segunda-feira, 23 de junho de 2008

Corais-cérebro desaparecem

Dez por cento da população de corais-cérebro do banco dos Abrolhos, no município de Caravelas, a 822 quilômetros de Salvador, desapareceu nos últimos três anos. A descoberta foi feita por um grupo de pesquisadores da ONG Conservação Internacional (CI-Brasil) e da Universidade Federal da Bahia (Ufba), que há oito anos, num trabalho inédito, monitoram os corais da região.

De acordo com o biólogo Ronaldo Francini Filho, os corais-cérebro, endêmicos da região (encontrados apenas ali), estão sendo atingidos por uma doença conhecida como praga-branca, que os deixa esbranquiçados. Se o avanço da doença se mantiver no ritmo atual, como foi constatado, 60% da colônia de corais poderá morrer até 2010, avalia o pesquisador.

As causas da doença ainda estão sendo analisadas, mas o pesquisador acredita que o aquecimento das águas e o aumento de nutrientes, devido à poluição, sejam os principais fatores. “Ainda não existe uma relação nítida de causa e efeito, mas o aquecimento gradual das águas faz com que as doenças se proliferem mais rapidamente”, observa Francini Filho.

Segundo ele, o próximo passo da pesquisa será comprovar que a praga-branca é, de fato, uma doença, por meio de experimentos em laboratório.

No mundo, existem cerca de 650 espécies conhecidas de corais de águas rasas. No Brasil, são encontradas apenas 15 espécies, entre elas o coral-cérebro, endêmico da Bahia. Os recifes de corais são importantes não apenas pela proteção da costa, destaca o pesquisador, mas também por manterem o equilíbrio marinho e servirem como áreas de grande concentração de peixes.

Para Francini Filho, o aumento da proteção ao Parque Nacional Marinho dos Abrolhos é um ponto crucial para conter o avanço da doença. “Em relação ao aquecimento das águas, é preciso uma ação global, mas o aumento da zona de amortecimento do parque seria uma medida importante”, acredita o biólogo.

Camarões – O pesquisador também destaca que a autorização para a instalação de um projeto de carcinicultura (criação de camarões em cativeiro), que poderá ser implantado na região de manguezais de Caravelas, agravaria ainda mais o problema da poluição local.

O Parque Nacional Marinho dos Abrolhos é um arquipélago formado por cinco ilhas. Segundo uma pesquisa publicada em 2006, os níveis de endemismo (espécies encontradas somente ali) na região podem ser quatro vezes maiores que os do Caribe.

De acordo com o estudo, foram registradas 1.300 espécies, divididas em seis grupos pesquisados. Pelo menos 17 moluscos e um peixe completamente novos para a ciência foram descobertos no local. Além disso, foram identificadas, pela primeira vez em Abrolhos, 15 espécies de algas, dois corais, 86 poliquetas, 23 crustáceos e aproximadamente 100 espécies de peixes — segundo pesquisa produzida pela CI-Brasil, Ufba e outras instituições de ensino e pesquisa, em fevereiro de 2000.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Extração ilegal de carvão destrói mata nativa no sul do estado

Mais de 53 hectares de mata nativa foram destruídos nos últimos quatro anos, no extremo sul do Estado, para a produção ilegal de carvão, em sua maioria adquirida por siderúrgicas do Espírito Santo e de Minas Gerais. De acordo com o Ministério Público Estadual (MPE), a Coordenação Regional Costa das Baleias, do Núcleo Mata Atlântica, atua com um inquérito civil para apurar irregularidades na produção e comercialização do carvão na região.

Na última segunda-feira, houve uma audiência com representantes de empresas siderúrgicas e de celulose, dirigentes das secretarias estaduais da Fazenda e do Meio Ambiente, além da Polícia Ambiental, visando à regularização da produção de carvão na região. O encontro foi promovido pelo MPE, por meio da Coordenação Regional Costa das Baleias, do Núcleo Mata Atlântica.

Durante a audiência, representantes de três siderúrgicas do Espírito Santo — que adquirem carvão no extremo sul da Bahia — garantiram que irão se reunir com representantes das empresas de celulose Aracruz e Suzano, além da CAF Arcelor Mittal (de carvão vegetal), para desenvolver, até o próximo dia 2, o esboço de um plano de auto-suprimento da matéria-prima.

Dificuldade – A situação da produção ilegal de carvão na região é crítica e envolve questões sociais, segundo Natália Coelho Albuquerque, chefe substituta do escritório do Ibama em Teixeira de Freitas. “Praticamente todas as comunidades atuam na produção de carvão. Eles conseguem tirar um salário mínimo por forno/semana”, explica Natália, referindo-se à dificuldade de convencer os produtores rurais — nos municípios de Teixeira de Freitas, Alcobaça, Nova Viçosa e Mucuri — a não investirem na atividade.

O coordenador do Núcleo Mata Atlântica, promotor Sérgio Mendes, estima que existam mais de mil carvoarias irregulares na região, “comprometendo o meio ambiente e potencializando um gravíssimo problema de insustentabilidade ambiental”, ressaltou. Ainda segundo o Ibama, para manter a produção, estão sendo furtadas árvores nativas de reservas naturais. Somente este ano, foram registradas 70 ocorrências de degradação em áreas de reserva de uma empresa de celulose.

Esse dado foi reforçado pelo promotor de Teixeira de Freitas, Alexandre Cruz, durante a audiência. “No extremo sul, o carvão é produzido a partir de madeira furtada da Mata Atlântica e de plantações de eucalipto das empresas de celulose. O produto é amplamente adquirido por siderúrgicas do Espírito Santo e de Minas Gerais”, explicou Cruz.

Para Natália, a organização da produção de carvão com resíduos de eucalipto seria uma solução viável. No entanto, as empresas de celulose não permitem a retirada dos resíduos de suas áreas, alegando que esses materiais contribuem para a conservação do solo — o que, segundo a chefe do escritório do Ibama, não é verdadeiro.

O metro cúbico do carvão vegetal é vendido por valores entre R$ 100 e R$ 120, enquanto o valor pago nas carvoarias varia de R$ 20 a R$ 40. Para produzir um metro cúbico de carvão, são necessários três metros cúbicos de madeira. De acordo com o Ibama, três caminhões de carvão — com capacidade de 50 m³ cada — são suficientes para devastar um hectare de mata.


* 11/09/2007 - A Tarde Online

domingo, 18 de maio de 2008

Solta a primeira harpia adulta sob monitoração


Um exemplar da maior ave de rapina das Américas, a harpia (Harpia harpyja), conhecida como gavião-real, foi encontrado por fazendeiros na Fazenda Aliança, no município de Itagimirim (a 606 km de Salvador), na última terça-feira. Entregue ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a ave tornou-se a primeira harpia adulta monitorada via satélite no Brasil.

