sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Fornos da destruição


Na região de Canta Galo, no município de Belmonte, a queima ilegal da mata nativa abre caminhos para a desertificação de grandes áreas no extremo sul


Na semana passada, 35 fornos de produção de carvão foram destruídos por fiscais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), na região de Canta Galo, no município de Belmonte, no extremo sul do Estado. De acordo com os fiscais, os fornos operavam de maneira ilegal e foram descobertos durante um sobrevoo de monitoramento na região. O carvão produzido ali é vendido a indústrias siderúrgicas do Espírito Santo.

A utilização de mata nativa para a produção de carvão é proibida por lei, mas, no mês passado, em parceria com a Polícia Rodoviária Federal, o Ibama apreendeu seis caminhões com cargas produzidas com madeira extraída da região. Segundo o órgão, muitas áreas de Canta Galo estão nas mãos de posseiros, e já foram identificadas, em Eunápolis, oito empresas produtoras de carvão que, comprovado o envolvimento na produção ilegal, serão autuadas.

O preço do metro cúbico de carvão varia entre R$ 100 e R$ 120, mas nas carvoarias espalhadas pela mata, o valor de compra fica entre R$ 20 e R$ 40 — o que representa um lucro de mais de 120% para os negociantes. Para a produção de um metro cúbico de carvão, são necessários três metros cúbicos de madeira. De acordo com dados do Ibama, três cargas de carvão — em um caminhão com capacidade para 50 m³ — resultam no desmatamento de um hectare de mata.

Este ano, fiscais do Ibama detiveram 20 caminhões com cargas ilegais de carvão, o que representa a destruição de aproximadamente seis hectares de mata nativa. O gerente regional do Ibama, José Augusto Tosato, calcula que uma única siderúrgica demande mais de uma centena de caminhões de carvão por mês, o que equivale à destruição de cerca de 33 hectares de mata. Ele alerta que, se o desmatamento continuar nesse ritmo, em menos de três anos a mata da região estará completamente destruída, com riscos de pré-desertificação.

O solo da região de Canta Galo é muito pobre; grande parte da área é de muçununga (solo fofo, raso, muito ácido, com pouca matéria orgânica e com infiltração de água deficiente). Muçununga é um ecossistema da Mata Atlântica rico em biodiversidade. “São encontradas diversas espécies endêmicas da fauna e da flora. Por isso, essa região está incluída numa Área de Especial Proteção (Aspe), conforme decreto do Ministério do Meio Ambiente (MMA), de dezembro de 2002”, explicou o gerente do Ibama.

Exploração – Outra irregularidade descoberta pelos fiscais do Ibama são as condições subumanas em que são mantidos os trabalhadores das carvoarias clandestinas. Há 30 dias trabalhando e morando na região, o carvoeiro Antônio Carlos informou que iria receber R$ 180 por mês, sem direito a mais nada — nem carteira assinada. Ele e a esposa vivem em um pequeno barraco, sem luz elétrica e sem água. A alimentação, enquanto não chega o pagamento, é obtida com pesca e uma pequena plantação de aipim.

Antônio Carlos contou que trabalhava no plantio de cacau, mas com a quebra da produção cacaueira acabou desempregado. Chegou a trabalhar por conta própria, mas, por falta de alternativas e para sustentar a família, acabou aceitando o trabalho na carvoaria.

Em outra carvoaria, também clandestina, na mesma região, quatro trabalhadores — que não se identificaram — disseram que recebem entre R$ 8 e R$ 10 por dia, também sem registro em carteira. Eles afirmaram estar há 14 dias no local e que, até o momento, receberam apenas uma cesta básica como pagamento. Contaram ainda que não conhecem o proprietário do local, pois foram contratados por um intermediário na periferia de Eunápolis.

No ano passado, o Ibama conseguiu a aprovação de um programa de educação ambiental para a área de Canta Galo. O projeto deverá começar a ser desenvolvido no primeiro semestre deste ano. Os fiscais do órgão federal pretendem firmar parcerias com a Secretaria de Meio Ambiente de Belmonte, o Banco do Nordeste, o Sindicato dos Trabalhadores Rurais, a Ceplac e as associações de posseiros para garantir o êxito no desenvolvimento do projeto.

Segundo o gerente do Ibama, o primeiro passo será diagnosticar os principais problemas da região e selecionar alternativas socioeconômicas para as comunidades que lá vivem. Como o solo da região é muito pobre, a manutenção da mata nativa é essencial para preservar sua fertilidade. Por isso, uma das alternativas apontadas por Tosato é a associação entre a preservação da floresta e a agricultura sustentável.


A Tarde - 07/03/2005

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