domingo, 18 de maio de 2008

Solta a primeira harpia adulta sob monitoração


Um exemplar da maior ave de rapina das Américas, a harpia (Harpia harpyja), conhecida como gavião-real, foi encontrado por fazendeiros na Fazenda Aliança, no município de Itagimirim (a 606 km de Salvador), na última terça-feira. Entregue ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a ave tornou-se a primeira harpia adulta monitorada via satélite no Brasil.

O animal foi solto na última quinta-feira no Parque Nacional do Pau-Brasil (ParNa Pau-Brasil), em Porto Seguro, por pesquisadores do Projeto Harpia na Mata Atlântica. “Vamos permanecer observando o comportamento da águia nos primeiros dias nas matas do ParNa”, explicou a pesquisadora Tânia Sanaiotti, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e presidente do projeto. A harpia será monitorada durante três anos.

Os pesquisadores do projeto — que, na Amazônia, recebe o nome de Projeto Gavião-real — já realizam o monitoramento de uma harpia jovem na floresta amazônica, mas é a primeira vez que irão monitorar uma ave adulta.

“Tudo será novidade”, comemora Tânia, ao explicar que a águia jovem ainda não voa a grandes distâncias do ninho. A que está sendo monitorada na Amazônia se afasta no máximo 300 metros, enquanto um animal adulto chega a percorrer até 80 quilômetros à procura de alimentos.

O Projeto Harpia na Mata Atlântica foi criado em 2005, por meio do contato com os pesquisadores que desenvolviam um projeto semelhante na Amazônia.

O interesse surgiu após o avistamento, em 2004, de um gavião-real que frequentemente pousava no viveiro da Estação Veracel (uma Reserva Particular do Patrimônio Natural – RPPN), em Porto Seguro. Outro exemplar da ave, também fêmea, vivia no local desde 1997, quando foi encontrada por fiscais do Ibama. A harpia era mantida em cativeiro em uma fazenda da região e estava ferida.

NINHO – Em 2005, os pesquisadores do Projeto Harpia na Mata Atlântica avistaram um ninho da espécie na Estação Veracel, o primeiro encontrado na Bahia.

O grupo constatou a existência de um casal de gaviões-reais na estação e, por isso, optou por soltar o exemplar encontrado na semana passada. “Optamos por soltá-lo no ParNa para povoar outras áreas de Mata Atlântica”, explicou Tânia.

Antes da soltura do animal, os pesquisadores fizeram um levantamento para ter certeza de que o local oferece as condições necessárias para que a ave viva e consiga se reproduzir.

“Constatamos que no ParNa há condições para que sobrevivam dois casais de harpia, por isso decidimos que iremos soltar a outra harpia lá também”, revelou a pesquisadora.

A soltura do outro animal, que também será monitorado via satélite, acontecerá no segundo semestre deste ano.

A ave que hoje é mantida na Estação Veracel está sendo treinada para retornar à natureza, por isso o contato com humanos está restrito aos pesquisadores do projeto. Após avaliação, foi observado que, apesar de ter sido mantida em cativeiro antes de chegar à estação, o animal provavelmente foi capturado já adulto.

“Ele não chegou a ser humanizado, por isso pode retornar à natureza”, explicou o pesquisador José Eduardo Mantovani.

Além da harpia encontrada na região de Itagimirim, só há registros de duas outras fêmeas na Estação Veracel e do avistamento de algumas águias jovens também na região da estação, informou Tânia. A pesquisadora destaca a importância da colaboração da comunidade para o resgate da ave na região da Mata Atlântica.

Ela enfatiza que o monitoramento só está sendo possível graças à consciência dos fazendeiros que encontraram o animal e o encaminharam ao Ibama, e também à agilidade do órgão em contatar o projeto.

O Projeto Harpia na Mata Atlântica é financiado pela fábrica de celulose Veracel. O trabalho é integrado por pesquisadores do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ibama e RPPN Veracel.


Jornal A Tarde - 18/05/2008

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