O animal foi solto na última quinta-feira no Parque Nacional do Pau-Brasil (ParNa Pau-Brasil), em Porto Seguro, por pesquisadores do Projeto Harpia na Mata Atlântica. “Vamos permanecer observando o comportamento da águia nos primeiros dias nas matas do ParNa”, explicou a pesquisadora Tânia Sanaiotti, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e presidente do projeto. A harpia será monitorada durante três anos.

Os pesquisadores do projeto — que, na Amazônia, recebe o nome de Projeto Gavião-real — já realizam o monitoramento de uma harpia jovem na floresta amazônica, mas é a primeira vez que irão monitorar uma ave adulta.

“Tudo será novidade”, comemora Tânia, ao explicar que a águia jovem ainda não voa a grandes distâncias do ninho. A que está sendo monitorada na Amazônia se afasta no máximo 300 metros, enquanto um animal adulto chega a percorrer até 80 quilômetros à procura de alimentos.

O Projeto Harpia na Mata Atlântica foi criado em 2005, por meio do contato com os pesquisadores que desenvolviam um projeto semelhante na Amazônia.

O interesse surgiu após o avistamento, em 2004, de um gavião-real que frequentemente pousava no viveiro da Estação Veracel (uma Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN), em Porto Seguro. Outro exemplar da ave, também fêmea, vivia no local desde 1997, quando foi encontrada por fiscais do Ibama. A harpia era mantida em cativeiro em uma fazenda da região e estava ferida.

NINHO – Em 2005, os pesquisadores do Projeto Harpia na Mata Atlântica avistaram um ninho da espécie na Estação Veracel, o primeiro encontrado na Bahia.

O grupo constatou a existência de um casal de gaviões-reais na estação e, por isso, optou por soltar o exemplar encontrado na semana passada. “Optamos por soltá-lo no ParNa para povoar outras áreas de Mata Atlântica”, explicou Tânia.

Antes da soltura do animal, os pesquisadores fizeram um levantamento para ter certeza de que o local oferece as condições necessárias para que a ave viva e consiga se reproduzir.

“Constatamos que no ParNa há condições para que sobrevivam dois casais de harpia, por isso decidimos que iremos soltar a outra harpia lá também”, revelou a pesquisadora.

A soltura do outro animal, que também será monitorado via satélite, acontecerá no segundo semestre deste ano.

A ave que hoje é mantida na Estação Veracel está sendo treinada para retornar à natureza, por isso o contato com humanos está restrito aos pesquisadores do projeto. Após avaliação, foi observado que, apesar de ter sido mantida em cativeiro antes de chegar à estação, o animal provavelmente foi capturado já adulto.

“Ele não chegou a ser humanizado, por isso pode retornar à natureza”, explicou o pesquisador José Eduardo Mantovani.

Além da harpia encontrada na região de Itagimirim, só há registros de duas outras fêmeas na Estação Veracel e do avistamento de algumas águias jovens também na região da estação, informou Tânia. A pesquisadora destaca a importância da colaboração da comunidade para o resgate da ave na região da Mata Atlântica.

Ela enfatiza que o monitoramento só está sendo possível graças à consciência dos fazendeiros que encontraram o animal e o encaminharam ao Ibama, e também à agilidade do órgão em contatar o projeto.

O Projeto Harpia na Mata Atlântica é financiado pela fábrica de celulose Veracel. O trabalho é integrado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ibama e RPPN Veracel.


Jornal A Tarde - 18/05/2008

terça-feira, 4 de março de 2008

KRAJCBERG DOA ACERVO

O artista plástico brasileiro Frans Krajcberg, de origem polonesa e radicado na Bahia, surpreendeu o secretário de Cultura do Estado, Márcio Meirelles, no domingo, com a doação de toda a sua obra, do museu (ainda em construção) e do sítio (51 hectares de Mata Atlântica preservada) ao governo do Estado.

Meirelles estava em visita à casa do artista, em Nova Viçosa, para conversar sobre seu livro de fotografias — selecionadas especialmente para uma edição que será lançada pelo governo do Estado na próxima sexta-feira — e falar sobre o destino da obra e do sítio do artista.

"Eu preciso saber o que vai ser de tudo isso depois que eu desaparecer", disse Krajcberg, antes de anunciar a doação. "Todos os meus bens, toda a minha obra. Isso vai ficar para o Estado da Bahia. Não há outra proposta. O Estado da Bahia vai criar lei para preservar para sempre tudo que vou deixar", afirmou.

Márcio Meirelles não deu detalhes de como o governo do Estado irá criar condições para manter toda a doação do artista. Disse apenas que não teria como o governo recusar um "presente desses". Meirelles se declarou apaixonado pela obra do artista, que utiliza árvores mortas e corantes naturais na construção das peças.

MILITANTE – "Já conhecia a obra, mas foi especial estar aqui ao lado dele. Sua obra é fundamental pela estética e pela ética. Ele é um militante da preservação da natureza, comprometido com o futuro", revelou o secretário de Cultura.

Em Nova Viçosa, o secretário conheceu o Sítio Natura — onde o artista mora numa casa construída por ele sobre um galho gigante de pequi — e visitou as obras do Museu Krajcberg, que está sendo construído e deverá ser o primeiro museu ecológico-artístico do mundo, onde se poderá tratar da "saúde do planeta".

"Ainda não tenho prazo para a conclusão do museu, estou construindo tudo sozinho, mas existem prédios em que vou precisar da ajuda do governo", declarou o artista. “Ajuda mais que justa”, confirmou o secretário.

Durante as cinco horas em que Meirelles esteve na companhia de Krajcberg, ouviu sobre sua história de vida e a paixão pela natureza.

Sobre a fotografia, outra de suas paixões, o artista declarou: "Que surpresa é fotografar, descobrir um novo detalhe. Existe tanta coisa que a gente é pobre perto da natureza. Não fico um dia sem fotografar".

Aguerrido defensor da natureza, Krajcberg não perdeu a oportunidade de alertar sobre sua destruição em todo o país e, principalmente, no extremo sul do Estado.

"Houve muita violência, destruição da floresta mais linda. A Bahia continua terra de ninguém. Essa região é importante para o mundo. Aqui nasceu a palavra Brasil, mas já não tem mais quase pau-brasil", conclui.

CIDADÃO – Krajcberg receberá o título de cidadão baiano na próxima sexta-feira, às 10 horas, na plenária da Assembleia Legislativa, aos 86 anos, depois de viver 35 anos na Bahia. "Pela primeira vez estou me sentindo na minha casa, dormindo na minha cama", declarou.

Há dois anos, o artista, defensor das causas ambientais, havia declarado que estava desistindo da Bahia, terra que adotou como sua desde 1973, quando veio morar em Nova Viçosa. Na realidade, ele disse que, apesar da declaração, nunca pensou em abandonar a Bahia.

"Sou baiano com o maior orgulho da terra de onde esse país nasceu".

A declaração, na época, se deu por nunca ter recebido apoio, nem ao menos uma visita, de governantes do Estado. No ano passado, o governador Jaques Wagner esteve no Sítio Natura, durante o aniversário do artista. Foi a primeira vez que um governador do Estado esteve em seu sítio, vendo de perto sua obra. "Fiquei impressionado com o governador, é uma pessoa simples. Ficamos amigos", revelou Krajcberg.

