quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Blocos levam alegria para turistas em Arraial

Você que vai passar o feriadão do Carnaval – de 1º a 6 de fevereiro – na Costa do Descobrimento, fique sabendo que não vai faltar alegria, tanto em Porto Seguro quanto em Arraial d'Ajuda. Durante os dias da folia momesca, o visitante terá muita coisa para ver, além da natureza deslumbrante, das praias, passeios ecológicos e noitadas na Passarela do Álcool. E todos os caminhos levam ao badaladíssimo vilarejo do verão baiano.

Mais uma vez, a novidade será o desfile do bloco Bandeiroza, que há 12 anos reúne moradores de Arraial, vilarejo de Porto Seguro, a 707 km de Salvador. A ideia de se criar um bloco surgiu como alternativa para o turista que visitava Porto Seguro nesta época e procurava participar de eventos que resgatassem os carnavais antigos, com charanga, marchinhas, plumas e paetês.

A propósito, aí vai um trecho da letra do samba-enredo do bloco de Carnaval Bandeiroza deste ano:
"Diz a lenda que lá pelos loucos anos 60/70, um jornalista esteve em Arraial d'Ajuda para tentar entender por que cada vez mais as pessoas que conheciam o lugar voltavam para suas cidades deslumbradas e apaixonadas por este Arraial."

Luís Cláudio Ribeiro, 43 anos, um dos idealizadores do bloco, lembra:
"Queríamos um bloco com a criatividade do Carnaval de Recife, a alegria do Carnaval de Salvador e o luxo do Carnaval carioca."
Na época da criação do Bandeiroza, ele era dono de um bar e procurava uma alternativa para manter seus clientes no vilarejo durante os dias da folia.
"Hoje já tem quem venha especialmente para o Carnaval de Arraial", comemora Ribeiro.

Este ano, o Bandeiroza contará um pouco da história do vilarejo, que o mesmo jornalista (citado na letra do samba-enredo), na década de 1980, definiu com a seguinte frase:
"Arraial d'Ajuda: se cobrir vira circo, se fechar vira hospício e se contar ninguém acredita."
O enredo, portanto, falará dos diversos "circos" que formam o vilarejo: o circo mágico, o circo da alegria, o circo místico e o circo boêmio.

VISTA DO SANTUÁRIO

O encanto de Arraial d'Ajuda passa pelas belas paisagens que se descortinam nas praias, na vista dos fundos do Santuário de Nossa Senhora d'Ajuda (no centro de Arraial) e no colorido das pousadas e residências do vilarejo. Pela vida simples das cidades do interior e pela forma como seus moradores acolhem bem a todas as tribos e gerações — das crianças aos hippies, e à melhor idade.

No centro do vilarejo, é possível ver o contraste entre a arquitetura e a paisagem que se revela como pano de fundo do Santuário, construído em 1549, na extremidade da parte mais antiga do Arraial.

HISTÓRIAS E PAISAGENS QUE ATIÇAM A IMAGINAÇÃO

O Circo Mágico é onde os visitantes mais se encantam. Faz parte das atrações turísticas de Arraial d'Ajuda, que começam pelas belezas naturais do vilarejo e de suas praias. Quem não fica deslumbrado ao ver a belíssima vista do mar da Costa do Descobrimento dos fundos do Santuário de Nossa Senhora d'Ajuda? E o colorido das pousadas e residências do vilarejo? Ali está tudo que enriquece e torna invejável a vida simples das cidades do interior baiano. E quando se trata de seu vasto litoral, nem se fala.

Arraial tem algo especial: a forma simpática e cordial com que seus moradores acolhem os visitantes.
Todas as tribos e gerações de brasileiros que chegam a Arraial têm vez — das crianças aos hippies, sem excluir a galera da melhor idade, que cada vez mais viaja para conhecer o próprio país.

CHICO TRIPA

Na Lapinha surgiram as primeiras e toscas pousadas, lá pelos primórdios do "boom" turístico de Porto Seguro e arredores, nos anos 1960. Hoje, é referência, lembrado como um dos primeiros bairros do vilarejo, onde morava Francisco Alexandrino de Moraes, figura histórica do lugar.

