Onde eu possa ser eu, ao amanhecer e ao entardecer, é
um vasto mundo pouco maior que 200 passos. Neste curto espaço, literalmente
medido em passos, há seis casas, a maioria ao lado direito da rua, no sentido
centro da cidade de Eunápolis. No lado esquerdo, são apenas duas e uma grande
área verde — um pequeno remanescente de Mata Atlântica, onde, todos os dias,
descubro um mundo à parte.
| Casal de falcão-de-coleira (foto: Eduarda Toralles) |
Hoje, ao abrir
a janela, meu olhar se direcionou, como sempre, à “minha” árvore”. Embora já
sem vida, ela sempre me reserva alguma surpresa. E, mais uma vez, não me
decepcionou. Lá estava um casal de falcão-de-coleira se alimentando. A presa,
aparentemente um sabiá-laranjeira, estava sendo depenada. A cena rendeu algumas
fotos.
| (Foto: Eduarda Toralles) |
Na “minha”
árvore, além do falcão-de-coleira — que já havia flagrado em outro momento com
um filhote — também fui apresentada a um carcará, um gavião-carijó e um
carrapateiro. Além disso, em todos os entardeceres, ela acolhe um bando de
periquitos-rei que ali descansam antes de seguir até a árvore que os abrigará
durante a noite.
| Anu-branco (Foto: Eduarda Toralles) |
Outro dia,
estava caminhando por “Onde eu possa ser eu” — assim intitulei a rua onde moro
— e uma vizinha me chamou, afoita: “Desce ali, tem um bando de passarinhos
fazendo a maior algazarra!”. Nem precisei descer, de longe registrei uma turma
de anus-brancos se alimentando. No mesmo local, já flagrei sabiás-laranjeira
garantindo a refeição do dia — cenas que renderam fotos muito fofas — e
aracuãs-de-barriga-branca entre os galhos das árvores. Esta semana, ouvi uns
gritinhos diferentes e, lá no mesmo cantinho, estavam dois saguis se
alimentando no coqueiro.
| Suiriris (Foto: Eduarda Toralles) |
PRIMEIRO
REGISTRO – O registro
de dois suiriris brigando no ar foi o primeiro que fiz ao descer, pela primeira
vez, com a máquina fotográfica. Foi meio no susto, mas a foto ficou bem legal.
Nesse mesmo dia, registrei um lindo lavadeira-mascarada — que mais tarde soube
ser também conhecida como lavadeira-de-Deus (nome que adotei desde então) —
entre as folhas de uma das árvores no final da "minha" rua. Nos
galhos dessa árvore, já fui surpreendida por uma fêmea de choca-listrada, por
um beija-flor-tesoura e tantas outras aves, dentre elas os pardais, que fazem
uma algazarra o dia todo.
| gavião-urubu (Foto: Eduarda Toralles) |
DEZ PASSOS – Dia desses, estava caminhando pelo
"meu" espaço quando notei uma grande ave preta em uma das árvores da
curva, antes da descida para o vale. Comecei a fazer o registro de longe, para
garantir alguma imagem caso ela voasse. Tenho uma mania: faço a foto e tento me
aproximar mais. A cada dez passos (por que dez? Não sei. Coisa de doido
talvez... rs), paro e faço outro registro. Fiz algumas fotos, e a ave voou.
Continuei me aproximando e lá estava ela — um lindo e majestoso gavião-urubu,
pousado em outra árvore. Fiz vários cliques antes de ele levantar voo e ficar,
lentamente, sobrevoando a área — o que me garantiu mais algumas lindas fotos.
Nessa árvore, no final da rua, já registrei também um gavião-carijó e um
alma-de-gato.
| Corruíra (Foto: Eduarda Toralles) |
OS PRIMEIROS
E OS MAIS ATENTADOS –
Eles são minhas companhias diárias. Todas as manhãs e finais de tarde, lá estão
eles: os pequenos corruíras. Lembro que fiquei encantada quando fotografei um
pela primeira vez. Ele estava sobre o muro próximo à área de mata. Tirei várias
fotos. Com certeza, até agora, foram eles que me renderam mais cliques. Tenho
fotos lindas deles no meio do mato, em galhos caídos, no chão, sobre postes, e
um lindo registro de um deles carregando uma pena branca no bico. Estão por
toda parte — parece que anunciam a minha chegada. Apelidei-os de
"atentados", porque dão pulinhos e mudam rapidamente de local. Canso
de vê-los escalando, com pequenos saltos, os postes.
| Tiziu (Foto: Eduarda Toralles) |
Certo dia,
estava próxima à árvore onde sempre vejo corruíras, quando uma pequena ave
chamou minha atenção. Pensei que fosse mais um "atentado", pois era
tão pequena quanto eles e estava sobre um galho caído ao chão. Fiz a foto e, ao
baixar os arquivos no computador, fui surpreendida por um lindo passarinho em
tons de azul-marinho. Logo descobri que se tratava de um jovem tiziu.
DÓ-RÉ-MI – Bem cedo, outro dia, vi um bando
revoando sobre a área de mata. Nunca os havia notado por ali. Segui-os com o
olhar e vi que pousaram no topo de uma árvore à margem da mata. Aproximei-me o
máximo possível e consegui fazer o registro: eram garibaldis, também conhecidos
como dó-ré-mi. Lindos pássaros pretos com a parte da cabeça em tom bordô.
