Você que vai passar o feriadão do Carnaval – de 1º a 6 de fevereiro – na Costa do Descobrimento, fique sabendo que não vai faltar alegria, tanto em Porto Seguro quanto em Arraial d'Ajuda. Durante os dias da folia momesca, o visitante terá muita coisa para ver, além da natureza deslumbrante, das praias, passeios ecológicos e noitadas na Passarela do Álcool. E todos os caminhos levam ao badaladíssimo vilarejo do verão baiano.
Mais uma vez, a novidade será o desfile do bloco Bandeiroza, que há 12 anos reúne moradores de Arraial, vilarejo de Porto Seguro, a 707 km de Salvador. A ideia de se criar um bloco surgiu como alternativa para o turista que visitava Porto Seguro nesta época e procurava participar de eventos que resgatassem os carnavais antigos, com charanga, marchinhas, plumas e paetês.
A propósito, aí vai um trecho da letra do samba-enredo do bloco de Carnaval Bandeiroza deste ano:
"Diz a lenda que lá pelos loucos anos 60/70, um jornalista esteve em Arraial d'Ajuda para tentar entender por que cada vez mais as pessoas que conheciam o lugar voltavam para suas cidades deslumbradas e apaixonadas por este Arraial."
Luís Cláudio Ribeiro, 43 anos, um dos idealizadores do bloco, lembra:
"Queríamos um bloco com a criatividade do Carnaval de Recife, a alegria do Carnaval de Salvador e o luxo do Carnaval carioca."
Na época da criação do Bandeiroza, ele era dono de um bar e procurava uma alternativa para manter seus clientes no vilarejo durante os dias da folia.
"Hoje já tem quem venha especialmente para o Carnaval de Arraial", comemora Ribeiro.
Este ano, o Bandeiroza contará um pouco da história do vilarejo, que o mesmo jornalista (citado na letra do samba-enredo), na década de 1980, definiu com a seguinte frase:
"Arraial d'Ajuda: se cobrir vira circo, se fechar vira hospício e se contar ninguém acredita."
O enredo, portanto, falará dos diversos "circos" que formam o vilarejo: o circo mágico, o circo da alegria, o circo místico e o circo boêmio.
VISTA DO SANTUÁRIO
O encanto de Arraial d'Ajuda passa pelas belas paisagens que se descortinam nas praias, na vista dos fundos do Santuário de Nossa Senhora d'Ajuda (no centro de Arraial) e no colorido das pousadas e residências do vilarejo. Pela vida simples das cidades do interior e pela forma como seus moradores acolhem bem a todas as tribos e gerações — das crianças aos hippies, e à melhor idade.
No centro do vilarejo, é possível ver o contraste entre a arquitetura e a paisagem que se revela como pano de fundo do Santuário, construído em 1549, na extremidade da parte mais antiga do Arraial.
HISTÓRIAS E PAISAGENS QUE ATIÇAM A IMAGINAÇÃO
O Circo Mágico é onde os visitantes mais se encantam. Faz parte das atrações turísticas de Arraial d'Ajuda, que começam pelas belezas naturais do vilarejo e de suas praias. Quem não fica deslumbrado ao ver a belíssima vista do mar da Costa do Descobrimento dos fundos do Santuário de Nossa Senhora d'Ajuda? E o colorido das pousadas e residências do vilarejo? Ali está tudo que enriquece e torna invejável a vida simples das cidades do interior baiano. E quando se trata de seu vasto litoral, nem se fala.
Arraial tem algo especial: a forma simpática e cordial com que seus moradores acolhem os visitantes.
Todas as tribos e gerações de brasileiros que chegam a Arraial têm vez — das crianças aos hippies, sem excluir a galera da melhor idade, que cada vez mais viaja para conhecer o próprio país.
CHICO TRIPA
Na Lapinha surgiram as primeiras e toscas pousadas, lá pelos primórdios do "boom" turístico de Porto Seguro e arredores, nos anos 1960. Hoje, é referência, lembrado como um dos primeiros bairros do vilarejo, onde morava Francisco Alexandrino de Moraes, figura histórica do lugar.
Ele ficou conhecido como Chico Tripa, que, por sinal, será um dos nomes tradicionais a serem homenageados pelo bloco Bandeiroza. O desfile será, portanto, uma oportunidade para que os turistas conheçam um pouco da vida de Chico Tripa, falecido em 1998. Era nativo de verdade — nasceu em Arraial e foi o primeiro vendedor de lotes no vilarejo.
"Ele vendia as terras e, quando as pessoas não podiam pagar, aceitava mercadorias em troca. Lembro de uma senhora que pagou com um relógio. Ele só queria receber a parte dos impostos", conta Ruth Alexandrino, filha de Chico, que ainda mora no bairro Lapinha.
Com o desenvolvimento do turismo na região de Porto Seguro nos últimos 35 anos, as coisas melhoraram bastante. Tanto que o bairro histórico de Arraial d'Ajuda hoje abriga residências, comércios e pousadas. A rua de entrada foi revitalizada pelos próprios moradores, com a criação da Praça da Lapinha. As fachadas das casas antigas da área foram pintadas, e hoje exibem um visual multicolorido que encanta os visitantes.
