Além de José da Silva, natural de Itanhém, mais quatro baianos estão entre os 277 deportados que retornaram ao Brasil
“Nunca mais ponho os meus pés fora do país”, disse ontem o baiano José Sales da Silva, de 47 anos, ao chegar em casa, em Itanhém, a 983 km de Salvador, depois de passar 28 dias detido nos Estados Unidos (EUA), numa aventura que ele classifica em duas etapas: desgaste físico (na travessia da fronteira México-EUA) e psicológico (os 28 dias que permaneceu preso).
José Sales é um dos 277 deportados dos EUA que retornaram ao Brasil na última quarta-feira. O baiano chegou aos Estados Unidos no dia 24 de dezembro de 2003 e foi detido pela polícia de imigração no dia 31 de dezembro, quando já se encontrava em Phoenix, no Arizona. “Foi a pior virada de ano da minha vida”, relatou.
“Eu estava toda feliz porque ele já estava nos Estados Unidos, não imaginava que ainda corria risco de ser pego”, disse Odete Sales, mulher dele, que permaneceu no Brasil em companhia das filhas Marília e Cecília.
José Sales, que trabalhava como empreiteiro em Itanhém, conta que resolveu ir para os EUA em busca de uma vida melhor para sua família. “Aqui no Brasil a gente fica sem condições e acaba caindo nessas ciladas ao buscar algo melhor”, desabafou. Com o dinheiro da venda de seu carro, que também era sua ferramenta de trabalho, José Sales pagou US$ 8 mil pela viagem — quantia que só foi depositada por Odete quando ela soube que o marido já estava em território americano.
Mercadorias – José Sales partiu de Itanhém de ônibus até São Paulo, com um grupo. De lá, pegou um voo para o México e foi levado para a cidade de Água Preta, onde permaneceu em casas de mexicanos. De Água Preta, seguiram de carro por cerca de 1h30 até perto da fronteira. Depois, enfrentaram uma caminhada de 5h30 pelo deserto, todos vestidos com roupas pretas e capuzes no estilo ninja.
Enfrentaram a travessia só com a roupa do corpo e uma garrafa de dois litros de água. “Não podemos usar nada que brilhe no escuro. A travessia é toda feita à noite, só os coiotes (os guias) levam uma lanterna. Se nos distanciarmos mais de 10 metros do colega da frente, acabamos nos perdendo. Temos que ficar atentos”, relatou.
O baiano revelou que, ao chegarem no México, os brasileiros passam a ser tratados como mercadorias nas mãos dos coiotes. “Cada um de nós vale US$ 2.500. Passamos a ser prisioneiros deles e não podemos mais desistir da viagem.” O dólar, para os coiotes, vale R$ 3.
Hipotermia – José Sales conta que quase morreu durante a travessia. O desgaste físico foi muito grande, e ele acabou tendo que carregar a mochila de dois colegas que se machucaram no caminho. “Quando chegamos do outro lado, por volta de 0h30, estávamos suados da caminhada e sofremos um choque térmico com o frio que fazia. O resgate só veio nos buscar às 6 da manhã”, relatou o baiano.
Para não congelarem, as dez pessoas que faziam parte de seu grupo deitaram umas sobre as outras para se aquecerem. Outro desafio no deserto, segundo ele, foi o controle do consumo de água. “Levamos apenas dois litros e não sabíamos quanto tempo duraria a travessia, então tivemos que racionar. Só molhávamos os lábios para evitar que a boca rachasse.”
Da fronteira, o grupo foi levado para Phoenix, onde permaneceu trocando de base (casas dos coiotes) até ser liberado. Foi nesse período que o grupo acabou sendo descoberto pela polícia de imigração, no dia 31 de dezembro.
A Tarde - 31/01/2004
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