sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

"Eu sou humilhado aqui na Bahia”

O artista e ambientalista que levou ao mundo sua indignação pela destruição das florestas brasileiras desistiu da Bahia. Depois de anos à espera de reconhecimento do governo do Estado para a consolidação de um museu que abrigasse o conjunto de sua obra, Frans Krajcberg se diz “humilhado pela Bahia”.

Uma semana após retornar de São Paulo, onde se tratou de uma pneumonia, ele recebeu a repórter Maria Eduarda Toralles e a fotógrafa Renata Carvalho em sua casa, no Sítio Natura, em Nova Viçosa. Falou sobre sua doença — inicialmente diagnosticada como dengue em Teixeira de Freitas —, num episódio que classifica como “um fenômeno do sul da Bahia”.

Aos 86 anos, recém-completados, Krajcberg mantém intacta a indignação que caracterizou sua vida e sua obra. Critica a passividade dos artistas e do povo brasileiro diante da barbárie socioambiental do país e do mundo. Revela a dor que sente pela indiferença oficial, apesar do orgulho com que sempre se expressou ao falar de Nova Viçosa, cidade do extremo sul do Estado que escolheu para morar há 34 anos e onde queria ver concluído o Museu Ecológico Krajcberg. O objetivo era eternizar sua obra na Bahia e promover o intercâmbio de ideias e criações artísticas.

Aclamado mundialmente como artista e ambientalista, Krajcberg tem obras disputadas pelas prefeituras de São Paulo, Curitiba (PR) e também por Paris, na França, onde foi criado o Espaço Krajcberg, no bairro Montparnasse.


A TARDE – Como foi sua trajetória na Bahia?

Frans Krajcberg – Olha, tem muita coisa para falar, mas, às vezes, estou cansado. Vocês nunca publicam o que eu falo. Eu tenho um pequeno problema com a Bahia.


AT – Qual é?

FK – Estou te dizendo: o museu parou. Não quero mais conversa. Já assinei com o governo paulista e já começaram a construir no Ibirapuera, perto da Bienal de São Paulo. Perto de uma velharia, mas tem turismo. Eu vou escolher tudo que é melhor que eu tenho e vou mandar para São Paulo. O prefeito foi maravilhoso comigo, se interessa muito. Ele foi para Paris quando fiz a grande exposição no ano passado. E vai tudo bem. Meu espaço em Curitiba é uma maravilha, muito público, local maravilhoso. O de São Paulo é ainda mais maravilhoso. E funciona. Em Paris, funciona muito bem. Aliás, recebi uma carta do prefeito de Paris. Ele gostaria de ampliar meu museu, perguntou se eu poderia enviar mais trabalhos. Me ofereci imediatamente. Eu queria ir para Paris, mas a dor não está permitindo. Preciso tratar esse assunto.


AT – Como começou a história na Bahia?

FK – Tenho uma história de 34 anos aqui. Fui o primeiro que chegou, o primeiro que construiu, o primeiro a trazer algum dinheiro. Era uma cidade maravilhosa, com poucos pescadores. Tinha calor humano. Fui o primeiro habitante, a primeira pessoa conhecida. Em todo lugar que eu ia, dizia com orgulho: “moro no sul da Bahia”. E, se hoje tem tanto movimento aqui, sem dúvida, ajudei — sem querer — a promover Nova Viçosa. Tem muita coisa para falar, mas sem controle, aqui não vai durar muito tempo. Ainda bem que tenho um lugar onde posso me isolar. Raramente fico mais de 10, 20 minutos na cidade. Vou ao correio, compro algumas frutas e volto. Estou sempre trabalhando. Exponho no mundo inteiro, saindo de Nova Viçosa. Nunca vi alguém de Salvador me cumprimentar com um “bom dia”. Nunca! Já manifestei tudo isso. Escrevi cartas que nunca foram respondidas. Então, percebi que estou em um ambiente onde sou humilhado. Parei com a construção. Faltam cinco prédios. Eu queria fazer algo mundial aqui. Um ambiente de encontros internacionais. Mas está longe da Bahia compreender isso. Porque a cultura da Bahia é, antes de tudo, Salvador. E Salvador é carnaval. Carnaval que começa em janeiro e termina em dezembro. Essa é a cultura que nos oferecem. Não sou contra o carnaval…


AT – O senhor desistiu realmente da Bahia?

FK – Posso ainda morar aqui, mas o museu, não. E me pergunto: que resposta cultural tive, morando há tantos anos aqui, sem sequer um bom dia? Apenas humilhação. Não faço mais.


AT – Isso se refere aos governantes ou à população local?

