sábado, 29 de dezembro de 2007

Vida de Curumim



"Os meninos tinham medo do sapo. Sempre que o enxergavam, corriam, mas um dia eles viram que o sapo estava ferido, quase morrendo. Correram, pegaram uma corda e o puxaram para fora d'água. Eles salvaram o sapo e ficaram amigos dele. Depois disso, iam todos os dias ao rio para brincar com ele." A história é uma das preferidas da indiazinha pataxó Iraê Novaes dos Santos, de 6 anos, chamada carinhosamente de Folhinha pelos familiares e amigos da Aldeia Indígena Pataxó de Coroa Vermelha, no município de Santa Cruz Cabrália (a 730 km de Salvador, no extremo sul do estado).
Folhinha é a filha do meio de cinco irmãos. Ela adora contar histórias para os irmãos menores e fazer desenhos, mas seu passa-tempo preferido é correr na frente de seu Kijeme (casa) com a prima Tailane dos Santos, também de seis anos. "Ela adora correr por aí. De manhã cedo, ela pula da cama, coloca a roupa e já sai para correr na rua", contou a mãe, índia Jumaira dos Santos (nome indígena que significa Sereia do Mar).
É Jumaira quem conta também por que Iraê é conhecida como Folhinha. "Quando ela nasceu, tinha uma pintinha bem no meio da testa e era um nenê curtinho e redondinho. Aí o avô dela disse que, se fosse filha dele, se chamaria Folhinha. Quase me bateu quando registrei o nome de Iraê. Acabou pegando o apelido de Folhinha. Nem ela lembra seu verdadeiro nome. No primeiro dia de aula, ela veio me perguntar por que a professora a tinha chamado de Iraê se seu nome era Folhinha", contou, entre sorrisos, a mãe da pequena.
O dia a dia de Folhinha na aldeia é igual ao de todas as crianças brancas. Ela acorda bem cedinho, toma seu leite (quando não tem leite, come feijão e farinha logo cedo) e vai brincar na rua com suas amigas. E espaço para correr é o que não falta em volta de seu Kijeme.
Aldeia - Apesar de morar na Aldeia Coroa Vermelha, a mais urbana de todas as 11 aldeias pataxós do extremo sul do estado, Folhinha mora numa área de retomada (ocupação), que ainda mantém o formato original de uma aldeia indígena, com kijemes (casas de barro arredondadas e com cobertura de palha) e sem muros ao redor.
Arêgawãy – Essa palavra na língua pataxó (patchorã) significa brincar. E é isso que Folhinha mais faz.
Pega-pega é a sua brincadeira favorita, mas a pequena pataxó também sonha em um dia ser igual à sua ídola, a ginasta Daiane dos Santos, e com a ajuda da irmã Joice Novaes dos Santos, de 11 anos, tem treinado cambalhotas, estrelinhas e pontes. "Como não tenho recursos e não tem estrutura aqui na aldeia, Folhinha está aprendendo a fazer ginástica com uma vizinha. O sonho dela é ver Daiane de perto", relatou sua mãe, que está separada do marido e sustenta os filhos com R$ 112,00 (por mês) do Bolsa Família.
A única Îhé Arêgawãy da casa (boneca, ou na tradução ao pé da letra: criatura de brincar) é mais um elo de união entre as três irmãs Pataxós nas brincadeiras.
As irmãs Folhinha, Joice (conhecida como Arara), de 11 anos, e Mairi (que significa cidade dos brancos reunidos), de 4 anos, pegam um pedaço de lata - que faz as vezes de uma panela, um tijolo – transformado em cama para a boneca – e colhem graminha pelo caminho - que nas brincadeiras das meninas farão as vezes de verduras e legumes, e irão para a panela, onde se transformarão numa gostosa sopa. "Esse aqui é a batata, verdura, tomate e cenoura", narra Folhinha, enquanto corta bem fininho as graminhas antes de colocá-las na "panela" e fingir estar cozinhando. "Eu gosto de sopa, mas gosto mesmo é de feijão, arroz e carne", conta ela.
Depois de passar a manhã brincando com as irmãs e a prima, Folhinha vai para casa tomar seu banho. O chuveiro de sua casa fica do lado de fora, ao ar livre, e só tem água fria. No inverno ou no verão, a pataxózinha encara com coragem o banho, sem esquecer de fechar a torneira para economizar água enquanto se ensaboa. "Quando não sai água no cano, ela toma banho de bacia aqui ao lado do tanque", conta Jumaira.
Enquanto sua mãe prepara o almoço, Folhinha aproveita para sentar no chão de seu "quarto". Apesar de morar numa casa de apenas um cômodo, a indiazinha faz questão de manter seu cantinho, com sua cama e seus poucos brinquedos – dois bichinhos de pelúcia e a boneca – arrumados.
Na hora do almoço, Folhinha senta em frente à TV para assistir ao final do programa da Xuxa. Arroz, feijão e dois pedaços de carne (Oba! Hoje minha mãe colocou dois pedaços porque vocês estão aqui) são a refeição do dia, que Folhinha come com vontade.
Hora de estudar - Folhinha estuda à tarde, na Escola Indígena Pataxó de Coroa Vermelha. O percurso de três quilômetros até a escola, Folhinha faz a pé todos os dias. Quando chega à escola, vai logo para frente de sua sala de aula e fica sentada junto com seus colegas até a professora chegar. Questionada por que não brinca com os coleguinhas enquanto aguarda a chegada da professora, Folhinha responde: "Ainda não está na hora de se sujar".
Na sala de aula, ela senta bem na frente. Antes de iniciar a aula, a professora Maria Jucélia reza o Pai Nosso com as crianças. Folhinha junta as mãozinhas e se concentra na oração.
Depois da oração, a indiazinha e seus coleguinhas sentam em roda no chão para ouvir a história do Leãozinho Lalo. Um leão valente, vaidoso e lindo. Folhinha presta bastante atenção na história narrada por sua professora. "Adoro histórias, mas aqui na escola, o que gosto mesmo é de aprender continhas", revela a pequena e simpática pataxó.
Na escola, além das continhas, Folhinha gosta muito é de correr e brincar de pega-pega com seus coleguinhas e, de vez em quando, até consegue realizar mais um de seus sonhos infantis, andar de bicicleta. Já que sua mãe ainda não teve condições de lhe dar uma, a valente Folhinha aprendeu a pedalar com a bicicleta de seu pai e com a de um amiguinho da escola.
À tardinha, depois que volta para casa, Folhinha faz as atividades da escola com a ajuda de sua irmã Arara. Conta para seus irmãos menores a nova história que aprendeu na escola e vai dormir para descansar e se preparar para mais um dia de aventuras.
Folhinha adora viver na aldeia. Gosta, principalmente, do sossego do lugar, onde ainda consegue correr e brincar com os amigos na rua, sem ter que se preocupar com o trânsito. Não acha que tenha nada de ruim em sua aldeia. Já a mãe, fala que gostaria que tivesse mais investimento em saúde.


A Tarde Online - 12/10/2007

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Moradres consomem água sem tratamento

SAÚDE – No distrito da Colônia, em Eunápolis, comunidade de três mil pessoas se abastece de uma represa poluída; secretário de infraestrutura admite problema

“Manda eles colocarem tratamento na água, porque a pouca que recebemos está arrancando minha pele.” Quem faz a reclamação é a aposentada Maria Lurdes Lima de Jesus, de 58 anos, moradora do distrito da Colônia, município de Eunápolis (a 640 km de Salvador, no extremo sul do estado). A comunidade, onde vivem cerca de 3 mil pessoas, reclama do descaso do poder público, não só em relação à qualidade da água, mas também no que diz respeito à iluminação pública, segurança e lazer. “Ninguém vê os vereadores por aqui. Eles só têm dinheiro para fazer festa”, disse a aposentada Abelina Maria de Jesus, de 75 anos.

