
SAÚDE – No distrito da Colônia, em Eunápolis, comunidade de três mil pessoas se abastece de uma represa poluída; secretário de infraestrutura admite problema
“Manda eles colocarem tratamento na água, porque a pouca que recebemos está arrancando minha pele.” Quem faz a reclamação é a aposentada Maria Lurdes Lima de Jesus, de 58 anos, moradora do distrito da Colônia, município de Eunápolis (a 640 km de Salvador, no extremo sul do estado). A comunidade, onde vivem cerca de 3 mil pessoas, reclama do descaso do poder público, não só em relação à qualidade da água, mas também no que diz respeito à iluminação pública, segurança e lazer. “Ninguém vê os vereadores por aqui. Eles só têm dinheiro para fazer festa”, disse a aposentada Abelina Maria de Jesus, de 75 anos.
A gerência da Embasa, em Eunápolis, informou que a questão da água na Colônia é de responsabilidade do município. Segundo o secretário de infraestrutura, Omar Reinner, existem duas bombas que captam a água que abastece a população da Colônia. Reinner confirmou que a água distribuída, gratuitamente, não recebe nenhum tipo de tratamento e informou que, a pedido da população local, o abastecimento de água será transferido para a Embasa. “Já começamos a negociação com a Embasa”, disse o secretário. Em relação à iluminação pública, o responsável pelo setor, na prefeitura, Adilson Lima, garantiu que o problema deve ser solucionado em breve com a substituição das lâmpadas queimadas. Enquanto isso não acontece, os moradores temem sair à noite por falta de segurança.
Descaso
A aposentada Maria de Lurdes vive sozinha numa pequena casa de madeira. Com a pouca água que consegue juntar em um tanque, lava as roupas e faz questão de manter a casa limpa. Com um problema na perna, a aposentada não tem condições de recorrer à represa quando falta água e tem que contar com a boa vontade dos vizinhos para sobreviver. “Ando de muletas. Machuquei a perna quando caí na rua. Estava escuro e não enxerguei um buraco”, revela.
“Não estou dizendo que é culpa desse ou daquele governo. Há anos que vivemos assim e ninguém faz nada”, disse o ex-administrador do local, Anaildo Silva.
Água de cano
Dona Abelina mora numa casa com dois netos menores e mantém a casa limpa, toma banho e bebe com a pouca água que sai no cano que fica rente ao chão. “A água chega a cada três dias, mas é pouca. Meus netos vão tomar banho lá na represa, mas eu não tenho condições. Lá é cheio de barro. Posso cair”, diz a aposentada.
A represa, à qual os netos de dona Maria e a maioria dos moradores do bairro têm que recorrer, está com a água aparentemente poluída. Animais bebem no mesmo local onde crianças se banham e alguns moradores apanham água para beber.
Precariedade
Na casa do aposentado Lorival de Jesus, de 75 anos, o descaso do poder público é mais evidente. Ele teve que contar com a ajuda de vizinhos até para retirar seus documentos e conseguir a aposentadoria no INSS.
O local que ele utiliza para fazer as necessidades biológicas é cercado, precariamente, por folhas de coqueiro. No centro, um vaso sanitário está solto e sem nenhuma condição de higiene. “A prefeitura construiu três privadas aqui no distrito, uma delas na casa de uma pessoa que tem boa condição financeira, e para seu Lorival, nada”, revelou Anaildo.
O aposentado mora no local há quatro anos, quando foi abandonado na rua pelo novo proprietário da fazenda onde trabalhou por 12 anos. De acordo com Anaildo, a fazenda foi vendida, e o novo proprietário comprou aquele “terreninho” nos fundos de uma casa e levou seu Lorival para lá. “Quando ele chegou, não tinha nem documentos. Tivemos que levá-lo ao Ministério Público para que ele retirasse os documentos e conseguisse a aposentadoria”, contou Anaildo.
Hoje, seu Lorival sobrevive de sua aposentadoria e da boa vontade dos vizinhos, que, na medida do possível, o mantêm abastecido, pelo menos com água. “Às vezes vou à represa e, quando chove, junto água em algumas goteiras aqui de casa”, conta Lorival, que vive numa casinha de barro de apenas dois cômodos minúsculos. Em um deles fica sua cama de solteiro, no outro, um fogareiro improvisado.
Na casa do também aposentado Sivaldo Dias do Vale, além da falta de água, a falta de iluminação pública é o que mais o perturba. Há um ano e seis meses, o aposentado vem solicitando que sejam repostas as lâmpadas do poste de iluminação da rua. “A taxa de iluminação pública é paga todos os meses. Minhas contas estão em dia. Se eu deixar de pagar uma, eles vêm e cortam a luz da minha casa”, afirma Sivaldo.
A TARDE - 01/04/2007
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