sexta-feira, 23 de maio de 2008

Extração ilegal de carvão destrói mata nativa no sul do estado

Mais de 53 hectares de mata nativa foram destruídos nos últimos quatro anos, no extremo sul do Estado, para a produção ilegal de carvão, em sua maioria adquirida por siderúrgicas do Espírito Santo e de Minas Gerais. De acordo com o Ministério Público Estadual (MPE), a Coordenação Regional Costa das Baleias, do Núcleo Mata Atlântica, atua com um inquérito civil para apurar irregularidades na produção e comercialização do carvão na região.

Na última segunda-feira, houve uma audiência com representantes de empresas siderúrgicas e de celulose, dirigentes das secretarias estaduais da Fazenda e do Meio Ambiente, além da Polícia Ambiental, visando à regularização da produção de carvão na região. O encontro foi promovido pelo MPE, por meio da Coordenação Regional Costa das Baleias, do Núcleo Mata Atlântica.

Durante a audiência, representantes de três siderúrgicas do Espírito Santo — que adquirem carvão no extremo sul da Bahia — garantiram que irão se reunir com representantes das empresas de celulose Aracruz e Suzano, além da CAF Arcelor Mittal (de carvão vegetal), para desenvolver, até o próximo dia 2, o esboço de um plano de auto-suprimento da matéria-prima.

Dificuldade – A situação da produção ilegal de carvão na região é crítica e envolve questões sociais, segundo Natália Coelho Albuquerque, chefe substituta do escritório do Ibama em Teixeira de Freitas. “Praticamente todas as comunidades atuam na produção de carvão. Eles conseguem tirar um salário mínimo por forno/semana”, explica Natália, referindo-se à dificuldade de convencer os produtores rurais — nos municípios de Teixeira de Freitas, Alcobaça, Nova Viçosa e Mucuri — a não investirem na atividade.

O coordenador do Núcleo Mata Atlântica, promotor Sérgio Mendes, estima que existam mais de mil carvoarias irregulares na região, “comprometendo o meio ambiente e potencializando um gravíssimo problema de insustentabilidade ambiental”, ressaltou. Ainda segundo o Ibama, para manter a produção, estão sendo furtadas árvores nativas de reservas naturais. Somente este ano, foram registradas 70 ocorrências de degradação em áreas de reserva de uma empresa de celulose.

Esse dado foi reforçado pelo promotor de Teixeira de Freitas, Alexandre Cruz, durante a audiência. “No extremo sul, o carvão é produzido a partir de madeira furtada da Mata Atlântica e de plantações de eucalipto das empresas de celulose. O produto é amplamente adquirido por siderúrgicas do Espírito Santo e de Minas Gerais”, explicou Cruz.

Para Natália, a organização da produção de carvão com resíduos de eucalipto seria uma solução viável. No entanto, as empresas de celulose não permitem a retirada dos resíduos de suas áreas, alegando que esses materiais contribuem para a conservação do solo — o que, segundo a chefe do escritório do Ibama, não é verdadeiro.

O metro cúbico do carvão vegetal é vendido por valores entre R$ 100 e R$ 120, enquanto o valor pago nas carvoarias varia de R$ 20 a R$ 40. Para produzir um metro cúbico de carvão, são necessários três metros cúbicos de madeira. De acordo com o Ibama, três caminhões de carvão — com capacidade de 50 m³ cada — são suficientes para devastar um hectare de mata.


* 11/09/2007 - A Tarde Online

domingo, 18 de maio de 2008

Solta a primeira harpia adulta sob monitoração


Um exemplar da maior ave de rapina das Américas, a harpia (Harpia harpyja), conhecida como gavião-real, foi encontrado por fazendeiros na Fazenda Aliança, no município de Itagimirim (a 606 km de Salvador), na última terça-feira. Entregue ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a ave tornou-se a primeira harpia adulta monitorada via satélite no Brasil.

O animal foi solto na última quinta-feira no Parque Nacional do Pau-Brasil (ParNa Pau-Brasil), em Porto Seguro, por pesquisadores do Projeto Harpia na Mata Atlântica. “Vamos permanecer observando o comportamento da águia nos primeiros dias nas matas do ParNa”, explicou a pesquisadora Tânia Sanaiotti, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e presidente do projeto. A harpia será monitorada durante três anos.

Os pesquisadores do projeto — que, na Amazônia, recebe o nome de Projeto Gavião-real — já realizam o monitoramento de uma harpia jovem na floresta amazônica, mas é a primeira vez que irão monitorar uma ave adulta.

“Tudo será novidade”, comemora Tânia, ao explicar que a águia jovem ainda não voa a grandes distâncias do ninho. A que está sendo monitorada na Amazônia se afasta no máximo 300 metros, enquanto um animal adulto chega a percorrer até 80 quilômetros à procura de alimentos.

O Projeto Harpia na Mata Atlântica foi criado em 2005, por meio do contato com os pesquisadores que desenvolviam um projeto semelhante na Amazônia.

O interesse surgiu após o avistamento, em 2004, de um gavião-real que frequentemente pousava no viveiro da Estação Veracel (uma Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN), em Porto Seguro. Outro exemplar da ave, também fêmea, vivia no local desde 1997, quando foi encontrada por fiscais do Ibama. A harpia era mantida em cativeiro em uma fazenda da região e estava ferida.

NINHO – Em 2005, os pesquisadores do Projeto Harpia na Mata Atlântica avistaram um ninho da espécie na Estação Veracel, o primeiro encontrado na Bahia.

O grupo constatou a existência de um casal de gaviões-reais na estação e, por isso, optou por soltar o exemplar encontrado na semana passada. “Optamos por soltá-lo no ParNa para povoar outras áreas de Mata Atlântica”, explicou Tânia.

Antes da soltura do animal, os pesquisadores fizeram um levantamento para ter certeza de que o local oferece as condições necessárias para que a ave viva e consiga se reproduzir.

“Constatamos que no ParNa há condições para que sobrevivam dois casais de harpia, por isso decidimos que iremos soltar a outra harpia lá também”, revelou a pesquisadora.

A soltura do outro animal, que também será monitorado via satélite, acontecerá no segundo semestre deste ano.

A ave que hoje é mantida na Estação Veracel está sendo treinada para retornar à natureza, por isso o contato com humanos está restrito aos pesquisadores do projeto. Após avaliação, foi observado que, apesar de ter sido mantida em cativeiro antes de chegar à estação, o animal provavelmente foi capturado já adulto.

“Ele não chegou a ser humanizado, por isso pode retornar à natureza”, explicou o pesquisador José Eduardo Mantovani.

Além da harpia encontrada na região de Itagimirim, só há registros de duas outras fêmeas na Estação Veracel e do avistamento de algumas águias jovens também na região da estação, informou Tânia. A pesquisadora destaca a importância da colaboração da comunidade para o resgate da ave na região da Mata Atlântica.

Ela enfatiza que o monitoramento só está sendo possível graças à consciência dos fazendeiros que encontraram o animal e o encaminharam ao Ibama, e também à agilidade do órgão em contatar o projeto.

O Projeto Harpia na Mata Atlântica é financiado pela fábrica de celulose Veracel. O trabalho é integrado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ibama e RPPN Veracel.


Jornal A Tarde - 18/05/2008

RPPN Rio do Brasil: Mais que uma aventura na natureza, uma iniciativa de conservação ambiental

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