A gerência da Embasa, em Eunápolis, informou que a questão da água na Colônia é de responsabilidade do município. Segundo o secretário de infraestrutura, Omar Reinner, existem duas bombas que captam a água que abastece a população da Colônia. Reinner confirmou que a água distribuída, gratuitamente, não recebe nenhum tipo de tratamento e informou que, a pedido da população local, o abastecimento de água será transferido para a Embasa. “Já começamos a negociação com a Embasa”, disse o secretário. Em relação à iluminação pública, o responsável pelo setor, na prefeitura, Adilson Lima, garantiu que o problema deve ser solucionado em breve com a substituição das lâmpadas queimadas. Enquanto isso não acontece, os moradores temem sair à noite por falta de segurança.

Descaso
A aposentada Maria de Lurdes vive sozinha numa pequena casa de madeira. Com a pouca água que consegue juntar em um tanque, lava as roupas e faz questão de manter a casa limpa. Com um problema na perna, a aposentada não tem condições de recorrer à represa quando falta água e tem que contar com a boa vontade dos vizinhos para sobreviver. “Ando de muletas. Machuquei a perna quando caí na rua. Estava escuro e não enxerguei um buraco”, revela.

“Não estou dizendo que é culpa desse ou daquele governo. Há anos que vivemos assim e ninguém faz nada”, disse o ex-administrador do local, Anaildo Silva.

Água de cano
Dona Abelina mora numa casa com dois netos menores e mantém a casa limpa, toma banho e bebe com a pouca água que sai no cano que fica rente ao chão. “A água chega a cada três dias, mas é pouca. Meus netos vão tomar banho lá na represa, mas eu não tenho condições. Lá é cheio de barro. Posso cair”, diz a aposentada.

A represa, à qual os netos de dona Maria e a maioria dos moradores do bairro têm que recorrer, está com a água aparentemente poluída. Animais bebem no mesmo local onde crianças se banham e alguns moradores apanham água para beber.

Precariedade
Na casa do aposentado Lorival de Jesus, de 75 anos, o descaso do poder público é mais evidente. Ele teve que contar com a ajuda de vizinhos até para retirar seus documentos e conseguir a aposentadoria no INSS.

O local que ele utiliza para fazer as necessidades biológicas é cercado, precariamente, por folhas de coqueiro. No centro, um vaso sanitário está solto e sem nenhuma condição de higiene. “A prefeitura construiu três privadas aqui no distrito, uma delas na casa de uma pessoa que tem boa condição financeira, e para seu Lorival, nada”, revelou Anaildo.

O aposentado mora no local há quatro anos, quando foi abandonado na rua pelo novo proprietário da fazenda onde trabalhou por 12 anos. De acordo com Anaildo, a fazenda foi vendida, e o novo proprietário comprou aquele “terreninho” nos fundos de uma casa e levou seu Lorival para lá. “Quando ele chegou, não tinha nem documentos. Tivemos que levá-lo ao Ministério Público para que ele retirasse os documentos e conseguisse a aposentadoria”, contou Anaildo.

Hoje, seu Lorival sobrevive de sua aposentadoria e da boa vontade dos vizinhos, que, na medida do possível, o mantêm abastecido, pelo menos com água. “Às vezes vou à represa e, quando chove, junto água em algumas goteiras aqui de casa”, conta Lorival, que vive numa casinha de barro de apenas dois cômodos minúsculos. Em um deles fica sua cama de solteiro, no outro, um fogareiro improvisado.

Na casa do também aposentado Sivaldo Dias do Vale, além da falta de água, a falta de iluminação pública é o que mais o perturba. Há um ano e seis meses, o aposentado vem solicitando que sejam repostas as lâmpadas do poste de iluminação da rua. “A taxa de iluminação pública é paga todos os meses. Minhas contas estão em dia. Se eu deixar de pagar uma, eles vêm e cortam a luz da minha casa”, afirma Sivaldo.


A TARDE - 01/04/2007

Crianças abaixo do peso entre pataxós

SAÚDE INDÍGENA – Agente de Saúde Mariana Brás visita famílias da aldeia de Coroa Vermelha e confirma situação dos índios. Quantidade de alimentos é insuficiente

Apesar de ter reduzido bastante o número de crianças indígenas pataxós desnutridas, na Aldeia de Coroa Vermelha, no município de Santa Cruz Cabrália (a 735 km de Salvador, no extremo sul do Estado), o número de crianças que estão abaixo do peso ou no limite de peso para a sua idade ainda é considerado grande, informou a agente de saúde Mariana Brás. Todos os meses, Mariana visita as casas das famílias indígenas da aldeia, pesa as crianças e orienta as mães sobre a alimentação.

Das 62 crianças pesadas pela agente nos últimos meses, a maioria está abaixo do peso, informou Mariana. Crianças como os irmãos Welison, de 7 meses, que pesa 7 quilos; Adideli, de 5 anos, que pesa 14 quilos; e Udison, de 3 anos, que está com 13 quilos. A mãe dos meninos, Maria D'Ajuda, sustenta a família com a venda de artesanato de sementes e nunca recebeu cesta básica de apoio à alimentação dos programas do governo federal.

De acordo com Vitor Derengowski, coordenador da área de saúde indígena da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), em Brasília, o órgão de saúde indígena não realiza a compra de cestas básicas.
“As cestas básicas são adquiridas pelo Ministério de Desenvolvimento Social (MDS) e distribuídas pela Fundação Nacional do Índio (Funai)” — diz Derengowski.

Desnutrição
De acordo com o coordenador, há um caso excepcional, nas aldeias de Mato Grosso do Sul, em que a Funasa ajuda com cestas básicas, mas não é o caso das aldeias da Bahia. Derengowski afirmou que o programa de combate à desnutrição infantil nas aldeias indígenas da Bahia se resume à identificação dos casos e ao fornecimento de vitaminas para suprir as carências.

O Núcleo de Ação Local (NAL) da Funai, em Porto Seguro, recebeu há um mês 42 mil toneladas de alimentos do programa Fome Zero, cerca de 900 cestas básicas, de acordo com Zeca Pataxó, chefe do NAL. A quantidade de alimentos é insuficiente para atender os 11 mil índios pataxós que vivem no extremo sul do estado, diz Zeca. Só na aldeia de Coroa Vermelha, são 950 famílias.

Reivindicações
Ontem, Derengowski esteve reunido com lideranças de seis das sete terras indígenas pataxós do extremo sul. Os índios reivindicaram melhorias no atendimento na área de saúde. Entre as reivindicações estão o suprimento da falta de medicamentos e a melhoria no transporte de doentes.

Dos 10 carros do Pólo Base da Funasa, em Porto Seguro, sete estão parados, incluindo a ambulância. O coordenador da Funasa afirmou que a falta de medicamentos já está sendo solucionada e que nove veículos do Pólo Base de Porto Seguro serão consertados.
“A prioridade é o conserto da ambulância” — garantiu Derengowski.


