Vivem à margem da rodovia, entre Teixeira de Freitas e Prado, onde cerca de 40 famílias ergueram barracos em uma área do DNIT.
Meninos e meninas, entre um e dez anos, estão passando a infância na margem da BR-101, pedindo esmola aos motoristas que passam em alta velocidade pela rodovia. A arriscada forma que algumas famílias encontraram para sobreviver já resultou em uma tragédia: no fim do ano passado, uma criança foi atropelada no acostamento.
O Conselho Tutelar de Teixeira de Freitas já esteve na área e orientou os pais a retirarem as crianças daquela situação, afirmou o secretário municipal de Ação Social, Frenedir da Costa Góes. Mas, segundo ele, basta os comissários virarem as costas para que as crianças retornem à BR. “Não temos uma casa de passagem para retirar aquelas crianças de lá.”
A triste cena pode ser vista diariamente ao longo dos 11 km que separam Teixeira de Freitas do município de Prado, no extremo sul do estado, onde cerca de 40 famílias construíram casas improvisadas em área do DNIT. Sobrevivem com pequenas hortas — na maioria, de mandioca — e com os mantimentos que conseguem arrecadar de motoristas que por ali passam.
Cartazes – Para chamar a atenção dos motoristas, além das crianças com os braços estendidos pedindo dinheiro, as famílias confeccionaram cartazes com frases como “Precisamos de alimentos”, que foram fixados nas portas das casas. Alguns, mais criativos, reproduzem também slogans de campanhas nacionais contra a fome — como fez André Campista, de 27 anos.
Ele, a esposa e a filha de apenas oito anos vivem há um ano à beira da estrada, sobrevivendo com a produção da pequena horta e com cestas básicas que recebem esporadicamente. “Pelo menos aqui não temos que pagar aluguel”, diz a mulher de André, explicando o motivo pelo qual a família abandonou a cidade — mesma justificativa dada pela maioria das famílias que ali vivem.
A criança passa a tarde sentada sob o cartaz, brincando com uma boneca. Quando vê um veículo se aproximar, corre até a beira da rodovia. Um pouco além da casa dela, a cena é ainda mais chocante: dois meninos, de no máximo cinco anos, ficam na beira da rodovia com as mãos estendidas. Ao lado deles, sentada no chão, está uma menina de, no máximo, um ano, brincando.
SOZINHOS – Quando surge um carro, os meninos correm para perto e abandonam a menina na beira da pista. Estavam sozinhos em casa e disseram que a mãe estava na roça e o pai jogando bola. Ao ver que o veículo parou, uma mulher visivelmente embriagada chega pelo acostamento e diz ser tia das crianças — o que os olhinhos assustados dos dois garotos, que em nenhum momento se aproximam dela, parecem desmentir.
A mulher pede R$ 4 para comprar alimentos para as crianças. Essas três, e mais um menino de seis anos com outros nove irmãos, ainda não haviam feito nenhuma refeição naquele dia (por volta das 18h). No casebre onde os dez irmãos vivem, à beira da BR-101, a mãe deles e uma irmã mais velha fazem farinha, que será utilizada para reforçar a única refeição do dia, depois que os outros meninos retornarem da escola.
O pai, o agricultor Jorge Mateus de Jesus, 45 anos, conta que trabalhava numa lavoura de café até quebrar a perna. Foi então dispensado pelo dono da fazenda, que também mandou a família embora. Sem ter para onde ir, Jorge conseguiu negociar a compra da casa e da pequena faixa de terra (também na área do DNIT), onde hoje vive. Preocupado com o sustento da família, plantou mandioca e alguns pés de banana para consumo e venda na porta de casa — pequena renda com a qual espera, um dia, juntar dinheiro para comprar uma casa na cidade.
Pais vendiam cestas básicas
A maioria dessas famílias não recebe nenhum benefício dos programas de assistência social do governo federal, embora muitas afirmem que os filhos frequentam a escola. O acesso a essas bolsas geralmente exige documentação — e, segundo o secretário municipal de Ação Social, muitas dessas pessoas não possuem documentos. “Já fizemos um dia de cadastramento para emissão de CPF, mas quase ninguém apareceu”, afirmou Góes.
A distribuição de cestas básicas, que era feita a cada 15 dias pela secretaria, foi suspensa. Segundo o secretário, algumas famílias estavam vendendo os alimentos para comprar bebida alcoólica. “A situação é complexa”, declarou.
Kit Família – Uma alternativa apresentada pela secretaria é um convênio em andamento com a Conder para a distribuição do Kit Família, que, além de uma casa, inclui uma ajuda de custo para que a família possa iniciar alguma atividade produtiva. No entanto, o secretário também vê dificuldades nessa proposta, pois essas famílias não possuem terra própria, vivendo em uma área federal do DNIT. “Não posso simplesmente dar uma casa na cidade, onde eles não teriam nem onde cultivar uma hortinha.”
Segundo Frenedir da Costa Góes, o Conselho Tutelar já recomendou que os pais tirassem as crianças daquela situação, mas, como ele mesmo resume: “Quando os comissários viram as costas, as crianças voltam a pedir esmola à beira da estrada. E não temos uma casa de passagem para retirá-las de lá”.
A Tarde - 02/04/2005
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