terça-feira, 4 de março de 2008

KRAJCBERG DOA ACERVO

O artista plástico brasileiro Frans Krajcberg, de origem polonesa e radicado na Bahia, surpreendeu o secretário de Cultura do Estado, Márcio Meirelles, no domingo, com a doação de toda a sua obra, do museu (ainda em construção) e do sítio (51 hectares de Mata Atlântica preservada) ao governo do Estado.

Meirelles estava em visita à casa do artista, em Nova Viçosa, para conversar sobre seu livro de fotografias — selecionadas especialmente para uma edição que será lançada pelo governo do Estado na próxima sexta-feira — e falar sobre o destino da obra e do sítio do artista.

"Eu preciso saber o que vai ser de tudo isso depois que eu desaparecer", disse Krajcberg, antes de anunciar a doação. "Todos os meus bens, toda a minha obra. Isso vai ficar para o Estado da Bahia. Não há outra proposta. O Estado da Bahia vai criar lei para preservar para sempre tudo que vou deixar", afirmou.

Márcio Meirelles não deu detalhes de como o governo do Estado irá criar condições para manter toda a doação do artista. Disse apenas que não teria como o governo recusar um "presente desses". Meirelles se declarou apaixonado pela obra do artista, que utiliza árvores mortas e corantes naturais na construção das peças.

MILITANTE – "Já conhecia a obra, mas foi especial estar aqui ao lado dele. Sua obra é fundamental pela estética e pela ética. Ele é um militante da preservação da natureza, comprometido com o futuro", revelou o secretário de Cultura.

Em Nova Viçosa, o secretário conheceu o Sítio Natura — onde o artista mora numa casa construída por ele sobre um galho gigante de pequi — e visitou as obras do Museu Krajcberg, que está sendo construído e deverá ser o primeiro museu ecológico-artístico do mundo, onde se poderá tratar da "saúde do planeta".

"Ainda não tenho prazo para a conclusão do museu, estou construindo tudo sozinho, mas existem prédios em que vou precisar da ajuda do governo", declarou o artista. “Ajuda mais que justa”, confirmou o secretário.

Durante as cinco horas em que Meirelles esteve na companhia de Krajcberg, ouviu sobre sua história de vida e a paixão pela natureza.

Sobre a fotografia, outra de suas paixões, o artista declarou: "Que surpresa é fotografar, descobrir um novo detalhe. Existe tanta coisa que a gente é pobre perto da natureza. Não fico um dia sem fotografar".

Aguerrido defensor da natureza, Krajcberg não perdeu a oportunidade de alertar sobre sua destruição em todo o país e, principalmente, no extremo sul do Estado.

"Houve muita violência, destruição da floresta mais linda. A Bahia continua terra de ninguém. Essa região é importante para o mundo. Aqui nasceu a palavra Brasil, mas já não tem mais quase pau-brasil", conclui.

CIDADÃO – Krajcberg receberá o título de cidadão baiano na próxima sexta-feira, às 10 horas, na plenária da Assembleia Legislativa, aos 86 anos, depois de viver 35 anos na Bahia. "Pela primeira vez estou me sentindo na minha casa, dormindo na minha cama", declarou.

Há dois anos, o artista, defensor das causas ambientais, havia declarado que estava desistindo da Bahia, terra que adotou como sua desde 1973, quando veio morar em Nova Viçosa. Na realidade, ele disse que, apesar da declaração, nunca pensou em abandonar a Bahia.

"Sou baiano com o maior orgulho da terra de onde esse país nasceu".

A declaração, na época, se deu por nunca ter recebido apoio, nem ao menos uma visita, de governantes do Estado. No ano passado, o governador Jaques Wagner esteve no Sítio Natura, durante o aniversário do artista. Foi a primeira vez que um governador do Estado esteve em seu sítio, vendo de perto sua obra. "Fiquei impressionado com o governador, é uma pessoa simples. Ficamos amigos", revelou Krajcberg.

O artista nasceu em Kozienice, Polônia, em 1921. Combatente do Exército Soviético na 2ª Guerra Mundial, emigrou em 1948 para o Brasil.


Caderno 2 - A Tarde - 04/03/08

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