A TARDE – 21/03/2007

Baleias já começam a chegar


Vida Marinha – Fugindo das águas geladas da Antártica, as jubartes vêm em busca de águas mais quentes para a sua reprodução

Um espetáculo que se repete todos os anos, entre os meses de julho e novembro, já pode ser visto num passeio ao Parque Nacional Marinho dos Abrolhos, no município de Caravelas, a 800 km de Salvador. A chegada das baleias jubarte (Megaptera novaeangliae) que, neste período, procuram o litoral da Bahia — principalmente Caravelas, no extremo sul do Estado, e a Praia do Forte, no litoral norte — para o acasalamento e a amamentação dos filhotes.

As primeiras baleias jubarte já começam a chegar, trazendo, junto, uma grande leva de turistas para a região.
“Gostamos muito do passeio, é emocionante, pretendemos voltar” — disse a paulista Eveylin Yamashita, de 24 anos, que fez o passeio a Abrolhos no início do mês, em companhia do noivo, Thiago Medeiros, de 26 anos.
“Só viemos à Bahia com a condição de fazer esse passeio a Abrolhos. Era meu sonho” — afirmou Thiago. Na semana passada, em um dia de trégua das constantes frentes frias oriundas do Sul, foi possível ver as primeiras baleias chegando à região do banco de Abrolhos.

O acesso ao local para o avistamento das baleias começa no município de Caravelas, de onde partem embarcações do tipo catamarã com destino ao Parque Nacional Marinho. O passeio dura, em média, duas horas e meia, só de ida.

Na saída, a paisagem dos manguezais e dos ribeirinhos pescando no rio compõem o belo cenário do dia. As baleias começam a ser vistas, em média, depois de uma hora e meia de viagem. As primeiras aparecem tímidas, a uma boa distância da embarcação, mas, à medida que o catamarã se aproxima do banco dos Abrolhos, é possível ver as borrifadas de água que indicam a presença dos enormes mamíferos marinhos que migram da Antártica, no Polo Sul, numa viagem que começa no final de outubro, em busca de águas mais quentes para o acasalamento e reprodução da espécie.

A avistagem das baleias é regulamentada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) através da Portaria 117, que estabelece as normas para a aproximação dos animais em alto-mar. A uma distância de 100 metros, o motor do catamarã deve ser desengrenado. Todos ficam atentos, em silêncio, e, aos poucos, as baleias se aproximam um pouco mais da embarcação, proporcionando um espetáculo emocionante, com mergulhos, levantamento das caudas e, para os que tiverem muita sorte, até saltos fora d'água.

O cenário da chegada ao Parque Nacional Marinho dos Abrolhos é deslumbrante, com as ilhas, um mar de um azul maravilhoso e muitas aves marinhas sobrevoando o local.
Abrolhos é um arquipélago formado por cinco ilhas: Ilha Siriba, Ilha Guarita, Ilha Redonda, Ilha Sueste e Ilha de Santa Bárbara. Os turistas descem apenas na Ilha Siriba, povoada por centenas de atobás brancos, sempre preocupados em proteger seus ninhos.
"Eles são lindos, parecem feitos de algodão" — observou Evelyn, ao ver os primeiros filhotes de atobás brancos que ficam na ilha. A caminhada pela ilha dura 20 minutos, na companhia de um guarda-marinho do Ibama, que faz o serviço de guia.

A Ilha da Guarita, a menor do parque, é povoada por centenas de beneditos, aves que elegeram a ilha como local predileto para o pouso e a procriação. As aves dão voos rasantes sobre os visitantes que se arriscam a se aproximar da ilha, mas não como forma de ataque. Parecem estar fazendo reconhecimento ou mesmo dando boas-vindas.

Apesar da beleza do cenário na superfície, a vista mais deslumbrante de Abrolhos só pode ser observada nos mergulhos, onde milhares de peixes, corais e tartarugas podem ser vistos de perto em seu habitat.
"É emocionante. Vi vários peixes, mas com certeza fiquei mais encantada com uma lagosta enorme que vi andando calmamente lá no fundo" — descreveu Evelyn ao voltar do mergulho com compressor, na companhia do noivo e de um guia do parque (o mergulho com compressor só é permitido para quem já tem o curso básico de mergulho).

A embarcação fica por cerca de quatro horas no arquipélago de Abrolhos. No retorno ao município de Caravelas, o espetáculo das baleias jubarte mais uma vez encanta os turistas.


Monitoramento

Com a chegada das baleias, o Instituto Baleia Jubarte (IBJ), responsável pela proteção da espécie no Brasil há 17 anos, começou a fazer o monitoramento dos animais. O trabalho conta com o patrocínio da Petrobras, que mantém bases de pesquisa em Caravelas e em Praia do Forte, no litoral norte, a 70 km de Salvador.

A bióloga Márcia Engel, diretora do Instituto Baleia Jubarte, organização não-governamental responsável pela administração do Projeto Baleia Jubarte, revela que, segundo levantamento realizado no ano passado, uma população de cerca de 6 mil baleias migra todos os anos para o litoral brasileiro para reprodução. O local preferido para reproduzir e amamentar os filhotes é o Banco dos Abrolhos, no extremo sul da Bahia.

Em 2005, os pesquisadores avistaram 990 animais, sendo 119 filhotes. Foram realizadas 463 fotoidentificações na costa baiana. A fotoidentificação é feita por meio de desenhos na cauda das jubartes e representa a principal ferramenta de pesquisa da espécie.
“As fotos servem como carteira de identidade das baleias, pois os desenhos, tal qual impressões digitais, nunca se repetem de um indivíduo para o outro” — explica a bióloga.
O IBJ já identificou 2 mil baleias.


A Tarde - 25/07/2006

Aprender a ler aos 73 anos


“Durma-se com esse barulho”, disse dona Luzia Ferreira de Sousa, de 64 anos, ao tentar compreender a explicação sobre o trabalho de Matemática que a colega Rosidete Maria Bonfim, de 73 anos, tentava lhe passar.

“Não. Presta atenção. Você tem que pegar emprestado daqui, portanto, não é mais seis, agora é cinco. E cinco menos três fica quanto? Se você tira cinco de cinco, resta o quê?” — se esforça pacientemente dona Rosidete, para que a amiga também consiga completar com êxito a tarefa.

Alunas da 4ª série noturna da Escola Municipal Othoniel Ferreira dos Santos, a história de vida de dona Luzia e de dona Rosidete é semelhante à da maioria dos 300 alunos do Projeto Itagimirim Educar. Elas não tiveram a oportunidade de frequentar uma escola antes, porque precisavam trabalhar na roça para ajudar no sustento da família.

“Não estudei porque tinha que trabalhar na roça. Naquela época, o estudo não era valorizado. Meu pai era muito carrasco. Para ele, a caneta era a enxada” — conta Edinalva Ferreira Lima, de 50 anos, que hoje estuda em uma das turmas da 4ª série do projeto, junto com a filha Maria D’Ajuda Ferreira Silva, de 20 anos.

Elas frequentam uma das salas da Escola Municipal Adilson Guimarães. Ao todo, o projeto tem 11 turmas, entre a 1ª e a 4ª série do Ensino Fundamental. As aulas acontecem de segunda a sexta-feira, das 19 às 21 horas.


Analfabetismo

Criado há três anos, o Itagimirim Educar oferece ensino a idosos e adultos, com o objetivo de reduzir o número de analfabetos do município, que fica a 600 km de Salvador. De acordo com dados do censo realizado em 1986, existiam 3.308 analfabetos em Itagimirim.

“Nestes três anos de projeto, já alfabetizamos mais de mil” — comemora a coordenadora do projeto, Selma Rodrigues da Rosa dos Santos.

Mantido pela prefeitura municipal, o projeto oferece, além das aulas, material didático, uniforme e merenda. Este ano, foram oferecidos também 250 exames de visão, e 130 alunos foram beneficiados com óculos.

