
— “Não. Presta atenção. Você tem que pegar emprestado daqui, portanto, não é mais seis, agora é cinco. E cinco menos três fica quanto? Se você tira cinco de cinco, resta o quê?” — se esforça pacientemente dona Rosidete, para que a amiga também consiga completar com êxito a tarefa.
Alunas da 4ª série noturna da Escola Municipal Othoniel Ferreira dos Santos, a história de vida de dona Luzia e de dona Rosidete é semelhante à da maioria dos 300 alunos do Projeto Itagimirim Educar. Elas não tiveram a oportunidade de frequentar uma escola antes, porque precisavam trabalhar na roça para ajudar no sustento da família.
— “Não estudei porque tinha que trabalhar na roça. Naquela época, o estudo não era valorizado. Meu pai era muito carrasco. Para ele, a caneta era a enxada” — conta Edinalva Ferreira Lima, de 50 anos, que hoje estuda em uma das turmas da 4ª série do projeto, junto com a filha Maria D’Ajuda Ferreira Silva, de 20 anos.
Elas frequentam uma das salas da Escola Municipal Adilson Guimarães. Ao todo, o projeto tem 11 turmas, entre a 1ª e a 4ª série do Ensino Fundamental. As aulas acontecem de segunda a sexta-feira, das 19 às 21 horas.
Analfabetismo
Criado há três anos, o Itagimirim Educar oferece ensino a idosos e adultos, com o objetivo de reduzir o número de analfabetos do município, que fica a 600 km de Salvador. De acordo com dados do censo realizado em 1986, existiam 3.308 analfabetos em Itagimirim.
— “Nestes três anos de projeto, já alfabetizamos mais de mil” — comemora a coordenadora do projeto, Selma Rodrigues da Rosa dos Santos.
Mantido pela prefeitura municipal, o projeto oferece, além das aulas, material didático, uniforme e merenda. Este ano, foram oferecidos também 250 exames de visão, e 130 alunos foram beneficiados com óculos.
Apesar das justificativas semelhantes para não terem estudado na infância, cada um dos 300 estudantes do Itagimirim Educar tem sua própria história de vida — histórias ricas, com exemplos de persistência, sofrimento, luta e boa vontade e, por que não, histórias com final feliz.
Realidades que merecem ser ouvidas e que têm servido como base para o aprendizado em sala de aula.
— “Procuro trazer a realidade de cada um deles para a sala. Eles contam suas histórias e nós aproveitamos cada uma. Adoro trabalhar com idosos. O aprendizado é mais lento, mas é muito gratificante” — conta a professora Edna Pereira dos Santos, que desde 1996 trabalha com educação de idosos.
A alegria de aprender
Histórias como a da brincalhona Madalena Dorotéia Pessoa, de 73 anos, que assiste às aulas na companhia do neto, Mateus, e sempre recebe um “puxão de orelha” da professora (a quem considera sua segunda mãe) para parar com a algazarra.
Desconfiada, dona Madalena primeiro procura se certificar sobre o que será abordado na reportagem e, só depois de ter o aval da vice-diretora e amiga, Sandra Maria Neves, faz questão de contar sua história de amor pelas letras.
— “Sempre gostei de escrever. Eu já escrevia mesmo antes de saber ler. Como não aguentava ficar nas aulas por causa do cansaço depois de um dia de trabalho, pedia para os meninos, como meu neto, me ensinarem pelo menos as letras do meu nome” — conta alegremente dona Madalena, antes de voltar a ler o livro que está em suas mãos.
Com orgulho, a amiga Sandra completa sua história ao revelar que, depois que dona Madalena aprendeu a identificar as primeiras letras, há cerca de três meses, sua maior diversão passou a ser ler à noite para, no dia seguinte, relatar em sala de aula as aventuras que descobriu nos livros didáticos.
Com dona Joelita, a vida imita os contos de fadas
Aluna da 1ª série, dona Joelita Lima da Silva, de 49 anos, tem uma história de vida que se assemelha ao conto de fadas Cinderela, com direito a madrasta, príncipe encantado e final feliz.
Órfã de mãe desde os dois anos, dona Joelita foi entregue pelo pai para adoção. Na nova família, além do afeto do pai adotivo, sofreu maus-tratos da “madrasta” e das duas filhas dela.
— “Elas judiavam de mim, chegaram a me queimar com ferro. Eu tinha que fazer o meu trabalho e o delas, senão apanhava” — conta.
Com quinze anos, cansada de ser maltratada, dona Joelita encontrou um marido (ou, como prefere dizer, seu príncipe encantado):
— “Casei-me e fomos cuidar um do outro. Trabalhamos juntos e criamos nossos filhos. E agora ele quis que eu estudasse” — relata.
Ainda trabalhando na roça para sustentar a família (o casal tem duas filhas formadas em Pedagogia e uma cursando a 1ª série do Ensino Médio), seu Sinval da Silva, de 56 anos, marido de dona Joelita, se orgulha em ver a esposa escrevendo:
— “Ele chega da roça e diz: 'minha velha, você já está colocando as letras no papel. Ainda vou te ver formada'” — conta, feliz, a “Cinderela” da vida real.
Aprender ao menos a colocar as letras no papel, formar o próprio nome ou identificar o preço dos produtos no mercado é o sonho da grande maioria dos alunos do Itagimirim Educar. Mas alguns, como dona Joelita e sua colega de sala, Nair José da Costa, de 44 anos, sonham em ir mais longe — quem sabe, concluir o ensino superior.
— “Se puder, vou me formar. Acho que o máximo que conseguiria é ser professora, mas eu queria mesmo era fazer Direito, para ter uma vida melhor. A vida de professora, no nosso país, é tão sofrida” — conclui dona Joelita.
A Tarde - 03/03/2007
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