O artista nasceu em Kozienice, Polônia, em 1921. Combatente do Exército Soviético na 2ª Guerra Mundial, emigrou em 1948 para o Brasil.


Caderno 2 - A Tarde - 04/03/08

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008


EUNÁPOLIS - Uma reportagem da Sucursal Extremo Sul do A TARDE, feita especialmente para O GLOBO, ganhou destaque na primeira página do jornal carioca, em sua edição deste domingo (24).

Com texto da jornalista Maria Eduarda Toralles e foto do repórter fotográfico Joa Souza, a notícia é sobre a adesão dos índios Pataxós da Reserva da Jaqueira, no município de Porto Seguro, à modernidade do cartão de crédito.

Os turistas que procuram a aldeia para comprar artesanato ficam surpresos com a possibilidade de pagar a conta com cartão de crédito. Implantado há cerca de um mês, o dinheiro de plástico impulsionou as vendas em 50%, destaca a matéria.
As 32 famílias, cerca de 70 indígenas que vivem na Reserva da Jaqueira, sobrevivem com a venda de artesanato, produzido com sementes e coco e confeccionado pelos próprios índios. Outra fonte de renda é o valor de ingresso de entrada na reserva, onde os visitantes podem vivenciar um pouco da cultura pataxó.

O único inconveniente em operar as maquininhas é que na Jaqueira não tem energia elétrica. Isso obriga os índios a levarem o equipamento para carregar as suas baterias na parte mais urbanizada da aldeia, em Coroa Vermelha. A conexão telefônica das maquinas de cartão é feita através de celular, cujo sinal chega à reserva da Jaqueira sem problemas.
Site Radar 64 (www.radar64.com) - 24/02/08

Nova apreensão de animais silvestres no extremo sul da Bahia

Durante uma operação de combate ao crime, realizada pela Polícia Rodoviária Federal (PRF), na noite da última quinta-feira, 28, foram apreendidos, em Eunápolis (a 640 quilômetros de Salvador), 19 filhotes de papagaio, cinco maritás (periquitos) e um filhote de arara.

As aves estavam sendo transportadas em caixas de papelão no veículo Fiat Strada, de placa JQW-7536, com restrição de roubo desde o dia 8 de dezembro de 2007. Foram detidos em flagrante e encaminhados à Delegacia de Eunápolis Edilmar Lima Novaes, de 30 anos, e sua mãe, Josefa Lima Novaes, de 68 anos. Edilmar já havia respondido à Justiça por crime ambiental, à época também por transportar animais ameaçados de extinção.

De acordo com o chefe de policiamento da PRF, Cláudio Santos, os acusados revelaram que saíram de Feira de Santana, compraram os filhotes em São João do Paraíso (município de Mascote) e seguiam para o povoado de Monte Pascoal (município de Itabela) para adquirir mais aves.

Edilmar revelou à equipe de reportagem da sucursal de Eunápolis do jornal A Tarde que as aves apreendidas seriam comercializadas em feiras livres, por valores entre R$ 100 e R$ 150 cada. Segundo ele, os filhotes haviam sido comprados por R$ 25,00 cada.

No último dia 25 (segunda-feira), patrulheiros da PRF já haviam apreendido 60 filhotes de papagaios, 45 canários e um quati, no km 593 da BR-101, próximo ao município de Camacã. As aves também estavam acondicionadas em caixas de papelão e em gaiolas, dentro do Ford Fiesta, placa KHL-8375, conduzido por José Antônio da Silva. Ele e os passageiros Jorge José da Silva, Ednei Dias de Souza e Edjailson Antônio da Silva foram presos em flagrante por tráfico de animais silvestres e encaminhados à Delegacia de Camacã.

O tráfico de animais silvestres é comum no extremo sul do estado, onde ainda sobrevivem os maiores remanescentes de Mata Atlântica. É frequente ver animais sendo oferecidos por vendedores às margens da BR-101, especialmente papagaios. Segundo a analista ambiental do Ibama de Eunápolis, Lígia Ilg, o aumento das apreensões de filhotes se deve ao final do período de desova das aves.

A Lei 9.605, de 12 de fevereiro de 1998, prevê apreensão da carga, multa e detenção para quem for pego com animais silvestres. A multa é de R$ 500,00 por animal apreendido, podendo chegar a R$ 5 mil se a espécie estiver ameaçada de extinção.

Além do crime ambiental, o tráfico de animais silvestres pode representar riscos à saúde pública, pois os animais comercializados ilegalmente não passam por nenhum tipo de controle sanitário, podendo transmitir doenças graves a animais domésticos e a seres humanos, alerta a analista do Ibama.

As aves apreendidas pela PRF foram encaminhadas ao escritório do Ibama em Eunápolis, onde receberam os primeiros cuidados dos fiscais. Muitas não resistiram e acabaram morrendo. Os animais sobreviventes serão posteriormente enviados ao Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas), em Vitória da Conquista, onde, após avaliação, poderão ser reintroduzidos ao habitat.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Índios aderem aos cartões


Quem procura a Reserva Indígena da Jaqueira, na região de Porto Seguro, no extremo sul da Bahia, para comprar artesanato, costuma se surpreender com a possibilidade de pagar a conta com cartão de crédito. Implantado há cerca de um mês, o uso do “dinheiro de plástico” para pagamento da entrada na reserva e na compra de artesanatos impulsionou as vendas dos produtos da aldeia, onde vivem hoje 32 famílias de pataxós, cerca de 70 indígenas.

“Mas vocês, com Visa?”, costumam reagir os turistas, conforme relata o índio pataxó Juraci, vice-presidente da Associação Pataxó de Ecoturismo. “Com o cartão de crédito, nossas vendas aumentaram em 50%. Outro dia mesmo veio um turista e separou um monte de artesanato, só levou porque aceitávamos cartão. Normalmente, eles levariam uma só peça, pois andam com pouco dinheiro no bolso”, conta a índia Mitynawã (que, na língua pataxó, significa “muitas frutas”).

SURPRESA

Retornando mais uma vez à Reserva da Jaqueira, a turista Tânia Mara Scavello diz ter se surpreendido já na entrada, ao ver a placa indicativa de aceitação do cartão de crédito. “Há tantos lugares que não aceitam, e eles aqui já estão se modernizando”, comenta.

Tânia foi à reserva com o marido, o italiano Mário Scavello, para levar um casal de amigos. Mário já mora em Porto Seguro há alguns anos e avaliou como positiva a implantação do sistema de pagamento por crédito na aldeia. “Eles já sobrevivem da tradição deles, está certo desfrutarem um pouco da tecnologia para ganharem algum dinheiro”, aponta.

Para o casal de turistas paulistas Fabrício Lisboa e Camila Rodrigues, que visitavam a reserva indígena pela primeira vez, a nova alternativa de pagamento também foi uma surpresa. “Fiquei surpresa pelo fato de estar numa aldeia indígena e ter esse privilégio de poder contar com a modernização”, diz Camila.

