responder, mas como sempre saio sozinha e fotografo em frente à minha casa, resolvi não comprar briga.
Certa vez, esse rapaz me alertou sobre alguns gaviões na “minha" árvore. Fiquei feliz. Será que ele está começando a gostar de observar pássaros em vida livre? Doce ilusão. Logo depois do aviso, ele revelou ter medo do gavião, “pois algumas dessas aves são capazes de destruir a gaiola”. Para mim, bem pior que o gavião, que caça para se alimentar, é ele — o gaioleiro, que aprisiona pássaros.

ALÉM DO “ONDE EU POSSA SER EU” – Nas poucas vezes em que me arrisquei a sair além do “meu espaço”, além dos 200 passos, consegui registrar dois pica-paus-brancos e um casal de canários-da-terra.

Esse meu momento diário, que começou há pouco mais de dois meses, me rendeu, nos primeiros 30 dias, o registro de 23 espécies de aves. Além das já citadas, fotografei um beija-flor-cinza (muito fofo, por sinal), sanhaçu-do-coqueiro, pica-pau-verde-barrado, corrupião, urubu-de-cabeça-vermelha, bentevizinho-de-penacho-vermelho, balança-rabo-de-bico-torto, rolinha-roxa, cambacica, pomba-asa-branca, tuim, saí-azul, bem-te-vi, casaca-de-couro-amarelo, sabiá-do-campo, sanhaçu-cinzento, pica-pau-branco e cardeal-do-nordeste (meu pai amava esse pássaro).

Periquito-rei (Foto: Eduarda Toralles) 

O MEU MOMENTO – Com certeza, eu teria uma história para contar de cada um dos registros que fiz. Lembro-me de todos. Nestes agora quase 60 dias desde que comecei, oficialmente, a observar diariamente as aves da “minha” área, tenho aprendido muito sobre a dinâmica de cada uma das espécies. Já reconheço algumas pela vocalização, outras pela silhueta, pela forma de voar. Mas, além desse conhecimento, a observação de aves me trouxe paz. Ajudou-me a controlar a ansiedade — para passarinhar é preciso ter muita paciência, saber observar, apurar os sentidos e aguardar o tempo deles.

Digo à minha filha e aos meus amigos que fazer esses registros diários é o meu momento com Deus. Todos os finais de tarde são meu momento de agradecimento, de avaliar o meu dia, me acalmar para a noite e de enxergar um mundo além da correria cotidiana.

Pela manhã, o passarinhar me dá disposição para enfrentar o dia. O problema é decidir qual será o último clique. Assim como uma criança que pede para brincar “só mais um pouquinho”, eu sempre digo que vou tirar só mais uma foto antes de subir para começar a trabalhar.

Foto: Eduarda Toralles

É ENCANTADOR – Hoje pela manhã, quando flagrei o casal de gavião-de-coleira se alimentando, compreendi a quão rica e encantadora é a vida.

E não são só pássaros que eu fotografo. Os pores do sol foram os primeiros a chamar minha atenção para a beleza do mundo que eu tinha bem à minha frente. Depois vieram as aves, os saguis, as plantas, as borboletas... Todos eles me levaram a um convívio enriquecedor com meus vizinhos. Juntos, estamos sobrevivendo à pandemia.

 

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