quinta-feira, 29 de abril de 2021

“Hoje, a definição ‘novo estilo de vida’ tem sentido para mim”

 

Onde eu possa ser eu, ao amanhecer e ao entardecer, é um vasto mundo pouco maior que 200 passos. Neste curto espaço, literalmente medido em passos, há seis casas, a maioria ao lado direito da rua, no sentido centro da cidade de Eunápolis. No lado esquerdo, são apenas duas e uma grande área verde — um pequeno remanescente de Mata Atlântica, onde, todos os dias, descubro um mundo à parte.

Casal de falcão-de-coleira (foto: Eduarda Toralles) 

Hoje, ao abrir a janela, meu olhar se direcionou, como sempre, à “minha” árvore”. Embora já sem vida, ela sempre me reserva alguma surpresa. E, mais uma vez, não me decepcionou. Lá estava um casal de falcão-de-coleira se alimentando. A presa, aparentemente um sabiá-laranjeira, estava sendo depenada. A cena rendeu algumas fotos.


(Foto: Eduarda Toralles)

Na “minha” árvore, além do falcão-de-coleira — que já havia flagrado em outro momento com um filhote — também fui apresentada a um carcará, um gavião-carijó e um carrapateiro. Além disso, em todos os entardeceres, ela acolhe um bando de periquitos-rei que ali descansam antes de seguir até a árvore que os abrigará durante a noite.


Anu-branco (Foto: Eduarda Toralles) 

Outro dia, estava caminhando por “Onde eu possa ser eu” — assim intitulei a rua onde moro — e uma vizinha me chamou, afoita: “Desce ali, tem um bando de passarinhos fazendo a maior algazarra!”. Nem precisei descer, de longe registrei uma turma de anus-brancos se alimentando. No mesmo local, já flagrei sabiás-laranjeira garantindo a refeição do dia — cenas que renderam fotos muito fofas — e aracuãs-de-barriga-branca entre os galhos das árvores. Esta semana, ouvi uns gritinhos diferentes e, lá no mesmo cantinho, estavam dois saguis se alimentando no coqueiro.


Suiriris (Foto: Eduarda Toralles) 

PRIMEIRO REGISTRO – O registro de dois suiriris brigando no ar foi o primeiro que fiz ao descer, pela primeira vez, com a máquina fotográfica. Foi meio no susto, mas a foto ficou bem legal. Nesse mesmo dia, registrei um lindo lavadeira-mascarada — que mais tarde soube ser também conhecida como lavadeira-de-Deus (nome que adotei desde então) — entre as folhas de uma das árvores no final da "minha" rua. Nos galhos dessa árvore, já fui surpreendida por uma fêmea de choca-listrada, por um beija-flor-tesoura e tantas outras aves, dentre elas os pardais, que fazem uma algazarra o dia todo.


gavião-urubu (Foto: Eduarda Toralles) 

DEZ PASSOS – Dia desses, estava caminhando pelo "meu" espaço quando notei uma grande ave preta em uma das árvores da curva, antes da descida para o vale. Comecei a fazer o registro de longe, para garantir alguma imagem caso ela voasse. Tenho uma mania: faço a foto e tento me aproximar mais. A cada dez passos (por que dez? Não sei. Coisa de doido talvez... rs), paro e faço outro registro. Fiz algumas fotos, e a ave voou. Continuei me aproximando e lá estava ela — um lindo e majestoso gavião-urubu, pousado em outra árvore. Fiz vários cliques antes de ele levantar voo e ficar, lentamente, sobrevoando a área — o que me garantiu mais algumas lindas fotos.
Nessa árvore, no final da rua, já registrei também um gavião-carijó e um alma-de-gato.


Corruíra (Foto: Eduarda Toralles) 

OS PRIMEIROS E OS MAIS ATENTADOS – Eles são minhas companhias diárias. Todas as manhãs e finais de tarde, lá estão eles: os pequenos corruíras. Lembro que fiquei encantada quando fotografei um pela primeira vez. Ele estava sobre o muro próximo à área de mata. Tirei várias fotos. Com certeza, até agora, foram eles que me renderam mais cliques. Tenho fotos lindas deles no meio do mato, em galhos caídos, no chão, sobre postes, e um lindo registro de um deles carregando uma pena branca no bico. Estão por toda parte — parece que anunciam a minha chegada. Apelidei-os de "atentados", porque dão pulinhos e mudam rapidamente de local. Canso de vê-los escalando, com pequenos saltos, os postes.

Tiziu (Foto: Eduarda Toralles)

Certo dia, estava próxima à árvore onde sempre vejo corruíras, quando uma pequena ave chamou minha atenção. Pensei que fosse mais um "atentado", pois era tão pequena quanto eles e estava sobre um galho caído ao chão. Fiz a foto e, ao baixar os arquivos no computador, fui surpreendida por um lindo passarinho em tons de azul-marinho. Logo descobri que se tratava de um jovem tiziu.


DÓ-RÉ-MI – Bem cedo, outro dia, vi um bando revoando sobre a área de mata. Nunca os havia notado por ali. Segui-os com o olhar e vi que pousaram no topo de uma árvore à margem da mata. Aproximei-me o máximo possível e consegui fazer o registro: eram garibaldis, também conhecidos como dó-ré-mi. Lindos pássaros pretos com a parte da cabeça em tom bordô. Depois desse dia, fotografei mais uma vez um casal da mesma espécie.