CULTURA

As 32 famílias que vivem na Reserva da Jaqueira sobrevivem com a venda de artesanato, produzido com sementes e coco, confeccionado pelos próprios índios. Outra fonte de renda é o valor do ingresso de entrada na reserva, onde os visitantes podem vivenciar um pouco da cultura pataxó, assistindo a danças, fazendo trilhas pela mata e provando comidas típicas, como o Mucusui (peixe preparado na folha de patioba). O ingresso custa R$ 35 por pessoa, e o preço das peças de artesanato varia de R$ 5 a R$ 15.

Em média, 20 turistas visitam a reserva por dia durante a alta estação, sendo 80% deles brasileiros. Mitynawã revela que o dinheiro arrecadado é depositado em uma agência bancária. No final do mês, após o pagamento das despesas da aldeia e uma colaboração com a escola indígena de Coroa Vermelha (onde estudam as crianças da reserva), o valor restante é dividido entre as famílias que vivem na Jaqueira.

“Não somos assalariados, aqui todo mundo trabalha como voluntário. A venda do artesanato é uma alternativa de sobrevivência, pois não caçamos mais, e a implantação do cartão de crédito está colaborando para o aumento da renda da nossa comunidade”, comemora a índia.

O único inconveniente em operar as maquininhas é a falta de energia elétrica na Jaqueira. Isso obriga os índios a levarem os equipamentos para carregar as baterias na parte mais urbanizada da aldeia, em Coroa Vermelha, onde há fornecimento de energia. A conexão das máquinas de cartão é feita por meio de celular, cujo sinal chega à Reserva da Jaqueira sem problemas.


O GLOBO E A TARDE - CADERNO DE ECONOMIA - 24/02/2008


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

O caminhar de uma lutadora

A menina Talita dos Santos Viana, de 8 anos, deu, há pouco mais de um mês, seus primeiros passos. Agora, com um sorriso no rosto, faz questão de mostrar sua sala de treinamento: o berçário da Casa Vó Jurema, em Arraial d’Ajuda, a 707 quilômetros de Salvador. “Minha brincadeira preferida é caminhar no berço dos pequenos”, diz. Sua história de vida é um exemplo de luta e aprendizado para todos.

Quando tinha apenas 9 meses de vida, em 2000, Talita sofreu graves queimaduras. Ela estava no barraco onde os pais moravam, sob os “cuidados” das duas irmãs mais velhas — uma de 3 anos e outra de 1 ano e meio.

Sua chupeta caiu no chão, e a irmã mais velha foi pegá-la. Ao devolver a chupeta para Talita, que dormia em um colchão colocado no chão, a menina derrubou uma vela acesa. As chamas atingiram o mosquiteiro e o colchão onde Talita estava. Ela teve 90% do corpo queimado.

AJUDA

Em 2002, o pai de Talita foi pedir ajuda a Jurema Leopoldina Bacichet, proprietária da Casa Vó Jurema, que decidiu adotar a menina. Talita passou a morar na creche e, nesses 8 anos de vida, já enfrentou 20 cirurgias para reconstituição dos órgãos queimados. Ficou um ano e dois meses em coma por causa de uma dessas cirurgias e teve que amputar as pernas (o que restou delas).

Com muito esforço, os médicos conseguiram recuperar os braços, mas a menina não tem as mãos. As cirurgias — feitas pela equipe do renomado cirurgião plástico Ivo Pitanguy — e o atendimento hospitalar são gratuitos, mas as despesas com transporte e hospedagem no Rio de Janeiro são custeadas pela instituição, que sobrevive de doações.

Talita não se adaptou às primeiras próteses de pernas, colocadas em uma clínica do Rio de Janeiro. No início deste ano, com os custos pagos por uma empresária de Arraial d’Ajuda (que prefere não se identificar), a menina foi levada ao Instituto de Prótese e Órtese (IPO), em Campinas, onde fez uma nova tentativa de adaptação. Desde o último dia 27, quando retornou à creche, Talita tem sido incansável nos treinos com as novas próteses.

Ela vai ao berçário e passa o dia caminhando entre os berços, que têm sido seu ponto de apoio.

ESPERANÇA

Talita faz questão de mostrar que já consegue sentar sozinha e cruzar as pernas.

O humor e a fisionomia da menina mudaram depois que passou a dar os primeiros passos. Há nove meses, a equipe da sucursal de Eunápolis do jornal A TARDE esteve na creche para fazer uma matéria sobre Vó Jurema. À época, Talita era uma menina acanhada e não demonstrava suas emoções. Agora, com um sorriso no rosto — marcado pelas queimaduras —, ela convidou a repórter e o fotógrafo a acompanhá-la até o refeitório.

No corredor, parou, soltou as mãos da cadeira de rodas que lhe servia de apoio e abriu os braços: “Tio, eu quero uma foto assim!”. Agora, seu sonho é começar a correr para brincar com os amigos da creche, onde cursa a primeira série.

Para quem quiser conhecer mais sobre o trabalho da Casa Vó Jurema, há o site www.casavojurema.com.br, onde estão disponíveis os contatos para doações.


A Tarde - 11/02/2008


quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Blocos levam alegria para turistas em Arraial

Você que vai passar o feriadão do Carnaval – de 1º a 6 de fevereiro – na Costa do Descobrimento, fique sabendo que não vai faltar alegria, tanto em Porto Seguro quanto em Arraial d'Ajuda. Durante os dias da folia momesca, o visitante terá muita coisa para ver, além da natureza deslumbrante, das praias, passeios ecológicos e noitadas na Passarela do Álcool. E todos os caminhos levam ao badaladíssimo vilarejo do verão baiano.

Mais uma vez, a novidade será o desfile do bloco Bandeiroza, que há 12 anos reúne moradores de Arraial, vilarejo de Porto Seguro, a 707 km de Salvador. A ideia de se criar um bloco surgiu como alternativa para o turista que visitava Porto Seguro nesta época e procurava participar de eventos que resgatassem os carnavais antigos, com charanga, marchinhas, plumas e paetês.

A propósito, aí vai um trecho da letra do samba-enredo do bloco de Carnaval Bandeiroza deste ano:
"Diz a lenda que lá pelos loucos anos 60/70, um jornalista esteve em Arraial d'Ajuda para tentar entender por que cada vez mais as pessoas que conheciam o lugar voltavam para suas cidades deslumbradas e apaixonadas por este Arraial."

Luís Cláudio Ribeiro, 43 anos, um dos idealizadores do bloco, lembra:
"Queríamos um bloco com a criatividade do Carnaval de Recife, a alegria do Carnaval de Salvador e o luxo do Carnaval carioca."
Na época da criação do Bandeiroza, ele era dono de um bar e procurava uma alternativa para manter seus clientes no vilarejo durante os dias da folia.
"Hoje já tem quem venha especialmente para o Carnaval de Arraial", comemora Ribeiro.

