sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Marisqueiros estão passando fome

Cerca de 450 famílias que sobrevivem da atividade estão sem ter o que comer depois da doença que atingiu o caranguejo-uçá

Todas as manhãs, a marisqueira Nilma Conceição dos Santos, viúva de 51 anos, sai para o mangue, de onde, há mais de 35 anos, tira o sustento da família. Mas, este ano, devido à mortandade que atingiu o caranguejo-uçá — principal produto comercializado pelos marisqueiros da região — Nilma e as 450 famílias ribeirinhas que sobrevivem da atividade nos 11 mil hectares de manguezal do município de Caravelas, no extremo sul do Estado, estão passando dificuldades para conseguir alimento.

“Nunca existiu fome em Caravelas como agora”, diz Ulisses Scolfield, coordenador do Centro de Pesquisas e Gestão Pesqueira do Litoral Norte (Cepene/Ibama). O local, assim como outras regiões litorâneas do Estado, foi atingido pela misteriosa mortandade do caranguejo-uçá, que se iniciou no Rio Grande do Norte, vem afetando todo o litoral norte do país e já chegou até os manguezais do Espírito Santo, segundo informações do Ibama.

Os marisqueiros, como Nilma, moram à beira dos rios, no meio da mata nativa, em casas de barro, sem água potável e saneamento básico. É do mangue que vem o sustento das famílias e o alimento básico que compõe a mesa diariamente. “Ultimamente, estou tirando somente para comer”, contou a marisqueira Nilma, que trabalha junto com os dois filhos no sustento da casa.

Em outra casa ribeirinha, a situação é a mesma. Joana Marcelino Liro, 46 anos, seis filhos, também sobrevive há mais de 20 anos do manguezal e diz que, ultimamente, não está conseguindo retirar nem para o consumo próprio. “É o marisqueiro que gera renda para a cidade, e ele está esquecido. Até o comércio está sendo prejudicado”, avaliou Selmo Santana Serafim, 34 anos, presidente da Associação de Marisqueiros de Ponta de Areia e Caravelas (Ampac), inaugurada há um mês.

Serafim conta que foi criado no manguezal, onde começou a trabalhar quando tinha 10 anos, acompanhando a mãe, Maria Marcelino Santana, de 56. “Antigamente, a gente tirava até dez mil caranguejos por dia. Hoje, não tira nem 200”, relatou Serafim.

Segundo ele, a situação é crítica. “Capturei 30 caranguejos para análise. Quando fui tirá-los do saco, já estavam todos mortos. Eles ficam lentos, tontos e, depois de mortos, apresentam uma gordura amarela”, disse.


ASSOCIATIVISMO

Preocupado com a sobrevivência das famílias ribeirinhas, não só neste período de mortandade, mas também durante as épocas de defeso — quando a captura é proibida por lei — um grupo de marisqueiros criou a Ampac, que já conta com 200 associados. O objetivo é conseguir o seguro-desemprego. Com a associação, o grupo pretende ainda se livrar dos atravessadores na comercialização do crustáceo.

“Não parávamos de coletar na época da andada (período de reprodução do caranguejo), porque não tínhamos outra alternativa”, explicou o presidente da associação, sobre a necessidade do seguro.


FUNGO É O CAUSADOR DA DOENÇA

Uma pesquisa, ainda não conclusiva, segundo Cleide Guirro, do Ibama, realizada pelo Grupo Integrado de Aquicultura e Estudos Ambientais (GIA), da Universidade Federal do Paraná (UFPR), define a mortandade como doença do caranguejo letárgico (DCL), e apontou um fungo do filo Ascomycota, subfilo Pezizomycotina, como sendo o agente causador.

As análises mostraram que os caranguejos atingidos pela DCL apresentavam grande quantidade de organismos em seus tecidos, especialmente no coração e nos gânglios nervosos. No entanto, os pesquisadores alertam que ainda são necessários estudos mais aprofundados para confirmação das causas da mortandade nos manguezais.


COMUNIDADE DISTANTE DA CIDADANIA

Voltado para o estudo de crustáceos e moluscos com valor econômico explorados pelas comunidades ribeirinhas, o Projeto Manguezal foi implantado no município em 2002. A cidadania das comunidades ribeirinhas — que registra um índice de 62,7% de analfabetismo entre os adultos, segundo dados do projeto — tem sido um dos principais pontos trabalhados pelos técnicos do programa.

Eles repassam informações sobre legislação ambiental, uso sustentável dos recursos naturais, agregação de valores econômicos e associativismo. “Trabalhamos ainda com as crianças nas três escolas ribeirinhas. Existiam crianças com 9 anos que nunca haviam escovado os dentes. O primeiro passo foi consolidar a criação da associação com a construção da sede, porque as coisas, para eles, têm que ter um resultado imediato”, afirma Scolfield.

Em setembro deste ano, com o apoio do Projeto Manguezal e da Aracruz Celulose, os marisqueiros concluíram a construção da sede da Ampac, no distrito de Ponta de Areia. No local irá funcionar uma fábrica de gelo, que dará sustentabilidade financeira ao grupo, mas a meta principal é construir uma câmara frigorífica para armazenar o pescado e não depender mais dos atravessadores.

Por enquanto, só o fato de terem uma sede e poderem retirar documentos profissionais já é comemorado como uma grande vitória pelo grupo. “A maioria dos marisqueiros só tem título eleitoral, porque é só com isso que os políticos se preocupavam quando vinham nos visitar”, concluiu Serafim.

Outra meta do Projeto Manguezal é transformar a área de mangue em uma Reserva Extrativista Marinha (Resex), como a que já existe há cinco anos em Corumbau. “Apoiamos o associativismo como forma de vencerem a exploração dos atravessadores e da caderneta”, disse Scolfield, que também integra o projeto.

Ele explica que muitos marisqueiros contraíam dívidas anotadas em estabelecimentos comerciais, tornando-se reféns dos atravessadores, tendo que entregar os caranguejos por preços impostos pelos comerciantes.


LEGISLAÇÃO

  • A captura do caranguejo só pode ser feita por pescadores;

  • O crustáceo não pode ser apanhado com menos de seis centímetros de largura da carapaça;

  • É proibido o uso de gás, redes ou o método de sufocamento, que captura caranguejos de todos os tamanhos;

  • A captura deve ser feita apenas pelo método de braceamento, com o auxílio de gancho ou cambito com proteção na extremidade;

  • Na Bahia, ainda não existe um período oficial de defeso, mas está proibida a captura nos dias de andada — período de reprodução, quando os caranguejos saem dos buracos. No extremo sul, os dias de andada ocorrem entre dezembro e fevereiro, variando conforme a maré.


A Tarde 10/10/2005

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