Quem procura a Reserva Indígena da Jaqueira, na região de Porto Seguro, no extremo sul da Bahia, para comprar artesanato, costuma se surpreender com a possibilidade de pagar a conta com cartão de crédito. Implantado há cerca de um mês, o uso do “dinheiro de plástico” para pagamento da entrada na reserva e na compra de artesanatos impulsionou as vendas dos produtos da aldeia, onde vivem hoje 32 famílias de pataxós, cerca de 70 indígenas.
“Mas vocês, com Visa?”, costumam reagir os turistas, conforme relata o índio pataxó Juraci, vice-presidente da Associação Pataxó de Ecoturismo. “Com o cartão de crédito, nossas vendas aumentaram em 50%. Outro dia mesmo veio um turista e separou um monte de artesanato, só levou porque aceitávamos cartão. Normalmente, eles levariam uma só peça, pois andam com pouco dinheiro no bolso”, conta a índia Mitynawã (que, na língua pataxó, significa “muitas frutas”).
SURPRESA
Retornando mais uma vez à Reserva da Jaqueira, a turista Tânia Mara Scavello diz ter se surpreendido já na entrada, ao ver a placa indicativa de aceitação do cartão de crédito. “Há tantos lugares que não aceitam, e eles aqui já estão se modernizando”, comenta.
Tânia foi à reserva com o marido, o italiano Mário Scavello, para levar um casal de amigos. Mário já mora em Porto Seguro há alguns anos e avaliou como positiva a implantação do sistema de pagamento por crédito na aldeia. “Eles já sobrevivem da tradição deles, está certo desfrutarem um pouco da tecnologia para ganharem algum dinheiro”, aponta.
Para o casal de turistas paulistas Fabrício Lisboa e Camila Rodrigues, que visitavam a reserva indígena pela primeira vez, a nova alternativa de pagamento também foi uma surpresa. “Fiquei surpresa pelo fato de estar numa aldeia indígena e ter esse privilégio de poder contar com a modernização”, diz Camila.
CULTURA
As 32 famílias que vivem na Reserva da Jaqueira sobrevivem com a venda de artesanato, produzido com sementes e coco, confeccionado pelos próprios índios. Outra fonte de renda é o valor do ingresso de entrada na reserva, onde os visitantes podem vivenciar um pouco da cultura pataxó, assistindo a danças, fazendo trilhas pela mata e provando comidas típicas, como o Mucusui (peixe preparado na folha de patioba). O ingresso custa R$ 35 por pessoa, e o preço das peças de artesanato varia de R$ 5 a R$ 15.
Em média, 20 turistas visitam a reserva por dia durante a alta estação, sendo 80% deles brasileiros. Mitynawã revela que o dinheiro arrecadado é depositado em uma agência bancária. No final do mês, após o pagamento das despesas da aldeia e uma colaboração com a escola indígena de Coroa Vermelha (onde estudam as crianças da reserva), o valor restante é dividido entre as famílias que vivem na Jaqueira.
“Não somos assalariados, aqui todo mundo trabalha como voluntário. A venda do artesanato é uma alternativa de sobrevivência, pois não caçamos mais, e a implantação do cartão de crédito está colaborando para o aumento da renda da nossa comunidade”, comemora a índia.
O único inconveniente em operar as maquininhas é a falta de energia elétrica na Jaqueira. Isso obriga os índios a levarem os equipamentos para carregar as baterias na parte mais urbanizada da aldeia, em Coroa Vermelha, onde há fornecimento de energia. A conexão das máquinas de cartão é feita por meio de celular, cujo sinal chega à Reserva da Jaqueira sem problemas.
O GLOBO E A TARDE - CADERNO DE ECONOMIA - 24/02/2008
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