Este ano, o Bandeiroza contará um pouco da história do vilarejo, que o mesmo jornalista (citado na letra do samba-enredo), na década de 1980, definiu com a seguinte frase:
"Arraial d'Ajuda: se cobrir vira circo, se fechar vira hospício e se contar ninguém acredita."
O enredo, portanto, falará dos diversos "circos" que formam o vilarejo: o circo mágico, o circo da alegria, o circo místico e o circo boêmio.

VISTA DO SANTUÁRIO

O encanto de Arraial d'Ajuda passa pelas belas paisagens que se descortinam nas praias, na vista dos fundos do Santuário de Nossa Senhora d'Ajuda (no centro de Arraial) e no colorido das pousadas e residências do vilarejo. Pela vida simples das cidades do interior e pela forma como seus moradores acolhem bem a todas as tribos e gerações — das crianças aos hippies, e à melhor idade.

No centro do vilarejo, é possível ver o contraste entre a arquitetura e a paisagem que se revela como pano de fundo do Santuário, construído em 1549, na extremidade da parte mais antiga do Arraial.

HISTÓRIAS E PAISAGENS QUE ATIÇAM A IMAGINAÇÃO

O Circo Mágico é onde os visitantes mais se encantam. Faz parte das atrações turísticas de Arraial d'Ajuda, que começam pelas belezas naturais do vilarejo e de suas praias. Quem não fica deslumbrado ao ver a belíssima vista do mar da Costa do Descobrimento dos fundos do Santuário de Nossa Senhora d'Ajuda? E o colorido das pousadas e residências do vilarejo? Ali está tudo que enriquece e torna invejável a vida simples das cidades do interior baiano. E quando se trata de seu vasto litoral, nem se fala.

Arraial tem algo especial: a forma simpática e cordial com que seus moradores acolhem os visitantes.
Todas as tribos e gerações de brasileiros que chegam a Arraial têm vez — das crianças aos hippies, sem excluir a galera da melhor idade, que cada vez mais viaja para conhecer o próprio país.

CHICO TRIPA

Na Lapinha surgiram as primeiras e toscas pousadas, lá pelos primórdios do "boom" turístico de Porto Seguro e arredores, nos anos 1960. Hoje, é referência, lembrado como um dos primeiros bairros do vilarejo, onde morava Francisco Alexandrino de Moraes, figura histórica do lugar.

Ele ficou conhecido como Chico Tripa, que, por sinal, será um dos nomes tradicionais a serem homenageados pelo bloco Bandeiroza. O desfile será, portanto, uma oportunidade para que os turistas conheçam um pouco da vida de Chico Tripa, falecido em 1998. Era nativo de verdade — nasceu em Arraial e foi o primeiro vendedor de lotes no vilarejo.
"Ele vendia as terras e, quando as pessoas não podiam pagar, aceitava mercadorias em troca. Lembro de uma senhora que pagou com um relógio. Ele só queria receber a parte dos impostos", conta Ruth Alexandrino, filha de Chico, que ainda mora no bairro Lapinha.

Com o desenvolvimento do turismo na região de Porto Seguro nos últimos 35 anos, as coisas melhoraram bastante. Tanto que o bairro histórico de Arraial d'Ajuda hoje abriga residências, comércios e pousadas. A rua de entrada foi revitalizada pelos próprios moradores, com a criação da Praça da Lapinha. As fachadas das casas antigas da área foram pintadas, e hoje exibem um visual multicolorido que encanta os visitantes.

Outras figuras homenageadas pelo bloco Bandeiroza no Carnaval de 2008 serão:

  • Beto da Farmácia, que teria sido o primeiro "médico" do vilarejo;

  • Fernanda Fernandes, modelo que por muitos anos deu mais vida e alegria ao local;

  • E o boêmio Moacir "Moa", figura querida entre nativos e visitantes.

BRODUÉI É UM CIRCO MÁGICO

Uma das ruas mais conhecidas e badaladas de Arraial d’Ajuda hoje foi batizada com este nome pelos hippies que descobriram o vilarejo nos anos 1960/70. A alusão era à Broadway de Nova Iorque, que a galera descolada conhecia bem.

A rua será destaque no bloco Bandeiroza.
"Era na Broduéi que ficavam os bares, lojinhas e restaurantes que abriam suas portas, e onde se montavam pequenos palcos nos quais artistas dos mais variados estilos se apresentavam aos visitantes. Era um circo mágico", diz o enredo do bloco.

Hoje, a Broduéi está mudada. Já não abriga apenas barzinhos; virou quase um calçadão. Os bares deram lugar ao comércio, mas sem perder o estilo característico de Arraial. Os hippies continuam presentes, ocupando a Praça São Brás, no final da rua, onde vendem artesanatos à noite.

A Rua Mucugê será o palco do desfile das Bandeirozas. Lá estão os mais charmosos e coloridos restaurantes, lojinhas e barzinhos do vilarejo.

BECO DAS CORES

Ponto de encontro tradicional de turistas e nativos, o Beco das Cores abriga creperias, pizzarias, restaurantes e uma cachaçaria. É lá que, na segunda-feira de Carnaval, acontece o Baile de Máscaras, que segundo comerciantes, “dá mais magia ao já encantado lugar”.

O enredo do bloco deste ano também valoriza a presença de culturas estrangeiras — italiana, argentina, mexicana, japonesa. Arraial agrada a todos os gostos e tribos.

E não poderia ficar de fora do Carnaval das bandas e abadás.
Nas noites de 2 a 5 de fevereiro, as praias como a do Parracho se transformam em mais uma opção para recarregar as energias da folia, com shows de Olodum, Banda Nairê, DJ Malboro, entre outras atrações.

Durante o dia, as águas calmas e azuis das praias Mucugê, Parracho, Pitinga e Lagoa Azul — estas últimas emolduradas por falésias douradas em contraste com o azul do mar — são o cenário perfeito para descanso e contemplação. Essas praias são as mais próximas do centro do vilarejo e são movimentadas, mas sem tumulto.

BLOCOS CAIÇARAS E DA 3ª IDADE

Além do bloco Bandeiroza, o Carnaval à moda antiga de Arraial d’Ajuda inclui também o bloco Caiçaras, formado por nativos. O enredo deste ano destaca os grupos baianos e a mitologia africana, que mais tarde se transformou na afro-brasileira. O Caiçaras desfilará na segunda-feira com uma comissão de frente composta por baianas estilizadas.

Na sexta-feira, 1º de fevereiro, as ruas de Arraial se animam com o bloco Pé-de-Cana, em seu segundo ano, que sai com abadás e é puxado por um minitrio.

O bloco da Terceira Idade, ou Melhor Idade, como queiram chamá-lo, o bloco da Terceira Idade sairá pelo terceiro ano consecutivo no sábado de Carnaval, dia 2. O bloco é formado por senhoras do famoso vilarejo de Porto Seguro, que se reúnem durante todo o ano em atividades esportivas, artesanais e culturais. O Terceira Idade também é puxado por uma curiosa charanga, e todos os componentes desfilam fantasiados.