Ele ficou conhecido como Chico Tripa, que, por sinal, será um dos nomes tradicionais a serem homenageados pelo bloco Bandeiroza. O desfile será, portanto, uma oportunidade para que os turistas conheçam um pouco da vida de Chico Tripa, falecido em 1998. Era nativo de verdade — nasceu em Arraial e foi o primeiro vendedor de lotes no vilarejo.
"Ele vendia as terras e, quando as pessoas não podiam pagar, aceitava mercadorias em troca. Lembro de uma senhora que pagou com um relógio. Ele só queria receber a parte dos impostos", conta Ruth Alexandrino, filha de Chico, que ainda mora no bairro Lapinha.

Com o desenvolvimento do turismo na região de Porto Seguro nos últimos 35 anos, as coisas melhoraram bastante. Tanto que o bairro histórico de Arraial d'Ajuda hoje abriga residências, comércios e pousadas. A rua de entrada foi revitalizada pelos próprios moradores, com a criação da Praça da Lapinha. As fachadas das casas antigas da área foram pintadas, e hoje exibem um visual multicolorido que encanta os visitantes.

Outras figuras homenageadas pelo bloco Bandeiroza no Carnaval de 2008 serão:

  • Beto da Farmácia, que teria sido o primeiro "médico" do vilarejo;

  • Fernanda Fernandes, modelo que por muitos anos deu mais vida e alegria ao local;

  • E o boêmio Moacir "Moa", figura querida entre nativos e visitantes.

BRODUÉI É UM CIRCO MÁGICO

Uma das ruas mais conhecidas e badaladas de Arraial d’Ajuda hoje foi batizada com este nome pelos hippies que descobriram o vilarejo nos anos 1960/70. A alusão era à Broadway de Nova Iorque, que a galera descolada conhecia bem.

A rua será destaque no bloco Bandeiroza.
"Era na Broduéi que ficavam os bares, lojinhas e restaurantes que abriam suas portas, e onde se montavam pequenos palcos nos quais artistas dos mais variados estilos se apresentavam aos visitantes. Era um circo mágico", diz o enredo do bloco.

Hoje, a Broduéi está mudada. Já não abriga apenas barzinhos; virou quase um calçadão. Os bares deram lugar ao comércio, mas sem perder o estilo característico de Arraial. Os hippies continuam presentes, ocupando a Praça São Brás, no final da rua, onde vendem artesanatos à noite.

A Rua Mucugê será o palco do desfile das Bandeirozas. Lá estão os mais charmosos e coloridos restaurantes, lojinhas e barzinhos do vilarejo.

BECO DAS CORES

Ponto de encontro tradicional de turistas e nativos, o Beco das Cores abriga creperias, pizzarias, restaurantes e uma cachaçaria. É lá que, na segunda-feira de Carnaval, acontece o Baile de Máscaras, que segundo comerciantes, “dá mais magia ao já encantado lugar”.

O enredo do bloco deste ano também valoriza a presença de culturas estrangeiras — italiana, argentina, mexicana, japonesa. Arraial agrada a todos os gostos e tribos.

E não poderia ficar de fora do Carnaval das bandas e abadás.
Nas noites de 2 a 5 de fevereiro, as praias como a do Parracho se transformam em mais uma opção para recarregar as energias da folia, com shows de Olodum, Banda Nairê, DJ Malboro, entre outras atrações.

Durante o dia, as águas calmas e azuis das praias Mucugê, Parracho, Pitinga e Lagoa Azul — estas últimas emolduradas por falésias douradas em contraste com o azul do mar — são o cenário perfeito para descanso e contemplação. Essas praias são as mais próximas do centro do vilarejo e são movimentadas, mas sem tumulto.

BLOCOS CAIÇARAS E DA 3ª IDADE

Além do bloco Bandeiroza, o Carnaval à moda antiga de Arraial d’Ajuda inclui também o bloco Caiçaras, formado por nativos. O enredo deste ano destaca os grupos baianos e a mitologia africana, que mais tarde se transformou na afro-brasileira. O Caiçaras desfilará na segunda-feira com uma comissão de frente composta por baianas estilizadas.

Na sexta-feira, 1º de fevereiro, as ruas de Arraial se animam com o bloco Pé-de-Cana, em seu segundo ano, que sai com abadás e é puxado por um minitrio.