Outras figuras homenageadas pelo bloco Bandeiroza no Carnaval de 2008 serão:
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Beto da Farmácia, que teria sido o primeiro "médico" do vilarejo;
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Fernanda Fernandes, modelo que por muitos anos deu mais vida e alegria ao local;
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E o boêmio Moacir "Moa", figura querida entre nativos e visitantes.
BRODUÉI É UM CIRCO MÁGICO
Uma das ruas mais conhecidas e badaladas de Arraial d’Ajuda hoje foi batizada com este nome pelos hippies que descobriram o vilarejo nos anos 1960/70. A alusão era à Broadway de Nova Iorque, que a galera descolada conhecia bem.
A rua será destaque no bloco Bandeiroza.
"Era na Broduéi que ficavam os bares, lojinhas e restaurantes que abriam suas portas, e onde se montavam pequenos palcos nos quais artistas dos mais variados estilos se apresentavam aos visitantes. Era um circo mágico", diz o enredo do bloco.
Hoje, a Broduéi está mudada. Já não abriga apenas barzinhos; virou quase um calçadão. Os bares deram lugar ao comércio, mas sem perder o estilo característico de Arraial. Os hippies continuam presentes, ocupando a Praça São Brás, no final da rua, onde vendem artesanatos à noite.
A Rua Mucugê será o palco do desfile das Bandeirozas. Lá estão os mais charmosos e coloridos restaurantes, lojinhas e barzinhos do vilarejo.
BECO DAS CORES
Ponto de encontro tradicional de turistas e nativos, o Beco das Cores abriga creperias, pizzarias, restaurantes e uma cachaçaria. É lá que, na segunda-feira de Carnaval, acontece o Baile de Máscaras, que segundo comerciantes, “dá mais magia ao já encantado lugar”.
O enredo do bloco deste ano também valoriza a presença de culturas estrangeiras — italiana, argentina, mexicana, japonesa. Arraial agrada a todos os gostos e tribos.
E não poderia ficar de fora do Carnaval das bandas e abadás.
Nas noites de 2 a 5 de fevereiro, as praias como a do Parracho se transformam em mais uma opção para recarregar as energias da folia, com shows de Olodum, Banda Nairê, DJ Malboro, entre outras atrações.
Durante o dia, as águas calmas e azuis das praias Mucugê, Parracho, Pitinga e Lagoa Azul — estas últimas emolduradas por falésias douradas em contraste com o azul do mar — são o cenário perfeito para descanso e contemplação. Essas praias são as mais próximas do centro do vilarejo e são movimentadas, mas sem tumulto.
BLOCOS CAIÇARAS E DA 3ª IDADE
Além do bloco Bandeiroza, o Carnaval à moda antiga de Arraial d’Ajuda inclui também o bloco Caiçaras, formado por nativos. O enredo deste ano destaca os grupos baianos e a mitologia africana, que mais tarde se transformou na afro-brasileira. O Caiçaras desfilará na segunda-feira com uma comissão de frente composta por baianas estilizadas.
Na sexta-feira, 1º de fevereiro, as ruas de Arraial se animam com o bloco Pé-de-Cana, em seu segundo ano, que sai com abadás e é puxado por um minitrio.
O bloco da Terceira Idade, ou Melhor Idade, como queiram chamá-lo, o bloco da Terceira Idade sairá pelo terceiro ano consecutivo no sábado de Carnaval, dia 2. O bloco é formado por senhoras do famoso vilarejo de Porto Seguro, que se reúnem durante todo o ano em atividades esportivas, artesanais e culturais. O Terceira Idade também é puxado por uma curiosa charanga, e todos os componentes desfilam fantasiados.
ARTESANAL
A opção por fazer uma festa “artesanal” em Arraial d’Ajuda tem por finalidade animar e atrair para a folia não só os integrantes dos blocos, mas todos os que estiverem pelas ruas do vilarejo durante os dias de Carnaval.
Os blocos não possuem cordas, e nada é cobrado para que qualquer pessoa possa sair sambando atrás das charangas e minitrios. Para encerrar, na terça-feira de Carnaval, acontece o encontro dos quatro blocos na Rua Mucugê.
É a hora das despedidas.
RESSACA CULTURAL
Acabada a festa, o verão continua firme em Porto Seguro, com sol e praias durante o dia e baladas à noite. Os turistas podem visitar o Centro Histórico, onde se encontram relíquias arquitetônicas dos primeiros anos da colonização portuguesa.
No sítio, encontram-se a Igreja de Nossa Senhora da Peña, erguida no século XVI, que abriga 20 imagens de santos, inclusive a da padroeira da cidade. A Casa de Câmara e Cadeia é outro exemplar precioso da época, mesmo após reformas.
* Caderno de Turismo - A Tarde - 17/01/2008