ARTESANAL

A opção por fazer uma festa “artesanal” em Arraial d’Ajuda tem por finalidade animar e atrair para a folia não só os integrantes dos blocos, mas todos os que estiverem pelas ruas do vilarejo durante os dias de Carnaval.

Os blocos não possuem cordas, e nada é cobrado para que qualquer pessoa possa sair sambando atrás das charangas e minitrios. Para encerrar, na terça-feira de Carnaval, acontece o encontro dos quatro blocos na Rua Mucugê.

É a hora das despedidas.

RESSACA CULTURAL

Acabada a festa, o verão continua firme em Porto Seguro, com sol e praias durante o dia e baladas à noite. Os turistas podem visitar o Centro Histórico, onde se encontram relíquias arquitetônicas dos primeiros anos da colonização portuguesa.

No sítio, encontram-se a Igreja de Nossa Senhora da Peña, erguida no século XVI, que abriga 20 imagens de santos, inclusive a da padroeira da cidade. A Casa de Câmara e Cadeia é outro exemplar precioso da época, mesmo após reformas.


* Caderno de Turismo - A Tarde - 17/01/2008

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

FOGO NA DECOLAGEM

Um helicóptero modelo Robson 44, destinado a voos panorâmicos com turistas, caiu de aproximadamente três metros de altura e incendiou-se, na tarde de ontem, na orla norte de Porto Seguro (a 707 km de Salvador, no extremo sul). Três passageiros permaneceram no helicóptero no início do incêndio e foram resgatados com queimaduras por um ambulante e pelo marido de uma das passageiras. O aparelho era disponibilizado pela barraca Tô à Toa, para voos.

De acordo com o turista mineiro Juliano Medeiros, que estava a menos de 100 metros do acidente, o helicóptero tinha acabado de decolar quando começou a balançar (inclinar para os lados). O piloto retornou ao heliporto e desceu correndo da aeronave. Os passageiros Rubens Mota Fernandes, 46 anos, Letícia Dutra Ambrósio, 13, e Joelma Rosa de Oliveira, 27, ficaram presos na aeronave e foram resgatados pelo ambulante e pelo marido de Joelma.

Segundo Joelma, o piloto Juliano Rufino foi o primeiro a abandonar o helicóptero e não prestou socorro aos passageiros. “Na hora, eu só pensei que ia morrer. O piloto foi embora e deixou a gente lá dentro”, comentou, nervosa, a passageira.

O heliporto de onde decolou a aeronave fica ao lado da barraca, pertencente a Paulo Onishi. O acidente ocorrido ontem poderia ter tido proporções maiores, caso o piloto não tivesse conseguido retornar ao heliporto.

CORRERIA

“Eu vi que a aeronave começou a cair para o lado e desceu. Depois veio o fogo. Foi horrível, as pessoas ficaram presas. Aqui fora, todo mundo corria com medo de explosão”, contou uma vendedora que preferiu não se identificar. Depois que os passageiros foram resgatados, a aeronave queimou totalmente.

Até o final da tarde, as autoridades da Aeronáutica e da Polícia Civil, que estão apurando o caso, preferiram não se pronunciar. O piloto foi contatado por telefone, mas alegou não ter condições de falar sobre o acidente. Os feridos foram conduzidos ao Hospital Luís Eduardo Magalhães. Rubens sofreu traumatismo craniano leve e ficou em observação por 12 horas. Joelma teve uma queimadura no pé, foi medicada e liberada. Letícia teve escoriações leves, segundo o médico coordenador da emergência.

Representantes da Aeronáutica, que apuram o acidente e estiveram no local, não deram informações sobre o proprietário nem sobre a manutenção do aparelho. O dono da barraca não foi localizado para comentar o caso.

Jornal A Tarde - 08/01/08

sábado, 5 de janeiro de 2008

Freiras dão força a mães lavradoras

Trabalho social de irmãs missionárias permite que agricultores do distrito de Vera Cruz, em Eunápolis, possam trabalhar

Todas as manhãs, às 4 horas, o casal José e Marta deixa os dois filhos pequenos na casa das Irmãs da Congregação Missionárias Servas do Senhor, no distrito de Vera Cruz, em Eunápolis, antes de ir para a colheita do café. No final da tarde, após as 19 horas, o casal pega os filhos de volta.

Esse ritual é o mesmo para os pais de outras 233 crianças que frequentam a Creche Cruz de Malta, no mesmo bairro. “Eles deixam lá em casa, porque no horário em que saem para trabalhar a creche ainda não abriu e, quando voltam, já fechou”, conta a Irmã Lilia, responsável pela creche.

O trabalho social desenvolvido pelas missionárias tem proporcionado aos trabalhadores rurais a possibilidade de cumprir sua jornada nas lavouras de café, deixando os filhos aos cuidados da creche. Lá, 235 crianças recebem alimentação e praticam atividades pedagógicas e de lazer.

Tia Irmã Lilia, como a freira é chamada pelas crianças, conta que 90% das crianças atendidas na creche são filhos de trabalhadores rurais, a grande maioria envolvida na colheita de café. A creche começou a funcionar há dois anos, depois que a congregação notou a necessidade de uma instituição para atender os filhos dos trabalhadores no bairro. “A maioria dessas crianças passava o dia sozinha dentro de casa, muitas vezes sem ter o que comer”, relatou.

PIMENTA

A freira se emocionou ao narrar a história de uma família com seis crianças, que o pároco local foi visitar há dois anos e encontrou todas as crianças sozinhas em casa, a mais velha com oito anos, na época. Ao serem indagadas sobre o que haviam comido naquele dia, a menina mais velha não hesitou em abrir a porta da casa (um pequeno barraco de não mais de seis metros quadrados), apanhar uma pimenta no pé e colocá-la na boca. “A gente só come isso”, disse a menina.

Hoje, a menor tem 10 anos (com estatura de criança de três), e está sendo criada pelas freiras. Seus irmãos frequentam diariamente a creche, onde recebem alimentação, banho, educação e, principalmente, muito amor das seis religiosas e das 18 voluntárias que ajudam na instituição. “A mãe dos menores, grávida do sétimo filho, também costuma frequentar a creche no horário das refeições.”

DESNUTRIDOS

O casal e três filhos (dois foram dados em adoção) moram nas terras de uma família, mas são impedidos de colher verduras. Recebem R$ 35 por mês para cuidar da roça, mas há meses em que o pagamento vem em forma de pinga ou fardo de boi”, relata a freira. “Assim como essas crianças, a maioria dos meninos que atendemos só se alimenta e só toma banho aqui na creche. Os pais passam o dia no trabalho e não têm o que comer em casa.

Muitos pais estão trabalhando, mas, quando terminar a colheita do café, serão mais 200 desempregados”, prevê a irmã, informando que, nesses casos, os pais passam a frequentar a creche como voluntários e fazem as refeições na instituição.