Assum-preto (Foto: Eduarda Toralles) 

“NÃO VENDO A LUZ, AI, CANTA DE DOR” – É o canto do pássaro livre que nos encanta. Estava caminhando quando ouvi uma linda vocalização. Comecei a olhar ao redor à procura do dono daquela bela “voz”. E ali estava ele, no topo de um poste de energia: uma bela ave preta — a graúna, ou, dentre outros nomes, o assum-preto. A espécie inspirou a música Assum-preto, de Luiz Gonzaga. Segundo a plataforma WikiAves:

“A música relata um ato cruel entre gaioleiros, principalmente do Nordeste, que furavam (em algumas regiões ainda o fazem) os olhos do graúna, pensando que assim ele cantaria mais na gaiola. Esse procedimento bizarro também é feito com o sabiá.”

Ah, os idiotas dos gaioleiros! Juro que não entendo qual é o prazer em manter passarinhos presos em uma minúscula gaiola e sair para “passear” com eles presos todas as manhãs. Aqui, na "minha" área, ainda existem muitos criadores de aves. Um deles vinha todas as manhãs trazer “seu” passarinho para tomar sol — me disse uma vez. Juro que pensei em responder, mas como sempre saio sozinha e fotografo em frente à minha casa, resolvi não comprar briga.
Certa vez, esse rapaz me alertou sobre alguns gaviões na “minha" árvore. Fiquei feliz. Será que ele está começando a gostar de observar pássaros em vida livre? Doce ilusão. Logo depois do aviso, ele revelou ter medo do gavião, “pois algumas dessas aves são capazes de destruir a gaiola”. Para mim, bem pior que o gavião, que caça para se alimentar, é ele — o gaioleiro, que aprisiona pássaros.

ALÉM DO “ONDE EU POSSA SER EU” – Nas poucas vezes em que me arrisquei a sair além do “meu espaço”, além dos 200 passos, consegui registrar dois pica-paus-brancos e um casal de canários-da-terra.

Esse meu momento diário, que começou há pouco mais de dois meses, me rendeu, nos primeiros 30 dias, o registro de 23 espécies de aves. Além das já citadas, fotografei um beija-flor-cinza (muito fofo, por sinal), sanhaçu-do-coqueiro, pica-pau-verde-barrado, corrupião, urubu-de-cabeça-vermelha, bentevizinho-de-penacho-vermelho, balança-rabo-de-bico-torto, rolinha-roxa, cambacica, pomba-asa-branca, tuim, saí-azul, bem-te-vi, casaca-de-couro-amarelo, sabiá-do-campo, sanhaçu-cinzento, pica-pau-branco e cardeal-do-nordeste (meu pai amava esse pássaro).

Periquito-rei (Foto: Eduarda Toralles) 

O MEU MOMENTO – Com certeza, eu teria uma história para contar de cada um dos registros que fiz. Lembro-me de todos. Nestes agora quase 60 dias desde que comecei, oficialmente, a observar diariamente as aves da “minha” área, tenho aprendido muito sobre a dinâmica de cada uma das espécies. Já reconheço algumas pela vocalização, outras pela silhueta, pela forma de voar. Mas, além desse conhecimento, a observação de aves me trouxe paz. Ajudou-me a controlar a ansiedade — para passarinhar é preciso ter muita paciência, saber observar, apurar os sentidos e aguardar o tempo deles.

Digo à minha filha e aos meus amigos que fazer esses registros diários é o meu momento com Deus. Todos os finais de tarde são meu momento de agradecimento, de avaliar o meu dia, me acalmar para a noite e de enxergar um mundo além da correria cotidiana.

Pela manhã, o passarinhar me dá disposição para enfrentar o dia. O problema é decidir qual será o último clique. Assim como uma criança que pede para brincar “só mais um pouquinho”, eu sempre digo que vou tirar só mais uma foto antes de subir para começar a trabalhar.

Foto: Eduarda Toralles

É ENCANTADOR – Hoje pela manhã, quando flagrei o casal de gavião-de-coleira se alimentando, compreendi a quão rica e encantadora é a vida.

E não são só pássaros que eu fotografo. Os pores do sol foram os primeiros a chamar minha atenção para a beleza do mundo que eu tinha bem à minha frente. Depois vieram as aves, os saguis, as plantas, as borboletas... Todos eles me levaram a um convívio enriquecedor com meus vizinhos. Juntos, estamos sobrevivendo à pandemia.

 

Confira outros registros no instagram @ondeeupossasereu  ou na minha página no Wikiaves  

8 comentários:

Blog disse...

Duda, que texto belíssimo! Que relato e que momento lindo em tua bida!

Unknown disse...

Que lindo!!! Texto maravilhoso.

MAG disse...

Texto lindo e as fotos difícl escolher qual a melhor.
Muito orgulho de você. Bjs

Unknown disse...

Que menina talentosa!!! Parabéns minha jornalista! Grande abraço.

Unknown disse...

Parabéns, Duda! Lindos registros! Muitos bons motivos pra se inspirar! Que natureza perfeita te rodeia! Belo texto! 👏👏👏

Unknown disse...

Duda, que coisa linda! Tens um privilégio: essa natureza perfeita!!

Unknown disse...

Parabéns pelo belo projeto, Duda!

academiabarreirensedeletras disse...

Muito bom passarinhar contigo.
Parabéns pelos registros.
Gosto desta interação.
Forte abraço 'baiucha', como nos chamam aqui no velho Oeste.

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