Apesar das justificativas semelhantes para não terem estudado na infância, cada um dos 300 estudantes do Itagimirim Educar tem sua própria história de vida — histórias ricas, com exemplos de persistência, sofrimento, luta e boa vontade e, por que não, histórias com final feliz.

Realidades que merecem ser ouvidas e que têm servido como base para o aprendizado em sala de aula.

“Procuro trazer a realidade de cada um deles para a sala. Eles contam suas histórias e nós aproveitamos cada uma. Adoro trabalhar com idosos. O aprendizado é mais lento, mas é muito gratificante” — conta a professora Edna Pereira dos Santos, que desde 1996 trabalha com educação de idosos.


A alegria de aprender

Histórias como a da brincalhona Madalena Dorotéia Pessoa, de 73 anos, que assiste às aulas na companhia do neto, Mateus, e sempre recebe um “puxão de orelha” da professora (a quem considera sua segunda mãe) para parar com a algazarra.
Desconfiada, dona Madalena primeiro procura se certificar sobre o que será abordado na reportagem e, só depois de ter o aval da vice-diretora e amiga, Sandra Maria Neves, faz questão de contar sua história de amor pelas letras.

“Sempre gostei de escrever. Eu já escrevia mesmo antes de saber ler. Como não aguentava ficar nas aulas por causa do cansaço depois de um dia de trabalho, pedia para os meninos, como meu neto, me ensinarem pelo menos as letras do meu nome” — conta alegremente dona Madalena, antes de voltar a ler o livro que está em suas mãos.

Com orgulho, a amiga Sandra completa sua história ao revelar que, depois que dona Madalena aprendeu a identificar as primeiras letras, há cerca de três meses, sua maior diversão passou a ser ler à noite para, no dia seguinte, relatar em sala de aula as aventuras que descobriu nos livros didáticos.


Com dona Joelita, a vida imita os contos de fadas

Aluna da 1ª série, dona Joelita Lima da Silva, de 49 anos, tem uma história de vida que se assemelha ao conto de fadas Cinderela, com direito a madrasta, príncipe encantado e final feliz.

Órfã de mãe desde os dois anos, dona Joelita foi entregue pelo pai para adoção. Na nova família, além do afeto do pai adotivo, sofreu maus-tratos da “madrasta” e das duas filhas dela.

“Elas judiavam de mim, chegaram a me queimar com ferro. Eu tinha que fazer o meu trabalho e o delas, senão apanhava” — conta.

Com quinze anos, cansada de ser maltratada, dona Joelita encontrou um marido (ou, como prefere dizer, seu príncipe encantado):

“Casei-me e fomos cuidar um do outro. Trabalhamos juntos e criamos nossos filhos. E agora ele quis que eu estudasse” — relata.

Ainda trabalhando na roça para sustentar a família (o casal tem duas filhas formadas em Pedagogia e uma cursando a 1ª série do Ensino Médio), seu Sinval da Silva, de 56 anos, marido de dona Joelita, se orgulha em ver a esposa escrevendo:

“Ele chega da roça e diz: 'minha velha, você já está colocando as letras no papel. Ainda vou te ver formada'” — conta, feliz, a “Cinderela” da vida real.


Aprender ao menos a colocar as letras no papel, formar o próprio nome ou identificar o preço dos produtos no mercado é o sonho da grande maioria dos alunos do Itagimirim Educar. Mas alguns, como dona Joelita e sua colega de sala, Nair José da Costa, de 44 anos, sonham em ir mais longe — quem sabe, concluir o ensino superior.

“Se puder, vou me formar. Acho que o máximo que conseguiria é ser professora, mas eu queria mesmo era fazer Direito, para ter uma vida melhor. A vida de professora, no nosso país, é tão sofrida” — conclui dona Joelita.


A Tarde - 03/03/2007

"Eu sou humilhado aqui na Bahia”

O artista e ambientalista que levou ao mundo sua indignação pela destruição das florestas brasileiras desistiu da Bahia. Depois de anos à espera de reconhecimento do governo do Estado para a consolidação de um museu que abrigasse o conjunto de sua obra, Frans Krajcberg se diz “humilhado pela Bahia”.

Uma semana após retornar de São Paulo, onde se tratou de uma pneumonia, ele recebeu a repórter Maria Eduarda Toralles e a fotógrafa Renata Carvalho em sua casa, no Sítio Natura, em Nova Viçosa. Falou sobre sua doença — inicialmente diagnosticada como dengue em Teixeira de Freitas —, num episódio que classifica como “um fenômeno do sul da Bahia”.

Aos 86 anos, recém-completados, Krajcberg mantém intacta a indignação que caracterizou sua vida e sua obra. Critica a passividade dos artistas e do povo brasileiro diante da barbárie socioambiental do país e do mundo. Revela a dor que sente pela indiferença oficial, apesar do orgulho com que sempre se expressou ao falar de Nova Viçosa, cidade do extremo sul do Estado que escolheu para morar há 34 anos e onde queria ver concluído o Museu Ecológico Krajcberg. O objetivo era eternizar sua obra na Bahia e promover o intercâmbio de ideias e criações artísticas.

Aclamado mundialmente como artista e ambientalista, Krajcberg tem obras disputadas pelas prefeituras de São Paulo, Curitiba (PR) e também por Paris, na França, onde foi criado o Espaço Krajcberg, no bairro Montparnasse.


A TARDE – Como foi sua trajetória na Bahia?

Frans Krajcberg – Olha, tem muita coisa para falar, mas, às vezes, estou cansado. Vocês nunca publicam o que eu falo. Eu tenho um pequeno problema com a Bahia.


AT – Qual é?

FK – Estou te dizendo: o museu parou. Não quero mais conversa. Já assinei com o governo paulista e já começaram a construir no Ibirapuera, perto da Bienal de São Paulo. Perto de uma velharia, mas tem turismo. Eu vou escolher tudo que é melhor que eu tenho e vou mandar para São Paulo. O prefeito foi maravilhoso comigo, se interessa muito. Ele foi para Paris quando fiz a grande exposição no ano passado. E vai tudo bem. Meu espaço em Curitiba é uma maravilha, muito público, local maravilhoso. O de São Paulo é ainda mais maravilhoso. E funciona. Em Paris, funciona muito bem. Aliás, recebi uma carta do prefeito de Paris. Ele gostaria de ampliar meu museu, perguntou se eu poderia enviar mais trabalhos. Me ofereci imediatamente. Eu queria ir para Paris, mas a dor não está permitindo. Preciso tratar esse assunto.


AT – Como começou a história na Bahia?

FK – Tenho uma história de 34 anos aqui. Fui o primeiro que chegou, o primeiro que construiu, o primeiro a trazer algum dinheiro. Era uma cidade maravilhosa, com poucos pescadores. Tinha calor humano. Fui o primeiro habitante, a primeira pessoa conhecida. Em todo lugar que eu ia, dizia com orgulho: “moro no sul da Bahia”. E, se hoje tem tanto movimento aqui, sem dúvida, ajudei — sem querer — a promover Nova Viçosa. Tem muita coisa para falar, mas sem controle, aqui não vai durar muito tempo. Ainda bem que tenho um lugar onde posso me isolar. Raramente fico mais de 10, 20 minutos na cidade. Vou ao correio, compro algumas frutas e volto. Estou sempre trabalhando. Exponho no mundo inteiro, saindo de Nova Viçosa. Nunca vi alguém de Salvador me cumprimentar com um “bom dia”. Nunca! Já manifestei tudo isso. Escrevi cartas que nunca foram respondidas. Então, percebi que estou em um ambiente onde sou humilhado. Parei com a construção. Faltam cinco prédios. Eu queria fazer algo mundial aqui. Um ambiente de encontros internacionais. Mas está longe da Bahia compreender isso. Porque a cultura da Bahia é, antes de tudo, Salvador. E Salvador é carnaval. Carnaval que começa em janeiro e termina em dezembro. Essa é a cultura que nos oferecem. Não sou contra o carnaval…


AT – O senhor desistiu realmente da Bahia?