A Creche Cruz de Malta foi criada com a ajuda de monsenhor Jorge Crima, por meio de um convênio com a comunidade da Ilha de Malta (no Mar Mediterrâneo), e é mantida com doações da comunidade. Além das seis Irmãs que trabalham na creche, as 18 funcionárias que atendem às crianças atuam voluntariamente.

A Tarde - 20/06/2004

Mulher ameaça matar 111 crianças

“Se retirar uma dessas crianças, eu mato todos os outros”, disse Luciene Sena, dona da creche e orfanato Melquisedeque, à policial federal Joseane Sousa Caldas, que foi ao local, como cidadã, para adotar uma criança. A advogada Fernanda Salvatori ouviu, em 2005, a mesma declaração da dona da creche ao se mostrar interessada em adotar um menino. Na Melquisedeque, em Porto Seguro (a 640 km de Salvador), vivem, em regime de internato, 111 crianças e adolescentes, que são chamados de “filhos” por Luciene.

Revoltada com a ameaça que ouviu, a policial federal Joseane procurou a Justiça de Porto Seguro e conseguiu um mandado, expedido pelo juiz da Vara da Infância e Juventude, Álvaro Marques de Freitas, para realizar uma inspeção no local. O relatório final, encaminhado ao juiz, denuncia as condições insalubres e o estado deplorável em que são mantidos os internos, ferindo o Estatuto da Criança e do Adolescente.

TERROR

“O estado de violência psicológica e constrangimento é tão profundo que, embora tenhamos essa situação como digna de um cenário de terror, para os adolescentes e adultos que lá vivem, aquilo parece normal, pois a maioria, senão todos, segundo suas histórias de vida, não conhece outra realidade ou tem contato com o mundo exterior, uma vez que são privados da liberdade de sair e até mesmo de assistir à televisão”, disse a policial federal e também conselheira tutelar Joseane Caldas.
As crianças e adolescentes são deixados aos cuidados de Luciene Sena pelos pais (quando têm) ou por qualquer outra pessoa, no caso de órfãos. Alguns pais dos internos visitam os filhos de 15 em 15 dias.

INVESTIGAÇÃO

A situação irregular da creche vem sendo investigada pelo Ministério Público desde 2004, segundo a promotora Jaqueline Magnavita. “Dei um prazo para ela resolver as irregularidades. Ele não foi obedecido”, disse, lamentando que a indicação do Artigo 227 da Constituição Federal, que prevê prioridade absoluta nas questões que envolvem crianças e adolescentes, não esteja sendo obedecida pela Justiça de Porto Seguro.
Na última terça-feira, dia 10, a promotora entrou mais uma vez com pedido para a retirada dos internos da creche e orfanato Melquisedeque, para que sejam encaminhados às casas dos pais ou, na ausência de familiares, levados para outras instituições de Porto Seguro.
Quatro delas já se prontificaram a recebê-los, e representantes do município assinaram termo garantindo as contrapartidas exigidas pelas instituições, informou a promotora.
O processo do Ministério Público traz provas fotográficas, relatórios sobre a inspeção de higiene na instituição de Porto Seguro, além da constatação da falta de registro no Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA). Apesar das irregularidades, a creche funciona há 23 anos.

MANDADO

Joseane Sousa Caldas voltou ao local, na função de policial, com mandado, e constatou as irregularidades, inclusive o desvio de doações. Os policiais federais realizaram as inspeções com os conselheiros tutelares Elane Prates de Souza e Antônio Magnavita Filho.
Na última visita realizada pela PF, adolescentes da instituição cercaram a viatura e arranharam a pintura. “Eles iam queimar a viatura, mas não encontraram gasolina”, revelou a policial. Durante a visita da equipe de A TARDE à creche, Luciene Sena disse que a vistoria da PF era para procurar drogas, que não foram encontradas.
Ela afirmou que algumas doações foram desviadas antes de chegar à sua instituição e disse que as denúncias apresentadas ao MP são de pessoas interessadas em receber o que ela recebe, “que são coisas dos italianos”. Sobre a revolta dos adolescentes contra a PF e a equipe de jornalismo, Luciene disse que eram “coisas de crianças”, que não deveriam ser levadas em consideração. “Eles se revoltaram com a polícia porque disseram que iam me levar presa”, justificou.

Muitos deixam de fazer doações à instituição, revoltados com a situação

De férias em Salvador, o juiz titular da Vara da Infância e Juventude de Porto Seguro, Álvaro Marques de Freitas Filho, conversou por telefone com a reportagem de A TARDE e disse que, até o início de suas férias, não havia recebido o parecer do Ministério Público, informando também que só dará parecer final sobre o caso após analisar o relatório da promotoria e ter a garantia de um local para onde as crianças possam ser transferidas. O juiz retorna das férias no início de maio.
Para Álvaro Marques, a questão é bastante complexa, pois, além das crianças “criadas” por Luciene, na casa vivem também seus 11 filhos biológicos e outros parentes.
A Melquisedeque é mantida com doações da comunidade e, de acordo com o relatório da Polícia Federal, com a aposentadoria de um menino de 17 anos que tem síndrome de Down (a PF encontrou o jovem preso em uma sala com grades).
Um empresário, que não quis se identificar, atesta a complexidade do caso: “Faço doações de alimentos porque tenho pena das crianças, mas sei que tem muitas coisas erradas. Não é permitida a doação de bolas nem de televisores, porque a religião dela não permite. Eu queria que encontrassem uma casa melhor para colocar todas aquelas crianças, para que elas tivessem melhores oportunidades na vida”, comentou.
Um casal de italianos, que também preferiu não se identificar, disse que esteve na instituição com o intuito de formalizar uma ajuda financeira, mas desistiu.
A advogada Fernanda Salvatori afirmou que vários de seus clientes fizeram doações em dinheiro na conta de Luciene, além de roupas, freezer, cozinha industrial, material para a construção dos banheiros e brinquedos. Estes últimos foram devolvidos por Luciene, por considerá-los “coisas do demônio”. A advogada revelou que, com o tempo, seus clientes acabaram suspendendo as doações, pois constataram que elas não estavam sendo empregadas para melhorar as condições de vida das crianças.

Todos os relatórios destacam que a situação é muito grave

Tanto o relatório da Polícia Federal quanto o da psicóloga e da assistente social do Projeto Sentinela apontam total falta de condições, principalmente de higiene, para a permanência das crianças e adolescentes na instituição. Já na chegada, os policiais federais constataram que as crianças menores são mantidas num pátio interno. Lê-se no relatório: “A maioria (das crianças menores) amontoada, segurando as grades da janela, algo que remete à imagem de detentos”.
Medicamentos foram encontrados em locais de fácil acesso às crianças.
Existem apenas dois banheiros no local, um para meninas e outro para meninos, mas nenhum possui porta. Apenas um tem uma pia, sem torneira. Somente um possui vaso sanitário, porém a descarga não funciona. A instituição já recebeu três doações para a construção dos banheiros, inclusive R$ 10 mil da Vara da Infância e Juventude.
Não há local separado para a higiene de bebês, nem banheiras. Eles são lavados em bacias colocadas no chão do berçário. “Observamos que nos quartos de meninas e meninos, são alojados internos de diferentes faixas etárias, uma vez que a idade dos internos varia de 5 a 21 anos. Esse problema deve ser sanado com a máxima urgência”, disse a policial federal Joseane Caldas.
Em cômodos fechados com cadeado, foram encontrados colchões, panos e roupas sujas e mofadas.