FK – Na verdade, não tenho mais contato. Antes, tinha com os pescadores. Eu mesmo pescava meu peixe. Tinha um escritório na cidade, ao lado da igreja. Recebo muita gente de fora, que vem trabalhar comigo. Nunca neguei ajuda moral. Mas em Salvador, nunca consegui nem entrar. Essa é a realidade. Depois de 34 anos, nunca tive uma visita ou pergunta sobre o que estou fazendo. Então resolvi não pensar mais nisso.


AT – O que mudou desde que o senhor chegou?

FK – O que mudou foi que permitiram fazer tudo o que quiseram. Especialmente a turma da celulose: dividiram, queimaram, destruíram, conseguiram papéis (licenças) no mesmo dia. A região ainda é segura porque o turismo aumentou muito. Destruíram toda a costa sul da Bahia, e o turismo lá está caindo. Aqui, aumentou. Queriam colocar a Petrobras aqui de novo. Eu disse: “aqui ninguém entra”.


AT – Eles chegaram a procurá-lo?

FK – Ligaram dizendo que fariam pesquisa na minha mata. Eu disse: “O quê? Já é a segunda vez. Aqui ninguém entra.” Não quero mais discutir com a Petrobras. Mas o problema não é só ela. Parece que encontraram petróleo perto de Abrolhos, por uma companhia americana. Tudo que é petróleo é deles. Aí vão atrás. Ali é área de passagem de grandes peixes. Ainda bem que o Ibama proibiu alguma coisa.


AT – O senhor acha que o Ibama não é atuante?

FK – Talvez agora, que saíram daqui. Se eu não tivesse ficado doente… Fui para Teixeira de Freitas, disseram que era dengue. No hospital da Bahia Sul (Bahia Sul Celulose), também disseram que era dengue. Fui para São Paulo, no Albert Einstein. Lá, fizeram exames e um grande médico perguntou quem tinha diagnosticado dengue. Eu disse: “dois médicos”. Ele disse: “mande eles voltarem para a escola de medicina”. Não era dengue, mas uma infecção muito grave. Micróbios nas costas, uma mancha preta, que me causava muita dor. Fiquei quase paralítico. Isso é só uma pequena história… um fenômeno do sul da Bahia.


AT – E sua relação com o meio ambiente?

FK – A mesma de sempre. Aqui perto do rio ainda havia mata. Invadiram, depredaram. Todo ano queimam. Recebem licenças por 50, 100 reais. Ibama nada fez, o governo muito menos. Estão loteando tudo. Até na minha mata, antes de eu ir ao hospital, houve uma queimada. Queimaram muito. Salvei os prédios do museu. Passei a noite lutando contra o fogo. Se o fogo passasse, tudo ia embora. Essa floresta aqui, fui eu quem replantei. Árvores com 15, 20 anos. Mas já não tenho mais confiança. Não farei mais esforços neste Estado.


AT – Há convites de outros lugares?

FK – Tenho um convite para criar um grande espaço na Holanda. Paris é um sucesso absoluto. O que eu não quero é que se fale só de arte, arte, arte.


AT – Por quê?

FK – A grande discussão é a natureza, é o planeta. E, em todo lugar, esse debate está crescendo. Lancei um grande movimento contra a soja transgênica, principalmente a que vem da Amazônia. Em Davos, no ano passado, grandes industriais disseram que não comprariam soja transgênica vinda da Amazônia. Em 2004, Lula disse na TV: “Entrou no país, de contrabando, soja transgênica. Para não perder, vou deixar plantar só este ano”. No lugar de prender o contrabandista, liberou o plantio. Em 2005, ele oficializou o plantio em todo o país. Onde estamos?


AT – E a situação mundial?

FK – Em Moscou, Estocolmo, quase no mundo inteiro, a consciência está crescendo. O planeta está sofrendo demais. Os desastres são cada vez mais violentos. Somos muito passivos. Deixamos o século 20 ser o mais bárbaro que a humanidade conheceu. Todo mundo ficou passivo até o fim da guerra. Arte? Quem denunciou essa barbárie? A maioria dos artistas estava presa ao mercado. O único que denunciou foi Picasso, com “Guernica”. Veja a passividade diante de tudo que acontece agora. Somos um país rico, e a miséria dá vontade de chorar. Estive há dois anos na Amazônia, em Porto Velho. Vi famílias indígenas afastadas de suas terras, pedindo esmolas nas ruas. Não aguentEu não agüento isso. Não dá para acreditar que o povo brasileiro é tão passivo. Não quer saber do que está acontecendo nesse país.... É isso que eu podia te falar... e chega.

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