A menina Talita dos Santos Viana, de 8 anos, deu, há pouco mais de um mês, seus primeiros passos. Agora, com um sorriso no rosto, faz questão de mostrar sua sala de treinamento: o berçário da Casa Vó Jurema, em Arraial d’Ajuda, a 707 quilômetros de Salvador. “Minha brincadeira preferida é caminhar no berço dos pequenos”, diz. Sua história de vida é um exemplo de luta e aprendizado para todos.
Quando tinha apenas 9 meses de vida, em 2000, Talita sofreu graves queimaduras. Ela estava no barraco onde os pais moravam, sob os “cuidados” das duas irmãs mais velhas — uma de 3 anos e outra de 1 ano e meio.
Sua chupeta caiu no chão, e a irmã mais velha foi pegá-la. Ao devolver a chupeta para Talita, que dormia em um colchão colocado no chão, a menina derrubou uma vela acesa. As chamas atingiram o mosquiteiro e o colchão onde Talita estava. Ela teve 90% do corpo queimado.
AJUDA
Em 2002, o pai de Talita foi pedir ajuda a Jurema Leopoldina Bacichet, proprietária da Casa Vó Jurema, que decidiu adotar a menina. Talita passou a morar na creche e, nesses 8 anos de vida, já enfrentou 20 cirurgias para reconstituição dos órgãos queimados. Ficou um ano e dois meses em coma por causa de uma dessas cirurgias e teve que amputar as pernas (o que restou delas).
Com muito esforço, os médicos conseguiram recuperar os braços, mas a menina não tem as mãos. As cirurgias — feitas pela equipe do renomado cirurgião plástico Ivo Pitanguy — e o atendimento hospitalar são gratuitos, mas as despesas com transporte e hospedagem no Rio de Janeiro são custeadas pela instituição, que sobrevive de doações.
Talita não se adaptou às primeiras próteses de pernas, colocadas em uma clínica do Rio de Janeiro. No início deste ano, com os custos pagos por uma empresária de Arraial d’Ajuda (que prefere não se identificar), a menina foi levada ao Instituto de Prótese e Órtese (IPO), em Campinas, onde fez uma nova tentativa de adaptação. Desde o último dia 27, quando retornou à creche, Talita tem sido incansável nos treinos com as novas próteses.
Ela vai ao berçário e passa o dia caminhando entre os berços, que têm sido seu ponto de apoio.
ESPERANÇA
Talita faz questão de mostrar que já consegue sentar sozinha e cruzar as pernas.
O humor e a fisionomia da menina mudaram depois que passou a dar os primeiros passos. Há nove meses, a equipe da sucursal de Eunápolis do jornal A TARDE esteve na creche para fazer uma matéria sobre Vó Jurema. À época, Talita era uma menina acanhada e não demonstrava suas emoções. Agora, com um sorriso no rosto — marcado pelas queimaduras —, ela convidou a repórter e o fotógrafo a acompanhá-la até o refeitório.
No corredor, parou, soltou as mãos da cadeira de rodas que lhe servia de apoio e abriu os braços: “Tio, eu quero uma foto assim!”. Agora, seu sonho é começar a correr para brincar com os amigos da creche, onde cursa a primeira série.
Para quem quiser conhecer mais sobre o trabalho da Casa Vó Jurema, há o site www.casavojurema.com.br, onde estão disponíveis os contatos para doações.
A Tarde - 11/02/2008