DIFERENÇA

No quarto utilizado por Luciene e seus familiares, mantido trancado, foram encontrados objetos de valor, como guitarras e amplificadores, além de um cofre. “Apenas esse quarto dispunha de ventiladores, chuveiro elétrico e forro nas camas. Havia também alimentos, como iogurtes e bolachas recheadas, e brinquedos que não estão disponíveis para as crianças”, relata a policial.
As refeições são preparadas no quintal, num fogão a lenha, próximo a um esgoto a céu aberto, mesmo após a doação de um fogão industrial. “Havia uma panela com macarrão, que seria servido no almoço, no chão. As refeições são preparadas pelos filhos de Luciene.”
Internos ensacam carvão doado pelo Ibama, vendido por R$ 3 o saco. Há duas salas de aula com professoras pagas pelo município, mas Luciene determina conteúdo e metodologia.

PASSO A PASSO

A TARDE recebeu denúncia da escrivã da PF, Joseane Caldas, com cópia dos relatórios da PF e do Projeto Sentinela;
Procurou a promotora Jaqueline Magnavita e checou a documentação do processo sobre a creche;
Encaminhou os relatórios ao coordenador da 23ª COORPIN, Moisés Damasceno, e ao juiz Álvaro Marques;
Foi orientada a apresentar representação contra Luciene na Delegacia de Polícia Civil de Eunápolis.

Poucas brincadeiras são permitidas na entidade

A filósofa Heraldete Lima, atualmente supervisora de Educação Infantil da Secretaria de Educação, visitou a instituição e a definiu como “depósito de crianças”. “Descobri que meu pai fazia doações para lá e pedi que parasse”, lembra a filósofa. Ela diz que, durante sua visita, tentou realizar brincadeiras com as crianças, mas regras foram impostas por Luciene: as crianças não podem dançar, pular ou jogar bola.

“As crianças precisam desse tipo de atividade. Crianças que não passam por essas etapas podem apresentar problemas no desenvolvimento social, físico e psicológico”, avalia. Há dois anos, a diretora do Núcleo de Educação, Adnaci Rodrigues Lima, que atende à região do Projeto Vale Verde, onde fica a creche e orfanato, procurou Luciene para que fosse permitida a contratação de professores, pelo município, para atender as crianças da alfabetização à 4ª série. “Tínhamos muitos problemas com a documentação dessas crianças. Elas estudavam na escola mantida pela instituição, com uma professora paga por eles, mas não tinham a documentação da Secretaria da Educação”, conta.

Contratada pelo município para dar aula em uma das duas salas mantidas pela instituição, a professora Cecília Freire tem sua opinião sobre a dona da instituição: “Acho que ela precisa é de orientação”. Cecília trabalha com a professora Maria Rosa Pinheiro. Elas afirmam que não há nenhum tipo de interferência de Luciene na escola, apesar de ela ter proibido as aulas de Educação Física.

Questionadas sobre a possibilidade de essa proibição atrapalhar o desenvolvimento das crianças, as duas professoras disseram concordar que a ausência de atividades físicas prejudica o desenvolvimento psicomotor das crianças e dos adolescentes, além de excluí-los do convívio com outras pessoas de sua faixa etária.

Apesar de confirmarem a imposição de uma religião, as professoras afirmam que não presenciaram nenhum tipo de maus-tratos às crianças, que são definidas por elas como quietas, mas normais. Em relação à denúncia sobre o menino com síndrome de Down, Cecília disse que ele tem frequentado as aulas.

AMEAÇAS

O coordenador da 23ª Coordenadoria de Polícia do Interior, Moisés Damasceno, foi consultado sobre o caso. Segundo ele, as ameaças à vida das crianças, feitas por Luciene Sena, são consideradas crimes de menor potencial ofensivo. Por elas, garante Damasceno, Luciene será chamada para dar explicações, mas o caso não é de detenção da dona da creche e orfanato Melquisedeque. “Somente a Justiça pode determinar a prisão dela”, comenta.


Sorriso e alegria são artigos de luxo

O relatório assinado pela psicóloga Eliane Gandra Motta e pela assistente social Rosemara Moreira David, do Projeto Sentinela, solicitado pela Polícia Federal, depois de uma única visita à instituição, além de confirmar todos os pareceres do relatório da PF, alerta ainda para o fato da imposição de práticas religiosas. Luciene e o marido, Nedino, são pastores da Igreja Evangélica Pentecostal Ressurreição de Jesus Cristo.

Eliane e Rosemara falam também sobre o aspecto físico das crianças e adolescentes da instituição, com olhares de curiosidade e, ao mesmo tempo, de apatia alternada com agressividade. A maioria desses jovens dificilmente esboça um sorriso.

VISITA

Durante a visita de A TARDE, agendada com antecedência com Luciene, muitas das irregularidades apontadas pelos relatórios não puderam ser comprovadas. Neste dia, as crianças estavam correndo na área externa do prédio, algumas brincando no parquinho, mas foi possível constatar que, principalmente os adolescentes, estavam bastante arredios e desconfiados, tentando direcionar as áreas que podiam ser visitadas.


Depoimento

Não se pode mais fechar os olhos para os fatos
“Eu já tinha feito uma matéria sobre a creche e orfanato Melquisedeque, em janeiro de 2004, sob o título Orfanato é fruto do filho sonhado. Apesar de ter notado algumas coisas estranhas, como, por exemplo, o fato de ver crianças cuidando de crianças, acabei fazendo uma matéria positiva na época. Só depois soube de algumas denúncias contra a instituição, mas fiquei surpresa ao constatar que um grande número de pessoas, principalmente autoridades da área, sabia das irregularidades e não tomou providências.

Tornou-se cômodo para alguns membros da comunidade de Porto Seguro, para o poder público e autoridades, que deveriam salvaguardar os direitos das crianças e adolescentes, manter aqueles jovens ali, ainda que em condições insalubres e privados da liberdade. Foi a impressão que tive ao realizar as entrevistas para a elaboração da reportagem-denúncia publicada hoje em A TARDE.

Ao apurar as denúncias e ao ouvir pessoas que se importam com o futuro das crianças, despertei para o meu papel, como cidadã e ser humano. A melhor definição sobre a instituição foi da filósofa Heraldete Lima: 'Vi aquilo como um depósito de crianças'. Um depósito mantido fora da cidade, longe dos olhos de todos e que, portanto, não incomoda ninguém.”

Jornal A Tarde - 15/04/2007

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