Depois desse dia, fotografei mais uma vez um casal da mesma espécie.
| Assum-preto (Foto: Eduarda Toralles) |
“NÃO VENDO A
LUZ, AI, CANTA DE DOR” –
É o canto do pássaro livre que nos encanta. Estava caminhando quando ouvi uma
linda vocalização. Comecei a olhar ao redor à procura do dono daquela bela
“voz”. E ali estava ele, no topo de um poste de energia: uma bela ave preta — a
graúna, ou, dentre outros nomes, o assum-preto. A espécie inspirou a música Assum-preto,
de Luiz Gonzaga. Segundo a plataforma WikiAves:
“A música
relata um ato cruel entre gaioleiros, principalmente do Nordeste, que furavam
(em algumas regiões ainda o fazem) os olhos do graúna, pensando que assim ele
cantaria mais na gaiola. Esse procedimento bizarro também é feito com o sabiá.”
Ah, os idiotas
dos gaioleiros! Juro que não entendo qual é o prazer em manter passarinhos
presos em uma minúscula gaiola e sair para “passear” com eles presos todas as
manhãs. Aqui, na "minha" área, ainda existem muitos criadores de
aves. Um deles vinha todas as manhãs trazer “seu” passarinho para tomar sol —
me disse uma vez. Juro que pensei em responder, mas como sempre saio sozinha e
fotografo em frente à minha casa, resolvi não comprar briga.
Certa vez, esse rapaz me alertou sobre alguns gaviões na “minha" árvore.
Fiquei feliz. Será que ele está começando a gostar de observar pássaros em vida
livre? Doce ilusão. Logo depois do aviso, ele revelou ter medo do gavião, “pois
algumas dessas aves são capazes de destruir a gaiola”. Para mim, bem pior que o
gavião, que caça para se alimentar, é ele — o gaioleiro, que aprisiona
pássaros.
ALÉM DO
“ONDE EU POSSA SER EU”
– Nas poucas vezes em que me arrisquei a sair além do “meu espaço”, além dos
200 passos, consegui registrar dois pica-paus-brancos e um casal de
canários-da-terra.
Esse meu
momento diário, que começou há pouco mais de dois meses, me rendeu, nos
primeiros 30 dias, o registro de 23 espécies de aves. Além das já citadas,
fotografei um beija-flor-cinza (muito fofo, por sinal), sanhaçu-do-coqueiro,
pica-pau-verde-barrado, corrupião, urubu-de-cabeça-vermelha,
bentevizinho-de-penacho-vermelho, balança-rabo-de-bico-torto, rolinha-roxa,
cambacica, pomba-asa-branca, tuim, saí-azul, bem-te-vi,
casaca-de-couro-amarelo, sabiá-do-campo, sanhaçu-cinzento, pica-pau-branco e
cardeal-do-nordeste (meu pai amava esse pássaro).
| Periquito-rei (Foto: Eduarda Toralles) |
O MEU
MOMENTO – Com certeza,
eu teria uma história para contar de cada um dos registros que fiz. Lembro-me
de todos. Nestes agora quase 60 dias desde que comecei, oficialmente, a
observar diariamente as aves da “minha” área, tenho aprendido muito sobre a
dinâmica de cada uma das espécies. Já reconheço algumas pela vocalização,
outras pela silhueta, pela forma de voar. Mas, além desse conhecimento, a
observação de aves me trouxe paz. Ajudou-me a controlar a ansiedade — para
passarinhar é preciso ter muita paciência, saber observar, apurar os sentidos e
aguardar o tempo deles.
Digo à minha
filha e aos meus amigos que fazer esses registros diários é o meu momento com
Deus. Todos os finais de tarde são meu momento de agradecimento, de avaliar o
meu dia, me acalmar para a noite e de enxergar um mundo além da correria
cotidiana.
Pela manhã, o
passarinhar me dá disposição para enfrentar o dia. O problema é decidir qual
será o último clique. Assim como uma criança que pede para brincar “só mais um
pouquinho”, eu sempre digo que vou tirar só mais uma foto antes de subir para
começar a trabalhar.
| Foto: Eduarda Toralles |
É ENCANTADOR
– Hoje pela manhã,
quando flagrei o casal de gavião-de-coleira se alimentando, compreendi a quão
rica e encantadora é a vida.
E não são só
pássaros que eu fotografo. Os pores do sol foram os primeiros a chamar minha
atenção para a beleza do mundo que eu tinha bem à minha frente. Depois vieram
as aves, os saguis, as plantas, as borboletas... Todos eles me levaram a um
convívio enriquecedor com meus vizinhos. Juntos, estamos sobrevivendo à
pandemia.
Confira outros registros no instagram @ondeeupossasereu ou na minha página no Wikiaves
8 comentários:
Duda, que texto belíssimo! Que relato e que momento lindo em tua bida!
Que lindo!!! Texto maravilhoso.
Texto lindo e as fotos difícl escolher qual a melhor.
Muito orgulho de você. Bjs
Que menina talentosa!!! Parabéns minha jornalista! Grande abraço.
Parabéns, Duda! Lindos registros! Muitos bons motivos pra se inspirar! Que natureza perfeita te rodeia! Belo texto! 👏👏👏
Duda, que coisa linda! Tens um privilégio: essa natureza perfeita!!
Parabéns pelo belo projeto, Duda!
Muito bom passarinhar contigo.
Parabéns pelos registros.
Gosto desta interação.
Forte abraço 'baiucha', como nos chamam aqui no velho Oeste.
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