O bloco da Terceira Idade, ou Melhor Idade, como queiram chamá-lo, o bloco da Terceira Idade sairá pelo terceiro ano consecutivo no sábado de Carnaval, dia 2. O bloco é formado por senhoras do famoso vilarejo de Porto Seguro, que se reúnem durante todo o ano em atividades esportivas, artesanais e culturais. O Terceira Idade também é puxado por uma curiosa charanga, e todos os componentes desfilam fantasiados.

ARTESANAL

A opção por fazer uma festa “artesanal” em Arraial d’Ajuda tem por finalidade animar e atrair para a folia não só os integrantes dos blocos, mas todos os que estiverem pelas ruas do vilarejo durante os dias de Carnaval.

Os blocos não possuem cordas, e nada é cobrado para que qualquer pessoa possa sair sambando atrás das charangas e minitrios. Para encerrar, na terça-feira de Carnaval, acontece o encontro dos quatro blocos na Rua Mucugê.

É a hora das despedidas.

RESSACA CULTURAL

Acabada a festa, o verão continua firme em Porto Seguro, com sol e praias durante o dia e baladas à noite. Os turistas podem visitar o Centro Histórico, onde se encontram relíquias arquitetônicas dos primeiros anos da colonização portuguesa.

No sítio, encontram-se a Igreja de Nossa Senhora da Peña, erguida no século XVI, que abriga 20 imagens de santos, inclusive a da padroeira da cidade. A Casa de Câmara e Cadeia é outro exemplar precioso da época, mesmo após reformas.


* Caderno de Turismo - A Tarde - 17/01/2008

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

FOGO NA DECOLAGEM

Um helicóptero modelo Robson 44, destinado a voos panorâmicos com turistas, caiu de aproximadamente três metros de altura e incendiou-se, na tarde de ontem, na orla norte de Porto Seguro (a 707 km de Salvador, no extremo sul). Três passageiros permaneceram no helicóptero no início do incêndio e foram resgatados com queimaduras por um ambulante e pelo marido de uma das passageiras. O aparelho era disponibilizado pela barraca Tô à Toa, para voos.

De acordo com o turista mineiro Juliano Medeiros, que estava a menos de 100 metros do acidente, o helicóptero tinha acabado de decolar quando começou a balançar (inclinar para os lados). O piloto retornou ao heliporto e desceu correndo da aeronave. Os passageiros Rubens Mota Fernandes, 46 anos, Letícia Dutra Ambrósio, 13, e Joelma Rosa de Oliveira, 27, ficaram presos na aeronave e foram resgatados pelo ambulante e pelo marido de Joelma.

Segundo Joelma, o piloto Juliano Rufino foi o primeiro a abandonar o helicóptero e não prestou socorro aos passageiros. “Na hora, eu só pensei que ia morrer. O piloto foi embora e deixou a gente lá dentro”, comentou, nervosa, a passageira.

O heliporto de onde decolou a aeronave fica ao lado da barraca, pertencente a Paulo Onishi. O acidente ocorrido ontem poderia ter tido proporções maiores, caso o piloto não tivesse conseguido retornar ao heliporto.

CORRERIA

“Eu vi que a aeronave começou a cair para o lado e desceu. Depois veio o fogo. Foi horrível, as pessoas ficaram presas. Aqui fora, todo mundo corria com medo de explosão”, contou uma vendedora que preferiu não se identificar. Depois que os passageiros foram resgatados, a aeronave queimou totalmente.

Até o final da tarde, as autoridades da Aeronáutica e da Polícia Civil, que estão apurando o caso, preferiram não se pronunciar. O piloto foi contatado por telefone, mas alegou não ter condições de falar sobre o acidente. Os feridos foram conduzidos ao Hospital Luís Eduardo Magalhães. Rubens sofreu traumatismo craniano leve e ficou em observação por 12 horas. Joelma teve uma queimadura no pé, foi medicada e liberada. Letícia teve escoriações leves, segundo o médico coordenador da emergência.

Representantes da Aeronáutica, que apuram o acidente e estiveram no local, não deram informações sobre o proprietário nem sobre a manutenção do aparelho. O dono da barraca não foi localizado para comentar o caso.