FK – Posso ainda morar aqui, mas o museu, não. E me pergunto: que resposta cultural tive, morando há tantos anos aqui, sem sequer um bom dia? Apenas humilhação. Não faço mais.


AT – Isso se refere aos governantes ou à população local?

FK – Na verdade, não tenho mais contato. Antes, tinha com os pescadores. Eu mesmo pescava meu peixe. Tinha um escritório na cidade, ao lado da igreja. Recebo muita gente de fora, que vem trabalhar comigo. Nunca neguei ajuda moral. Mas em Salvador, nunca consegui nem entrar. Essa é a realidade. Depois de 34 anos, nunca tive uma visita ou pergunta sobre o que estou fazendo. Então resolvi não pensar mais nisso.


AT – O que mudou desde que o senhor chegou?

FK – O que mudou foi que permitiram fazer tudo o que quiseram. Especialmente a turma da celulose: dividiram, queimaram, destruíram, conseguiram papéis (licenças) no mesmo dia. A região ainda é segura porque o turismo aumentou muito. Destruíram toda a costa sul da Bahia, e o turismo lá está caindo. Aqui, aumentou. Queriam colocar a Petrobras aqui de novo. Eu disse: “aqui ninguém entra”.


AT – Eles chegaram a procurá-lo?

FK – Ligaram dizendo que fariam pesquisa na minha mata. Eu disse: “O quê? Já é a segunda vez. Aqui ninguém entra.” Não quero mais discutir com a Petrobras. Mas o problema não é só ela. Parece que encontraram petróleo perto de Abrolhos, por uma companhia americana. Tudo que é petróleo é deles. Aí vão atrás. Ali é área de passagem de grandes peixes. Ainda bem que o Ibama proibiu alguma coisa.


AT – O senhor acha que o Ibama não é atuante?

FK – Talvez agora, que saíram daqui. Se eu não tivesse ficado doente… Fui para Teixeira de Freitas, disseram que era dengue. No hospital da Bahia Sul (Bahia Sul Celulose), também disseram que era dengue. Fui para São Paulo, no Albert Einstein. Lá, fizeram exames e um grande médico perguntou quem tinha diagnosticado dengue. Eu disse: “dois médicos”. Ele disse: “mande eles voltarem para a escola de medicina”. Não era dengue, mas uma infecção muito grave. Micróbios nas costas, uma mancha preta, que me causava muita dor. Fiquei quase paralítico. Isso é só uma pequena história… um fenômeno do sul da Bahia.


AT – E sua relação com o meio ambiente?

FK – A mesma de sempre. Aqui perto do rio ainda havia mata. Invadiram, depredaram. Todo ano queimam. Recebem licenças por 50, 100 reais. Ibama nada fez, o governo muito menos. Estão loteando tudo. Até na minha mata, antes de eu ir ao hospital, houve uma queimada. Queimaram muito. Salvei os prédios do museu. Passei a noite lutando contra o fogo. Se o fogo passasse, tudo ia embora. Essa floresta aqui, fui eu quem replantei. Árvores com 15, 20 anos. Mas já não tenho mais confiança. Não farei mais esforços neste Estado.


AT – Há convites de outros lugares?

FK – Tenho um convite para criar um grande espaço na Holanda. Paris é um sucesso absoluto. O que eu não quero é que se fale só de arte, arte, arte.


AT – Por quê?

FK – A grande discussão é a natureza, é o planeta. E, em todo lugar, esse debate está crescendo. Lancei um grande movimento contra a soja transgênica, principalmente a que vem da Amazônia. Em Davos, no ano passado, grandes industriais disseram que não comprariam soja transgênica vinda da Amazônia. Em 2004, Lula disse na TV: “Entrou no país, de contrabando, soja transgênica. Para não perder, vou deixar plantar só este ano”. No lugar de prender o contrabandista, liberou o plantio. Em 2005, ele oficializou o plantio em todo o país. Onde estamos?


AT – E a situação mundial?

FK – Em Moscou, Estocolmo, quase no mundo inteiro, a consciência está crescendo. O planeta está sofrendo demais. Os desastres são cada vez mais violentos. Somos muito passivos. Deixamos o século 20 ser o mais bárbaro que a humanidade conheceu. Todo mundo ficou passivo até o fim da guerra. Arte? Quem denunciou essa barbárie? A maioria dos artistas estava presa ao mercado. O único que denunciou foi Picasso, com “Guernica”. Veja a passividade diante de tudo que acontece agora. Somos um país rico, e a miséria dá vontade de chorar. Estive há dois anos na Amazônia, em Porto Velho. Vi famílias indígenas afastadas de suas terras, pedindo esmolas nas ruas. Não aguentEu não agüento isso. Não dá para acreditar que o povo brasileiro é tão passivo. Não quer saber do que está acontecendo nesse país.... É isso que eu podia te falar... e chega.

Marisqueiros estão passando fome

Cerca de 450 famílias que sobrevivem da atividade estão sem ter o que comer depois da doença que atingiu o caranguejo-uçá

Todas as manhãs, a marisqueira Nilma Conceição dos Santos, viúva de 51 anos, sai para o mangue, de onde, há mais de 35 anos, tira o sustento da família. Mas, este ano, devido à mortandade que atingiu o caranguejo-uçá — principal produto comercializado pelos marisqueiros da região — Nilma e as 450 famílias ribeirinhas que sobrevivem da atividade nos 11 mil hectares de manguezal do município de Caravelas, no extremo sul do Estado, estão passando dificuldades para conseguir alimento.

“Nunca existiu fome em Caravelas como agora”, diz Ulisses Scolfield, coordenador do Centro de Pesquisas e Gestão Pesqueira do Litoral Norte (Cepene/Ibama). O local, assim como outras regiões litorâneas do Estado, foi atingido pela misteriosa mortandade do caranguejo-uçá, que se iniciou no Rio Grande do Norte, vem afetando todo o litoral norte do país e já chegou até os manguezais do Espírito Santo, segundo informações do Ibama.

Os marisqueiros, como Nilma, moram à beira dos rios, no meio da mata nativa, em casas de barro, sem água potável e saneamento básico. É do mangue que vem o sustento das famílias e o alimento básico que compõe a mesa diariamente. “Ultimamente, estou tirando somente para comer”, contou a marisqueira Nilma, que trabalha junto com os dois filhos no sustento da casa.

Em outra casa ribeirinha, a situação é a mesma. Joana Marcelino Liro, 46 anos, seis filhos, também sobrevive há mais de 20 anos do manguezal e diz que, ultimamente, não está conseguindo retirar nem para o consumo próprio. “É o marisqueiro que gera renda para a cidade, e ele está esquecido. Até o comércio está sendo prejudicado”, avaliou Selmo Santana Serafim, 34 anos, presidente da Associação de Marisqueiros de Ponta de Areia e Caravelas (Ampac), inaugurada há um mês.

Serafim conta que foi criado no manguezal, onde começou a trabalhar quando tinha 10 anos, acompanhando a mãe, Maria Marcelino Santana, de 56. “Antigamente, a gente tirava até dez mil caranguejos por dia. Hoje, não tira nem 200”, relatou Serafim.

