sábado, 5 de janeiro de 2008

Freiras dão força a mães lavradoras

Trabalho social de irmãs missionárias permite que agricultores do distrito de Vera Cruz, em Eunápolis, possam trabalhar

Todas as manhãs, às 4 horas, o casal José e Marta deixa os dois filhos pequenos na casa das Irmãs da Congregação Missionárias Servas do Senhor, no distrito de Vera Cruz, em Eunápolis, antes de ir para a colheita do café. No final da tarde, após as 19 horas, o casal pega os filhos de volta.

Esse ritual é o mesmo para os pais de outras 233 crianças que frequentam a Creche Cruz de Malta, no mesmo bairro. “Eles deixam lá em casa, porque no horário em que saem para trabalhar a creche ainda não abriu e, quando voltam, já fechou”, conta a Irmã Lilia, responsável pela creche.

O trabalho social desenvolvido pelas missionárias tem proporcionado aos trabalhadores rurais a possibilidade de cumprir sua jornada nas lavouras de café, deixando os filhos aos cuidados da creche. Lá, 235 crianças recebem alimentação e praticam atividades pedagógicas e de lazer.

Tia Irmã Lilia, como a freira é chamada pelas crianças, conta que 90% das crianças atendidas na creche são filhos de trabalhadores rurais, a grande maioria envolvida na colheita de café. A creche começou a funcionar há dois anos, depois que a congregação notou a necessidade de uma instituição para atender os filhos dos trabalhadores no bairro. “A maioria dessas crianças passava o dia sozinha dentro de casa, muitas vezes sem ter o que comer”, relatou.

PIMENTA

A freira se emocionou ao narrar a história de uma família com seis crianças, que o pároco local foi visitar há dois anos e encontrou todas as crianças sozinhas em casa, a mais velha com oito anos, na época. Ao serem indagadas sobre o que haviam comido naquele dia, a menina mais velha não hesitou em abrir a porta da casa (um pequeno barraco de não mais de seis metros quadrados), apanhar uma pimenta no pé e colocá-la na boca. “A gente só come isso”, disse a menina.

Hoje, a menor tem 10 anos (com estatura de criança de três), e está sendo criada pelas freiras. Seus irmãos frequentam diariamente a creche, onde recebem alimentação, banho, educação e, principalmente, muito amor das seis religiosas e das 18 voluntárias que ajudam na instituição. “A mãe dos menores, grávida do sétimo filho, também costuma frequentar a creche no horário das refeições.”

DESNUTRIDOS

O casal e três filhos (dois foram dados em adoção) moram nas terras de uma família, mas são impedidos de colher verduras. Recebem R$ 35 por mês para cuidar da roça, mas há meses em que o pagamento vem em forma de pinga ou fardo de boi”, relata a freira. “Assim como essas crianças, a maioria dos meninos que atendemos só se alimenta e só toma banho aqui na creche. Os pais passam o dia no trabalho e não têm o que comer em casa.

Muitos pais estão trabalhando, mas, quando terminar a colheita do café, serão mais 200 desempregados”, prevê a irmã, informando que, nesses casos, os pais passam a frequentar a creche como voluntários e fazem as refeições na instituição.

A Creche Cruz de Malta foi criada com a ajuda de monsenhor Jorge Crima, por meio de um convênio com a comunidade da Ilha de Malta (no Mar Mediterrâneo), e é mantida com doações da comunidade. Além das seis Irmãs que trabalham na creche, as 18 funcionárias que atendem às crianças atuam voluntariamente.

A Tarde - 20/06/2004

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