Jornal A Tarde - 08/01/08

sábado, 5 de janeiro de 2008

Freiras dão força a mães lavradoras

Trabalho social de irmãs missionárias permite que agricultores do distrito de Vera Cruz, em Eunápolis, possam trabalhar

Todas as manhãs, às 4 horas, o casal José e Marta deixa os dois filhos pequenos na casa das Irmãs da Congregação Missionárias Servas do Senhor, no distrito de Vera Cruz, em Eunápolis, antes de ir para a colheita do café. No final da tarde, após as 19 horas, o casal pega os filhos de volta.

Esse ritual é o mesmo para os pais de outras 233 crianças que frequentam a Creche Cruz de Malta, no mesmo bairro. “Eles deixam lá em casa, porque no horário em que saem para trabalhar a creche ainda não abriu e, quando voltam, já fechou”, conta a Irmã Lilia, responsável pela creche.

O trabalho social desenvolvido pelas missionárias tem proporcionado aos trabalhadores rurais a possibilidade de cumprir sua jornada nas lavouras de café, deixando os filhos aos cuidados da creche. Lá, 235 crianças recebem alimentação e praticam atividades pedagógicas e de lazer.

Tia Irmã Lilia, como a freira é chamada pelas crianças, conta que 90% das crianças atendidas na creche são filhos de trabalhadores rurais, a grande maioria envolvida na colheita de café. A creche começou a funcionar há dois anos, depois que a congregação notou a necessidade de uma instituição para atender os filhos dos trabalhadores no bairro. “A maioria dessas crianças passava o dia sozinha dentro de casa, muitas vezes sem ter o que comer”, relatou.

PIMENTA

A freira se emocionou ao narrar a história de uma família com seis crianças, que o pároco local foi visitar há dois anos e encontrou todas as crianças sozinhas em casa, a mais velha com oito anos, na época. Ao serem indagadas sobre o que haviam comido naquele dia, a menina mais velha não hesitou em abrir a porta da casa (um pequeno barraco de não mais de seis metros quadrados), apanhar uma pimenta no pé e colocá-la na boca. “A gente só come isso”, disse a menina.

Hoje, a menor tem 10 anos (com estatura de criança de três), e está sendo criada pelas freiras. Seus irmãos frequentam diariamente a creche, onde recebem alimentação, banho, educação e, principalmente, muito amor das seis religiosas e das 18 voluntárias que ajudam na instituição. “A mãe dos menores, grávida do sétimo filho, também costuma frequentar a creche no horário das refeições.”

DESNUTRIDOS

O casal e três filhos (dois foram dados em adoção) moram nas terras de uma família, mas são impedidos de colher verduras. Recebem R$ 35 por mês para cuidar da roça, mas há meses em que o pagamento vem em forma de pinga ou fardo de boi”, relata a freira. “Assim como essas crianças, a maioria dos meninos que atendemos só se alimenta e só toma banho aqui na creche. Os pais passam o dia no trabalho e não têm o que comer em casa.

Muitos pais estão trabalhando, mas, quando terminar a colheita do café, serão mais 200 desempregados”, prevê a irmã, informando que, nesses casos, os pais passam a frequentar a creche como voluntários e fazem as refeições na instituição.

A Creche Cruz de Malta foi criada com a ajuda de monsenhor Jorge Crima, por meio de um convênio com a comunidade da Ilha de Malta (no Mar Mediterrâneo), e é mantida com doações da comunidade. Além das seis Irmãs que trabalham na creche, as 18 funcionárias que atendem às crianças atuam voluntariamente.

A Tarde - 20/06/2004

Mulher ameaça matar 111 crianças

“Se retirar uma dessas crianças, eu mato todos os outros”, disse Luciene Sena, dona da creche e orfanato Melquisedeque, à policial federal Joseane Sousa Caldas, que foi ao local, como cidadã, para adotar uma criança. A advogada Fernanda Salvatori ouviu, em 2005, a mesma declaração da dona da creche ao se mostrar interessada em adotar um menino. Na Melquisedeque, em Porto Seguro (a 640 km de Salvador), vivem, em regime de internato, 111 crianças e adolescentes, que são chamados de “filhos” por Luciene.

Revoltada com a ameaça que ouviu, a policial federal Joseane procurou a Justiça de Porto Seguro e conseguiu um mandado, expedido pelo juiz da Vara da Infância e Juventude, Álvaro Marques de Freitas, para realizar uma inspeção no local. O relatório final, encaminhado ao juiz, denuncia as condições insalubres e o estado deplorável em que são mantidos os internos, ferindo o Estatuto da Criança e do Adolescente.

