Dez por cento da população de corais-cérebro do banco dos Abrolhos, no município de Caravelas, a 822 quilômetros de Salvador, desapareceu nos últimos três anos. A descoberta foi feita por um grupo de pesquisadores da ONG Conservação Internacional (CI-Brasil) e da Universidade Federal da Bahia (Ufba), que há oito anos, num trabalho inédito, monitoram os corais da região.
De acordo com o biólogo Ronaldo Francini Filho, os corais-cérebro, endêmicos da região (encontrados apenas ali), estão sendo atingidos por uma doença conhecida como praga-branca, que os deixa esbranquiçados. Se o avanço da doença se mantiver no ritmo atual, como foi constatado, 60% da colônia de corais poderá morrer até 2010, avalia o pesquisador.
As causas da doença ainda estão sendo analisadas, mas o pesquisador acredita que o aquecimento das águas e o aumento de nutrientes, devido à poluição, sejam os principais fatores. “Ainda não existe uma relação nítida de causa e efeito, mas o aquecimento gradual das águas faz com que as doenças se proliferem mais rapidamente”, observa Francini Filho.
Segundo ele, o próximo passo da pesquisa será comprovar que a praga-branca é, de fato, uma doença, por meio de experimentos em laboratório.
No mundo, existem cerca de 650 espécies conhecidas de corais de águas rasas. No Brasil, são encontradas apenas 15 espécies, entre elas o coral-cérebro, endêmico da Bahia. Os recifes de corais são importantes não apenas pela proteção da costa, destaca o pesquisador, mas também por manterem o equilíbrio marinho e servirem como áreas de grande concentração de peixes.
Para Francini Filho, o aumento da proteção ao Parque Nacional Marinho dos Abrolhos é um ponto crucial para conter o avanço da doença. “Em relação ao aquecimento das águas, é preciso uma ação global, mas o aumento da zona de amortecimento do parque seria uma medida importante”, acredita o biólogo.
Camarões – O pesquisador também destaca que a autorização para a instalação de um projeto de carcinicultura (criação de camarões em cativeiro), que poderá ser implantado na região de manguezais de Caravelas, agravaria ainda mais o problema da poluição local.
O Parque Nacional Marinho dos Abrolhos é um arquipélago formado por cinco ilhas. Segundo uma pesquisa publicada em 2006, os níveis de endemismo (espécies encontradas somente ali) na região podem ser quatro vezes maiores que os do Caribe.
De acordo com o estudo, foram registradas 1.300 espécies, divididas em seis grupos pesquisados. Pelo menos 17 moluscos e um peixe completamente novos para a ciência foram descobertos no local. Além disso, foram identificadas, pela primeira vez em Abrolhos, 15 espécies de algas, dois corais, 86 poliquetas, 23 crustáceos e aproximadamente 100 espécies de peixes — segundo pesquisa produzida pela CI-Brasil, Ufba e outras instituições de ensino e pesquisa, em fevereiro de 2000.