Segundo ele, a situação é crítica. “Capturei 30 caranguejos para análise. Quando fui tirá-los do saco, já estavam todos mortos. Eles ficam lentos, tontos e, depois de mortos, apresentam uma gordura amarela”, disse.


ASSOCIATIVISMO

Preocupado com a sobrevivência das famílias ribeirinhas, não só neste período de mortandade, mas também durante as épocas de defeso — quando a captura é proibida por lei — um grupo de marisqueiros criou a Ampac, que já conta com 200 associados. O objetivo é conseguir o seguro-desemprego. Com a associação, o grupo pretende ainda se livrar dos atravessadores na comercialização do crustáceo.

“Não parávamos de coletar na época da andada (período de reprodução do caranguejo), porque não tínhamos outra alternativa”, explicou o presidente da associação, sobre a necessidade do seguro.


FUNGO É O CAUSADOR DA DOENÇA

Uma pesquisa, ainda não conclusiva, segundo Cleide Guirro, do Ibama, realizada pelo Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais (GIA), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), define a mortandade como doença do caranguejo letárgico (DCL), e apontou um fungo do filo Ascomycota, subfilo Pezizomycotina, como sendo o agente causador.

As análises mostraram que os caranguejos atingidos pela DCL apresentavam grande quantidade de organismos em seus tecidos, especialmente no coração e nos gânglios nervosos. No entanto, os pesquisadores alertam que ainda são necessários estudos mais aprofundados para confirmação das causas da mortandade nos manguezais.


COMUNIDADE DISTANTE DA CIDADANIA

Voltado para o estudo de crustáceos e moluscos com valor econômico explorados pelas comunidades ribeirinhas, o Projeto Manguezal foi implantado no município em 2002. A cidadania das comunidades ribeirinhas — que registra um índice de 62,7% de analfabetismo entre os adultos, segundo dados do projeto — tem sido um dos principais pontos trabalhados pelos técnicos do programa.

Eles repassam informações sobre legislação ambiental, uso sustentável dos recursos naturais, agregação de valores econômicos e associativismo. “Trabalhamos ainda com as crianças nas três escolas ribeirinhas. Existiam crianças com 9 anos que nunca haviam escovado os dentes. O primeiro passo foi consolidar a criação da associação com a construção da sede, porque as coisas, para eles, têm que ter um resultado imediato”, afirma Scolfield.

Em setembro deste ano, com o apoio do Projeto Manguezal e da Aracruz Celulose, os marisqueiros concluíram a construção da sede da Ampac, no distrito de Ponta de Areia. No local irá funcionar uma fábrica de gelo, que dará sustentabilidade financeira ao grupo, mas a meta principal é construir uma câmara frigorífica para armazenar o pescado e não depender mais dos atravessadores.

Por enquanto, só o fato de terem uma sede e poderem retirar documentos profissionais já é comemorado como uma grande vitória pelo grupo. “A maioria dos marisqueiros só tem título eleitoral, porque é só com isso que os políticos se preocupavam quando vinham nos visitar”, concluiu Serafim.

Outra meta do Projeto Manguezal é transformar a área de mangue em uma Reserva Extrativista Marinha (Resex), como a que já existe há cinco anos em Corumbau. “Apoiamos o associativismo como forma de vencerem a exploração dos atravessadores e da caderneta”, disse Scolfield, que também integra o projeto.

Ele explica que muitos marisqueiros contraíam dívidas anotadas em estabelecimentos comerciais, tornando-se reféns dos atravessadores, tendo que entregar os caranguejos por preços impostos pelos comerciantes.


LEGISLAÇÃO

  • A captura do caranguejo só pode ser feita por pescadores;

  • O crustáceo não pode ser apanhado com menos de seis centímetros de largura da carapaça;

  • É proibido o uso de gás, redes ou o método de sufocamento, que captura caranguejos de todos os tamanhos;

  • A captura deve ser feita apenas pelo método de braceamento, com o auxílio de gancho ou cambito com proteção na extremidade;

  • Na Bahia, ainda não existe um período oficial de defeso, mas está proibida a captura nos dias de andada — período de reprodução, quando os caranguejos saem dos buracos. No extremo sul, os dias de andada ocorrem entre dezembro e fevereiro, variando conforme a maré.


A Tarde 10/10/2005

Falta comida no centro de nutrição


Instituição para desnutridos, que há dez anos atende carentes em Eunápolis, está com a despensa quase vazia de alimentos

Com a despensa quase vazia, o Centro de Recuperação de Desnutridos – SOS Vida, que há dez anos trabalha na recuperação de crianças desnutridas na periferia de Eunápolis, está na iminência de reduzir drasticamente o número de atendimentos. A informação é da Irmã Teresa Biasi, fundadora da instituição, que alega que a crise decorre do atraso no repasse de verbas de um convênio com a Prefeitura de Eunápolis.

“No mês passado, recebemos metade do valor referente ao mês de setembro. Os repasses estão atrasados há dois meses e meio”, garante a irmã. Pelo convênio com o município, o centro deveria receber R$ 7.000 mensais. No entanto, as despesas mensais atuais somam R$ 14 mil, e a instituição atende 52 crianças em regime interno.

A secretária municipal de Desenvolvimento Social de Eunápolis, Maria Páscoa Pereira, informou que a prefeitura liberou verbas há um mês para a instituição. “Não conseguimos repassar o total do convênio, mas depositamos metade, cerca de R$ 3.000. Realmente estamos com atraso de alguns dias, mas não de três meses. Como outras prefeituras, estamos passando por algumas dificuldades e, dentro do possível, ajudamos a instituição”, disse Páscoa.

Ela explicou que o convênio do SOS Vida é com o município (verbas municipais) e não com o Fundo Nacional de Assistência Social, que é destinado a creches e instituições que trabalham com crianças com necessidades especiais — “não é o caso do SOS Vida, que trabalha com desnutridos”, afirmou.

Salvação – Nos dez anos de funcionamento, o SOS Vida salvou 3.200 crianças desnutridas. “Antigamente, ocorria um óbito de criança por dia; hoje, há um por ano”, garante a irmã. “Uma gota de amor também cura” é a principal filosofia do SOS Vida, fundado pela Irmã Teresinha no bairro Juca Rosa. Enfermeira aposentada, a freira conta que, quando trabalhou numa comunidade local, sentiu a necessidade de dar atenção especial às crianças desnutridas, que não tinham o tratamento adequado por falta de condições das famílias.

“Os médicos indicavam uma dieta alimentar para a criança que, às vezes, nem tinha o que comer em casa”, relata Fátima Milanezi, voluntária desde o início da instituição, dando como exemplo o caso do pequeno Fernando, que encontrou por acaso: “Notei a mulher carregando uma criança enrolada num cobertor. Senti o ‘cheiro’ da desnutrição e pedi para ver. A mãe disse que o menino tinha acabado de receber alta do hospital”. Fátima conta que o susto não foi maior ao ver o estado da criança porque já viu casos piores.

A casa onde funciona o SOS Vida foi construída há dez anos mediante um convênio com a Comunidade da Ilha de Malta, no Mar Mediterrâneo, conseguido com apoio do monsenhor Jorge Crima. Além da Creche da Irmã Teresinha, a comunidade de Malta ajuda mais 93 instituições no Brasil. A instituição conta, também, com um grupo de associados, cujas contribuições garantem o pagamento dos 25 funcionários, conforme Fátima.