TERROR

“O estado de violência psicológica e constrangimento é tão profundo que, embora tenhamos essa situação como digna de um cenário de terror, para os adolescentes e adultos que lá vivem, aquilo parece normal, pois a maioria, senão todos, segundo suas histórias de vida, não conhece outra realidade ou tem contato com o mundo exterior, uma vez que são privados da liberdade de sair e até mesmo de assistir à televisão”, disse a policial federal e também conselheira tutelar Joseane Caldas.
As crianças e adolescentes são deixados aos cuidados de Luciene Sena pelos pais (quando têm) ou por qualquer outra pessoa, no caso de órfãos. Alguns pais dos internos visitam os filhos de 15 em 15 dias.

INVESTIGAÇÃO

A situação irregular da creche vem sendo investigada pelo Ministério Público desde 2004, segundo a promotora Jaqueline Magnavita. “Dei um prazo para ela resolver as irregularidades. Ele não foi obedecido”, disse, lamentando que a indicação do Artigo 227 da Constituição Federal, que prevê prioridade absoluta nas questões que envolvem crianças e adolescentes, não esteja sendo obedecida pela Justiça de Porto Seguro.
Na última terça-feira, dia 10, a promotora entrou mais uma vez com pedido para a retirada dos internos da creche e orfanato Melquisedeque, para que sejam encaminhados às casas dos pais ou, na ausência de familiares, levados para outras instituições de Porto Seguro.
Quatro delas já se prontificaram a recebê-los, e representantes do município assinaram termo garantindo as contrapartidas exigidas pelas instituições, informou a promotora.
O processo do Ministério Público traz provas fotográficas, relatórios sobre a inspeção de higiene na instituição de Porto Seguro, além da constatação da falta de registro no Conselho Municipal de Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA). Apesar das irregularidades, a creche funciona há 23 anos.

MANDADO

Joseane Sousa Caldas voltou ao local, na função de policial, com mandado, e constatou as irregularidades, inclusive o desvio de doações. Os policiais federais realizaram as inspeções com os conselheiros tutelares Elane Prates de Souza e Antônio Magnavita Filho.
Na última visita realizada pela PF, adolescentes da instituição cercaram a viatura e arranharam a pintura. “Eles iam queimar a viatura, mas não encontraram gasolina”, revelou a policial. Durante a visita da equipe de A TARDE à creche, Luciene Sena disse que a vistoria da PF era para procurar drogas, que não foram encontradas.
Ela afirmou que algumas doações foram desviadas antes de chegar à sua instituição e disse que as denúncias apresentadas ao MP são de pessoas interessadas em receber o que ela recebe, “que são coisas dos italianos”. Sobre a revolta dos adolescentes contra a PF e a equipe de jornalismo, Luciene disse que eram “coisas de crianças”, que não deveriam ser levadas em consideração. “Eles se revoltaram com a polícia porque disseram que iam me levar presa”, justificou.

Muitos deixam de fazer doações à instituição, revoltados com a situação

De férias em Salvador, o juiz titular da Vara da Infância e Juventude de Porto Seguro, Álvaro Marques de Freitas Filho, conversou por telefone com a reportagem de A TARDE e disse que, até o início de suas férias, não havia recebido o parecer do Ministério Público, informando também que só dará parecer final sobre o caso após analisar o relatório da promotoria e ter a garantia de um local para onde as crianças possam ser transferidas. O juiz retorna das férias no início de maio.
Para Álvaro Marques, a questão é bastante complexa, pois, além das crianças “criadas” por Luciene, na casa vivem também seus 11 filhos biológicos e outros parentes.
A Melquisedeque é mantida com doações da comunidade e, de acordo com o relatório da Polícia Federal, com a aposentadoria de um menino de 17 anos que tem síndrome de Down (a PF encontrou o jovem preso em uma sala com grades).
Um empresário, que não quis se identificar, atesta a complexidade do caso: “Faço doações de alimentos porque tenho pena das crianças, mas sei que tem muitas coisas erradas. Não é permitida a doação de bolas nem de televisores, porque a religião dela não permite. Eu queria que encontrassem uma casa melhor para colocar todas aquelas crianças, para que elas tivessem melhores oportunidades na vida”, comentou.
Um casal de italianos, que também preferiu não se identificar, disse que esteve na instituição com o intuito de formalizar uma ajuda financeira, mas desistiu.
A advogada Fernanda Salvatori afirmou que vários de seus clientes fizeram doações em dinheiro na conta de Luciene, além de roupas, freezer, cozinha industrial, material para a construção dos banheiros e brinquedos. Estes últimos foram devolvidos por Luciene, por considerá-los “coisas do demônio”. A advogada revelou que, com o tempo, seus clientes acabaram suspendendo as doações, pois constataram que elas não estavam sendo empregadas para melhorar as condições de vida das crianças.

