Instituição para desnutridos, que há dez anos atende carentes em Eunápolis, está com a despensa quase vazia de alimentos
Com a despensa quase vazia, o Centro de Recuperação de Desnutridos – SOS Vida, que há dez anos trabalha na recuperação de crianças desnutridas na periferia de Eunápolis, está na iminência de reduzir drasticamente o número de atendimentos. A informação é da Irmã Teresa Biasi, fundadora da instituição, que alega que a crise decorre do atraso no repasse de verbas de um convênio com a Prefeitura de Eunápolis.
“No mês passado, recebemos metade do valor referente ao mês de setembro. Os repasses estão atrasados há dois meses e meio”, garante a irmã. Pelo convênio com o município, o centro deveria receber R$ 7.000 mensais. No entanto, as despesas mensais atuais somam R$ 14 mil, e a instituição atende 52 crianças em regime interno.
A secretária municipal de Desenvolvimento Social de Eunápolis, Maria Páscoa Pereira, informou que a prefeitura liberou verbas há um mês para a instituição. “Não conseguimos repassar o total do convênio, mas depositamos metade, cerca de R$ 3.000. Realmente estamos com atraso de alguns dias, mas não de três meses. Como outras prefeituras, estamos passando por algumas dificuldades e, dentro do possível, ajudamos a instituição”, disse Páscoa.
Ela explicou que o convênio do SOS Vida é com o município (verbas municipais) e não com o Fundo Nacional de Assistência Social, que é destinado a creches e instituições que trabalham com crianças com necessidades especiais — “não é o caso do SOS Vida, que trabalha com desnutridos”, afirmou.
Salvação – Nos dez anos de funcionamento, o SOS Vida salvou 3.200 crianças desnutridas. “Antigamente, ocorria um óbito de criança por dia; hoje, há um por ano”, garante a irmã. “Uma gota de amor também cura” é a principal filosofia do SOS Vida, fundado pela Irmã Teresinha no bairro Juca Rosa. Enfermeira aposentada, a freira conta que, quando trabalhou numa comunidade local, sentiu a necessidade de dar atenção especial às crianças desnutridas, que não tinham o tratamento adequado por falta de condições das famílias.
“Os médicos indicavam uma dieta alimentar para a criança que, às vezes, nem tinha o que comer em casa”, relata Fátima Milanezi, voluntária desde o início da instituição, dando como exemplo o caso do pequeno Fernando, que encontrou por acaso: “Notei a mulher carregando uma criança enrolada num cobertor. Senti o ‘cheiro’ da desnutrição e pedi para ver. A mãe disse que o menino tinha acabado de receber alta do hospital”. Fátima conta que o susto não foi maior ao ver o estado da criança porque já viu casos piores.
A casa onde funciona o SOS Vida foi construída há dez anos mediante um convênio com a Comunidade da Ilha de Malta, no Mar Mediterrâneo, conseguido com apoio do monsenhor Jorge Crima. Além da Creche da Irmã Teresinha, a comunidade de Malta ajuda mais 93 instituições no Brasil. A instituição conta, também, com um grupo de associados, cujas contribuições garantem o pagamento dos 25 funcionários, conforme Fátima.
Também realiza promoções, como a atual rifa de uma moto, com bilhetes a R$ 5, que estão promovendo neste fim de ano. Com a campanha “Sua Nota é um Show”, o SOS Vida conseguiu ampliar a área de lazer das crianças e construir um espaço onde funcionará um brechó e um pequeno ambulatório para atender a comunidade. A creche conta com o trabalho voluntário de uma nutricionista, quatro médicos e um dentista.
Carinho – A maioria das crianças chega ao SOS Vida desnutrida, fraca, algumas com feridas causadas pela desnutrição, barriga inchada, pernas finas, incapazes de sustentar o peso do corpo, com manchas escuras que parecem queimaduras. A pequena Ana Cláudia, de dois anos, que engatinha entre as outras crianças, quando chegou, há nove meses, estava em estado lastimável. As pernas tinham grandes manchas escuras e em carne viva.
A dedicação e o carinho são tão importantes quanto a multimistura recomendada pela nutricionista Aurelina às crianças. A pequena Elisandy, de apenas dois meses, que não pôde ser amamentada por Sandra, a mãe, vai receber cuidados especiais. Sandra vai fazer uma cirurgia e, como não tem com quem deixar a filha, não pensou duas vezes em levá-la ao centro. “Eles já cuidaram da minha outra filha, com desnutrição. Tenho toda a confiança de deixar Elisandy aqui”, disse Sandra.
A Tarde - 28/11/2003
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