Também realiza promoções, como a atual rifa de uma moto, com bilhetes a R$ 5, que estão promovendo neste fim de ano. Com a campanha “Sua Nota é um Show”, o SOS Vida conseguiu ampliar a área de lazer das crianças e construir um espaço onde funcionará um brechó e um pequeno ambulatório para atender a comunidade. A creche conta com o trabalho voluntário de uma nutricionista, quatro médicos e um dentista.

Carinho – A maioria das crianças chega ao SOS Vida desnutrida, fraca, algumas com feridas causadas pela desnutrição, barriga inchada, pernas finas, incapazes de sustentar o peso do corpo, com manchas escuras que parecem queimaduras. A pequena Ana Cláudia, de dois anos, que engatinha entre as outras crianças, quando chegou, há nove meses, estava em estado lastimável. As pernas tinham grandes manchas escuras e em carne viva.

A dedicação e o carinho são tão importantes quanto a multimistura recomendada pela nutricionista Aurelina às crianças. A pequena Elisandy, de apenas dois meses, que não pôde ser amamentada por Sandra, a mãe, vai receber cuidados especiais. Sandra vai fazer uma cirurgia e, como não tem com quem deixar a filha, não pensou duas vezes em levá-la ao centro. “Eles já cuidaram da minha outra filha, com desnutrição. Tenho toda a confiança de deixar Elisandy aqui”, disse Sandra.


A Tarde - 28/11/2003

Drama de quem sofre fora do País



Além de José da Silva, natural de Itanhém, mais quatro baianos estão entre os 277 deportados que retornaram ao Brasil

“Nunca mais ponho os meus pés fora do país”, disse ontem o baiano José Sales da Silva, de 47 anos, ao chegar em casa, em Itanhém, a 983 km de Salvador, depois de passar 28 dias detido nos Estados Unidos (EUA), numa aventura que ele classifica em duas etapas: desgaste físico (na travessia da fronteira México-EUA) e psicológico (os 28 dias que permaneceu preso).

José Sales é um dos 277 deportados dos EUA que retornaram ao Brasil na última quarta-feira. O baiano chegou aos Estados Unidos no dia 24 de dezembro de 2003 e foi detido pela polícia de imigração no dia 31 de dezembro, quando já se encontrava em Phoenix, no Arizona. “Foi a pior virada de ano da minha vida”, relatou.

“Eu estava toda feliz porque ele já estava nos Estados Unidos, não imaginava que ainda corria risco de ser pego”, disse Odete Sales, mulher dele, que permaneceu no Brasil em companhia das filhas Marília e Cecília.

José Sales, que trabalhava como empreiteiro em Itanhém, conta que resolveu ir para os EUA em busca de uma vida melhor para sua família. “Aqui no Brasil a gente fica sem condições e acaba caindo nessas ciladas ao buscar algo melhor”, desabafou. Com o dinheiro da venda de seu carro, que também era sua ferramenta de trabalho, José Sales pagou US$ 8 mil pela viagem — quantia que só foi depositada por Odete quando ela soube que o marido já estava em território americano.

Mercadorias – José Sales partiu de Itanhém de ônibus até São Paulo, com um grupo. De lá, pegou um voo para o México e foi levado para a cidade de Água Preta, onde permaneceu em casas de mexicanos. De Água Preta, seguiram de carro por cerca de 1h30 até perto da fronteira. Depois, enfrentaram uma caminhada de 5h30 pelo deserto, todos vestidos com roupas pretas e capuzes no estilo ninja.

Enfrentaram a travessia só com a roupa do corpo e uma garrafa de dois litros de água. “Não podemos usar nada que brilhe no escuro. A travessia é toda feita à noite, só os coiotes (os guias) levam uma lanterna. Se nos distanciarmos mais de 10 metros do colega da frente, acabamos nos perdendo. Temos que ficar atentos”, relatou.

O baiano revelou que, ao chegarem no México, os brasileiros passam a ser tratados como mercadorias nas mãos dos coiotes. “Cada um de nós vale US$ 2.500. Passamos a ser prisioneiros deles e não podemos mais desistir da viagem.” O dólar, para os coiotes, vale R$ 3.

Hipotermia – José Sales conta que quase morreu durante a travessia. O desgaste físico foi muito grande, e ele acabou tendo que carregar a mochila de dois colegas que se machucaram no caminho. “Quando chegamos do outro lado, por volta de 0h30, estávamos suados da caminhada e sofremos um choque térmico com o frio que fazia. O resgate só veio nos buscar às 6 da manhã”, relatou o baiano.

Para não congelarem, as dez pessoas que faziam parte de seu grupo deitaram umas sobre as outras para se aquecerem. Outro desafio no deserto, segundo ele, foi o controle do consumo de água. “Levamos apenas dois litros e não sabíamos quanto tempo duraria a travessia, então tivemos que racionar. Só molhávamos os lábios para evitar que a boca rachasse.”

Da fronteira, o grupo foi levado para Phoenix, onde permaneceu trocando de base (casas dos coiotes) até ser liberado. Foi nesse período que o grupo acabou sendo descoberto pela polícia de imigração, no dia 31 de dezembro.


A Tarde - 31/01/2004

Fornos da destruição


Na região de Canta Galo, no município de Belmonte, a queima ilegal da mata nativa abre caminhos para a desertificação de grandes áreas no extremo sul


Na semana passada, 35 fornos de produção de carvão foram destruídos por fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), na região de Canta Galo, no município de Belmonte, no extremo sul do Estado. De acordo com os fiscais, os fornos operavam de maneira ilegal e foram descobertos durante um sobrevoo de monitoramento na região. O carvão produzido ali é vendido a indústrias siderúrgicas do Espírito Santo.

A utilização de mata nativa para a produção de carvão é proibida por lei, mas, no mês passado, em parceria com a Polícia Rodoviária Federal, o Ibama apreendeu seis caminhões com cargas produzidas com madeira extraída da região. Segundo o órgão, muitas áreas de Canta Galo estão nas mãos de posseiros, e já foram identificadas, em Eunápolis, oito empresas produtoras de carvão que, comprovado o envolvimento na produção ilegal, serão autuadas.

O preço do metro cúbico de carvão varia entre R$ 100 e R$ 120, mas nas carvoarias espalhadas pela mata, o valor de compra fica entre R$ 20 e R$ 40 — o que representa um lucro de mais de 120% para os negociantes. Para a produção de um metro cúbico de carvão, são necessários três metros cúbicos de madeira. De acordo com dados do Ibama, três cargas de carvão — em um caminhão com capacidade para 50 m³ — resultam no desmatamento de um hectare de mata.

Este ano, fiscais do Ibama detiveram 20 caminhões com cargas ilegais de carvão, o que representa a destruição de aproximadamente seis hectares de mata nativa. O gerente regional do Ibama, José Augusto Tosato, calcula que uma única siderúrgica demande mais de uma centena de caminhões de carvão por mês, o que equivale à destruição de cerca de 33 hectares de mata. Ele alerta que, se o desmatamento continuar nesse ritmo, em menos de três anos a mata da região estará completamente destruída, com riscos de pré-desertificação.

O solo da região de Canta Galo é muito pobre; grande parte da área é de muçununga (solo fofo, raso, muito ácido, com pouca matéria orgânica e com infiltração de água deficiente). Muçununga é um ecossistema da Mata Atlântica rico em biodiversidade. “São encontradas diversas espécies endêmicas da fauna e da flora. Por isso, essa região está incluída numa Área de Especial Proteção (Aspe), conforme decreto do Ministério do Meio Ambiente (MMA), de dezembro de 2002”, explicou o gerente do Ibama.