Todos os relatórios destacam que a situação é muito grave

Tanto o relatório da Polícia Federal quanto o da psicóloga e da assistente social do Projeto Sentinela apontam total falta de condições, principalmente de higiene, para a permanência das crianças e adolescentes na instituição. Já na chegada, os policiais federais constataram que as crianças menores são mantidas num pátio interno. Lê-se no relatório: “A maioria (das crianças menores) amontoada, segurando as grades da janela, algo que remete à imagem de detentos”.
Medicamentos foram encontrados em locais de fácil acesso às crianças.
Existem apenas dois banheiros no local, um para meninas e outro para meninos, mas nenhum possui porta. Apenas um tem uma pia, sem torneira. Somente um possui vaso sanitário, porém a descarga não funciona. A instituição já recebeu três doações para a construção dos banheiros, inclusive R$ 10 mil da Vara da Infância e Juventude.
Não há local separado para a higiene de bebês, nem banheiras. Eles são lavados em bacias colocadas no chão do berçário. “Observamos que nos quartos de meninas e meninos, são alojados internos de diferentes faixas etárias, uma vez que a idade dos internos varia de 5 a 21 anos. Esse problema deve ser sanado com a máxima urgência”, disse a policial federal Joseane Caldas.
Em cômodos fechados com cadeado, foram encontrados colchões, panos e roupas sujas e mofadas.

DIFERENÇA

No quarto utilizado por Luciene e seus familiares, mantido trancado, foram encontrados objetos de valor, como guitarras e amplificadores, além de um cofre. “Apenas esse quarto dispunha de ventiladores, chuveiro elétrico e forro nas camas. Havia também alimentos, como iogurtes e bolachas recheadas, e brinquedos que não estão disponíveis para as crianças”, relata a policial.
As refeições são preparadas no quintal, num fogão a lenha, próximo a um esgoto a céu aberto, mesmo após a doação de um fogão industrial. “Havia uma panela com macarrão, que seria servido no almoço, no chão. As refeições são preparadas pelos filhos de Luciene.”
Internos ensacam carvão doado pelo Ibama, vendido por R$ 3 o saco. Há duas salas de aula com professoras pagas pelo município, mas Luciene determina conteúdo e metodologia.

PASSO A PASSO

A TARDE recebeu denúncia da escrivã da PF, Joseane Caldas, com cópia dos relatórios da PF e do Projeto Sentinela;
Procurou a promotora Jaqueline Magnavita e checou a documentação do processo sobre a creche;
Encaminhou os relatórios ao coordenador da 23ª COORPIN, Moisés Damasceno, e ao juiz Álvaro Marques;
Foi orientada a apresentar representação contra Luciene na Delegacia de Polícia Civil de Eunápolis.

Poucas brincadeiras são permitidas na entidade

A filósofa Heraldete Lima, atualmente supervisora de Educação Infantil da Secretaria de Educação, visitou a instituição e a definiu como “depósito de crianças”. “Descobri que meu pai fazia doações para lá e pedi que parasse”, lembra a filósofa. Ela diz que, durante sua visita, tentou realizar brincadeiras com as crianças, mas regras foram impostas por Luciene: as crianças não podem dançar, pular ou jogar bola.

“As crianças precisam desse tipo de atividade. Crianças que não passam por essas etapas podem apresentar problemas no desenvolvimento social, físico e psicológico”, avalia. Há dois anos, a diretora do Núcleo de Educação, Adnaci Rodrigues Lima, que atende à região do Projeto Vale Verde, onde fica a creche e orfanato, procurou Luciene para que fosse permitida a contratação de professores, pelo município, para atender as crianças da alfabetização à 4ª série. “Tínhamos muitos problemas com a documentação dessas crianças. Elas estudavam na escola mantida pela instituição, com uma professora paga por eles, mas não tinham a documentação da Secretaria da Educação”, conta.

