Receitas que, além de pães, pizzas e bolos gostosos, resultam na inclusão social de jovens da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) do Rio Grande, essa é a pauta do "As delícias que o Município nos reserva" dessa semana. De acordo com a coordenadora pedagógica da Associação, Norma Noguez, a oficina de pães, assim como as demais oficinas profissionalizantes da instituição, surgiram para atender jovens que apresentaram dificuldade na alfabetização. "Precisávamos encontrar algo para atender esses jovens. Esses jovens passam por uma triagem antes de serem direcionados para as oficinas", explicou a coordenadora.
Durante a triagem, os alunos participam de todas as oficinas antes que seja feito o direcionamento para uma delas. “Semana passada, outros alunos participaram da pré-oficina de triagem e produziram as broas de milho que ofereceremos na reunião com os pais, que será realizada hoje (12)”, complementou Norma. Além das oficinas, os alunos participam de aulas de artes.
Produção de alimentos
A Oficina de Pães, o foco da nossa reportagem, atende a cinco jovens, que demonstram, entre outras qualidades, todo o cuidado necessário de quem está lidando com a produção de alimentos. Assim que o pessoal da equipe do jornal Agora chegou à porta da sala onde funciona a oficina, recebeu a touca para cobrir os cabelos antes de entrar. "Eles já me esperam na porta com a touca. A questão da higiene é um dos requisitos mais exigidos para os alunos participarem dessa oficina", salientou Norma, revelando ainda que a Vigilância Sanitária realiza vistorias na instituição e sempre elogia a limpeza das duas cozinhas mantidas no local. “Além da higiene, eles precisam ter responsabilidade e disciplina”, complementa a professora da oficina, Márcia Eifler Sayão.
E é lógico que todos apresentaram o desejo de estar ali aprendendo a fazer pães e bolos. "A Jéssica estava em outra oficina e demonstrou o interesse de vir para cá. Veio e deu certo. Temos um aluno que apresentava problemas de disciplina. Depois que veio para cá, mudou completamente. Está bem mais calmo", contou Norma.
Enquanto a coordenadora e a professora conversam com a equipe jornal, os quatro alunos que estavam participando da oficina se dividiam na preparação da massa dos pães e do bolo de laranja (apontado, e com toda a razão, como o carro-chefe da oficina). Seguros do que estavam fazendo, mas sempre sob os olhos atentos da professora, Jéssica, Tatiane, Wesley e Felipe se dividem nas tarefas. "As receitas são simples. Fizemos um cartaz com a receita de uma forma para que eles possam visualizar as quantidades”, explicou Márcia ao mostrar dois cartazes (um com a receita básica do bolo e outro do pão) que estavam colados em um lugar bem visível da sala, ao lado do cartaz com as regras de higiene.
“Pede licença para que possas fazer barulho”, disse Márcia ao aluno Felipe, que havia demonstrado preocupação em fazer barulho no momento de bater a massa do pão. “Licença”, disse timidamente Felipe antes de começar a sovar a massa dos pães. Depois de pronta, o aluno cobre a massa com um guardanapo. Quando questionado sobre quanto tempo a mesma ficaria descansando, Felipe olhou para a professora pedindo ajuda, e Márcia reformulou sabiamente a pergunta. “Quando sabes que a massa já está pronta?”, pergunta respondida de imediato pelo aluno: “Assim que crescer”.
No balcão próximo à pia, a aluna Tatiane, que participa há mais tempo dessa oficina, coloca pedaços de laranja, leite de pó e os demais ingredientes para preparar o famoso e delicioso bolo de laranja. “É fácil fazer. Eu gosto de fazer um monte de coisas”, disse Tatiane, quando questionada sobre a receita do bolo. “Leite, ovos, lave bem a laranja e tire as sementes e depois coloca no liquidificador. Pode ser de cenoura também”, explicou calmamente a aluna depois de ter colocado a massa na forma.
“No dia a dia, eles aprendem receitas simples. Nosso objetivo é ensinar as receitas básicas, mas eles já fizeram até bolos confeitados”, disse Márcia, revelando que as guloseimas servidas nas confraternizações da instituição são preparadas por seus alunos. “Os alunos dessa oficina já fizeram 2.400 pães e 110 bolos para um evento externo. Eles já produziram coisas para o Bazar das Amigas do HU”, complementou, com orgulho, Norma, revelando que a Apae aceita encomendas.
“O bolo de laranja é o mais vendido. A verba é revertida para a compra de materiais da própria oficina. Só precisamos que as encomendas sejam feitas com antecedência”, salientou a coordenadora, explicando que a oficina de pães funciona nas segundas, terças e sextas-feiras.
Trabalho em equipe
Enquanto Felipe e Tatiane concluíam as receitas, Wesley se preocupava em lavar as vasilhas que estavam na pia e Jéssica ia guardando os ingredientes que haviam sobrado. “Em todas as nossas oficinas, os alunos aprendem a trabalhar em equipe”, revela Norma. De acordo com a coordenadora, o objetivo das oficinas é capacitar os alunos para que tenham a possibilidade de ingressar no mercado de trabalho. “Depois, alguns dos nossos alunos começam a trabalhar. Nós os acompanhamos durante um ano. Realizamos visitas quinzenais às famílias, e os alunos continuam com o atendimento psicológico”, salientou a coordenadora.
Há dois anos trabalhando como orientadora, Márcia revela que, assim como para os alunos, a oficina tem sido uma grande terapia para ela. “Foi um desafio porque eu nunca tinha dado aula, mas sempre trabalhei na produção de doces e salgados. Depois que comecei a trabalhar aqui, passei a me sentir melhor como pessoa. A gente deixa de se preocupar com tantas bobagens. Foi muito bom para mim também”, concluiu, com orgulho, a professora.
Quando a equipe do jornal já estava indo embora, a aluna Tatiane correu até a porta e complementou a receita que havia começado a ensinar. “Não vai esquecer o fermento”, disse a aluna. “Dez medidas?”, questionou a repórter. A confirmação veio com um "ok" com a mão e um largo sorriso de satisfação de quem teve a oportunidade de ensinar algo. E, com certeza, não foi apenas a receita do bolo que a sorridente Tatiane ensinou! A Apae fica na rua Duque de Caxias, nº 327 - Telefone para contato: (53) 3232.7716.
Publicado em 16/03/2014 no Jornal Agora
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