Exploração – Outra irregularidade descoberta pelos fiscais do Ibama são as condições subumanas em que são mantidos os trabalhadores das carvoarias clandestinas. Há 30 dias trabalhando e morando na região, o carvoeiro Antônio Carlos informou que iria receber R$ 180 por mês, sem direito a mais nada — nem carteira assinada. Ele e a esposa vivem em um pequeno barraco, sem luz elétrica e sem água. A alimentação, enquanto não chega o pagamento, é obtida com pesca e uma pequena plantação de aipim.

Antônio Carlos contou que trabalhava no plantio de cacau, mas com a quebra da produção cacaueira acabou desempregado. Chegou a trabalhar por conta própria, mas, por falta de alternativas e para sustentar a família, acabou aceitando o trabalho na carvoaria.

Em outra carvoaria, também clandestina, na mesma região, quatro trabalhadores — que não se identificaram — disseram que recebem entre R$ 8 e R$ 10 por dia, também sem registro em carteira. Eles afirmaram estar há 14 dias no local e que, até o momento, receberam apenas uma cesta básica como pagamento. Contaram ainda que não conhecem o proprietário do local, pois foram contratados por um intermediário na periferia de Eunápolis.

No ano passado, o Ibama conseguiu a aprovação de um programa de educação ambiental para a área de Canta Galo. O projeto deverá começar a ser desenvolvido no primeiro semestre deste ano. Os fiscais do órgão federal pretendem firmar parcerias com a Secretaria de Meio Ambiente de Belmonte, o Banco do Nordeste, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, a Ceplac e as associações de posseiros para garantir o êxito no desenvolvimento do projeto.

Segundo o gerente do Ibama, o primeiro passo será diagnosticar os principais problemas da região e selecionar alternativas socioeconômicas para as comunidades que lá vivem. Como o solo da região é muito pobre, a manutenção da mata nativa é essencial para preservar sua fertilidade. Por isso, uma das alternativas apontadas por Tosato é a associação entre a preservação da floresta e a agricultura sustentável.


A Tarde - 07/03/2005

Crianças perdem infância na BR-101

Vivem à margem da rodovia, entre Teixeira de Freitas e Prado, onde cerca de 40 famílias ergueram barracos em uma área do DNIT.

Meninos e meninas, entre um e dez anos, estão passando a infância na margem da BR-101, pedindo esmola aos motoristas que passam em alta velocidade pela rodovia. A arriscada forma que algumas famílias encontraram para sobreviver já resultou em uma tragédia: no fim do ano passado, uma criança foi atropelada no acostamento.

O Conselho Tutelar de Teixeira de Freitas já esteve na área e orientou os pais a retirarem as crianças daquela situação, afirmou o secretário municipal de Ação Social, Frenedir da Costa Góes. Mas, segundo ele, basta os comissários virarem as costas para que as crianças retornem à BR. “Não temos uma casa de passagem para retirar aquelas crianças de lá.”

A triste cena pode ser vista diariamente ao longo dos 11 km que separam Teixeira de Freitas do município de Prado, no extremo sul do estado, onde cerca de 40 famílias construíram casas improvisadas em área do DNIT. Sobrevivem com pequenas hortas — na maioria, de mandioca — e com os mantimentos que conseguem arrecadar de motoristas que por ali passam.

Cartazes – Para chamar a atenção dos motoristas, além das crianças com os braços estendidos pedindo dinheiro, as famílias confeccionaram cartazes com frases como “Precisamos de alimentos”, que foram fixados nas portas das casas. Alguns, mais criativos, reproduzem também slogans de campanhas nacionais contra a fome — como fez André Campista, de 27 anos.

Ele, a esposa e a filha de apenas oito anos vivem há um ano à beira da estrada, sobrevivendo com a produção da pequena horta e com cestas básicas que recebem esporadicamente. “Pelo menos aqui não temos que pagar aluguel”, diz a mulher de André, explicando o motivo pelo qual a família abandonou a cidade — mesma justificativa dada pela maioria das famílias que ali vivem.

A criança passa a tarde sentada sob o cartaz, brincando com uma boneca. Quando vê um veículo se aproximar, corre até a beira da rodovia. Um pouco além da casa dela, a cena é ainda mais chocante: dois meninos, de no máximo cinco anos, ficam na beira da rodovia com as mãos estendidas. Ao lado deles, sentada no chão, está uma menina de, no máximo, um ano, brincando.

SOZINHOS – Quando surge um carro, os meninos correm para perto e abandonam a menina na beira da pista. Estavam sozinhos em casa e disseram que a mãe estava na roça e o pai jogando bola. Ao ver que o veículo parou, uma mulher visivelmente embriagada chega pelo acostamento e diz ser tia das crianças — o que os olhinhos assustados dos dois garotos, que em nenhum momento se aproximam dela, parecem desmentir.

A mulher pede R$ 4 para comprar alimentos para as crianças. Essas três, e mais um menino de seis anos com outros nove irmãos, ainda não haviam feito nenhuma refeição naquele dia (por volta das 18h). No casebre onde os dez irmãos vivem, à beira da BR-101, a mãe deles e uma irmã mais velha fazem farinha, que será utilizada para reforçar a única refeição do dia, depois que os outros meninos retornarem da escola.

O pai, o agricultor Jorge Mateus de Jesus, 45 anos, conta que trabalhava numa lavoura de café até quebrar a perna. Foi então dispensado pelo dono da fazenda, que também mandou a família embora. Sem ter para onde ir, Jorge conseguiu negociar a compra da casa e da pequena faixa de terra (também na área do DNIT), onde hoje vive. Preocupado com o sustento da família, plantou mandioca e alguns pés de banana para consumo e venda na porta de casa — pequena renda com a qual espera, um dia, juntar dinheiro para comprar uma casa na cidade.

Pais vendiam cestas básicas
A maioria dessas famílias não recebe nenhum benefício dos programas de assistência social do governo federal, embora muitas afirmem que os filhos frequentam a escola. O acesso a essas bolsas geralmente exige documentação — e, segundo o secretário municipal de Ação Social, muitas dessas pessoas não possuem documentos. “Já fizemos um dia de cadastramento para emissão de CPF, mas quase ninguém apareceu”, afirmou Góes.

A distribuição de cestas básicas, que era feita a cada 15 dias pela secretaria, foi suspensa. Segundo o secretário, algumas famílias estavam vendendo os alimentos para comprar bebida alcoólica. “A situação é complexa”, declarou.

Kit Família – Uma alternativa apresentada pela secretaria é um convênio em andamento com a Conder para a distribuição do Kit Família, que, além de uma casa, inclui uma ajuda de custo para que a família possa iniciar alguma atividade produtiva. No entanto, o secretário também vê dificuldades nessa proposta, pois essas famílias não possuem terra própria, vivendo em uma área federal do DNIT. “Não posso simplesmente dar uma casa na cidade, onde eles não teriam nem onde cultivar uma hortinha.”

Segundo Frenedir da Costa Góes, o Conselho Tutelar já recomendou que os pais tirassem as crianças daquela situação, mas, como ele mesmo resume: “Quando os comissários viram as costas, as crianças voltam a pedir esmola à beira da estrada. E não temos uma casa de passagem para retirá-las de lá”.


A Tarde - 02/04/2005

RPPN Rio do Brasil: Mais que uma aventura na natureza, uma iniciativa de conservação ambiental

Por: Maria Eduarda Toralles - Casulo Comunicação 25/05/2022 - Para o site O Xarope Desde junho de 2021, há exato um ano, a Reserva Partic...