Contratada pelo município para dar aula em uma das duas salas mantidas pela instituição, a professora Cecília Freire tem sua opinião sobre a dona da instituição: “Acho que ela precisa é de orientação”. Cecília trabalha com a professora Maria Rosa Pinheiro. Elas afirmam que não há nenhum tipo de interferência de Luciene na escola, apesar de ela ter proibido as aulas de Educação Física.

Questionadas sobre a possibilidade de essa proibição atrapalhar o desenvolvimento das crianças, as duas professoras disseram concordar que a ausência de atividades físicas prejudica o desenvolvimento psicomotor das crianças e dos adolescentes, além de excluí-los do convívio com outras pessoas de sua faixa etária.

Apesar de confirmarem a imposição de uma religião, as professoras afirmam que não presenciaram nenhum tipo de maus-tratos às crianças, que são definidas por elas como quietas, mas normais. Em relação à denúncia sobre o menino com síndrome de Down, Cecília disse que ele tem frequentado as aulas.

AMEAÇAS

O coordenador da 23ª Coordenadoria de Polícia do Interior, Moisés Damasceno, foi consultado sobre o caso. Segundo ele, as ameaças à vida das crianças, feitas por Luciene Sena, são consideradas crimes de menor potencial ofensivo. Por elas, garante Damasceno, Luciene será chamada para dar explicações, mas o caso não é de detenção da dona da creche e orfanato Melquisedeque. “Somente a Justiça pode determinar a prisão dela”, comenta.


Sorriso e alegria são artigos de luxo

O relatório assinado pela psicóloga Eliane Gandra Motta e pela assistente social Rosemara Moreira David, do Projeto Sentinela, solicitado pela Polícia Federal, depois de uma única visita à instituição, além de confirmar todos os pareceres do relatório da PF, alerta ainda para o fato da imposição de práticas religiosas. Luciene e o marido, Nedino, são pastores da Igreja Evangélica Pentecostal Ressurreição de Jesus Cristo.

Eliane e Rosemara falam também sobre o aspecto físico das crianças e adolescentes da instituição, com olhares de curiosidade e, ao mesmo tempo, de apatia alternada com agressividade. A maioria desses jovens dificilmente esboça um sorriso.

VISITA

Durante a visita de A TARDE, agendada com antecedência com Luciene, muitas das irregularidades apontadas pelos relatórios não puderam ser comprovadas. Neste dia, as crianças estavam correndo na área externa do prédio, algumas brincando no parquinho, mas foi possível constatar que, principalmente os adolescentes, estavam bastante arredios e desconfiados, tentando direcionar as áreas que podiam ser visitadas.


Depoimento

Não se pode mais fechar os olhos para os fatos
“Eu já tinha feito uma matéria sobre a creche e orfanato Melquisedeque, em janeiro de 2004, sob o título Orfanato é fruto do filho sonhado. Apesar de ter notado algumas coisas estranhas, como, por exemplo, o fato de ver crianças cuidando de crianças, acabei fazendo uma matéria positiva na época. Só depois soube de algumas denúncias contra a instituição, mas fiquei surpresa ao constatar que um grande número de pessoas, principalmente autoridades da área, sabia das irregularidades e não tomou providências.

Tornou-se cômodo para alguns membros da comunidade de Porto Seguro, para o poder público e autoridades, que deveriam salvaguardar os direitos das crianças e adolescentes, manter aqueles jovens ali, ainda que em condições insalubres e privados da liberdade. Foi a impressão que tive ao realizar as entrevistas para a elaboração da reportagem-denúncia publicada hoje em A TARDE.

Ao apurar as denúncias e ao ouvir pessoas que se importam com o futuro das crianças, despertei para o meu papel, como cidadã e ser humano. A melhor definição sobre a instituição foi da filósofa Heraldete Lima: 'Vi aquilo como um depósito de crianças'. Um depósito mantido fora da cidade, longe dos olhos de todos e que, portanto, não incomoda ninguém.”

Jornal A Tarde - 15/04/2007

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