terça-feira, 18 de novembro de 2014

Parceria entre pescadores e pesquisadores ajuda na conservação de aves marinhas

"Há 30 anos, tínhamos as aves como inimigas. Meu pai era um desses 1% que não matavam os albatrozes durante a pesca. Confesso que cheguei a matar, porque achei que eles nos atrapalhavam, mas fui aprendendo com meu pai e, há 20 anos, quando cheguei de um cruzeiro a Santos (SP), conheci a Tatiana (coordenadora do projeto Albatroz) e aprendi mais um pouco. Hoje, as aves são nossas grandes parceiras", contou o pescador Celso Rocha de Oliveira, que há 37 anos realiza a pesca de espinhel pelágico - modalidade de pesca industrial praticada em alto mar para a captura de peixes grandes. Celso, que é proprietário da embarcação Servulo I (nome de seu pai) é um dos 22 pescadores parceiros do Projeto Albatroz, só em Rio Grande.

Criado há 23 anos, em Santos (SP), o Projeto é uma organização não governamental, que tem o objetivo de reduzir a captura incidental de aves oceânicas ameaçadas de extinção, principalmente pela pesca de espinhel pelágico. "Durante um cruzeiro, chegávamos a pegar mais de 200 aves. Hoje em dia, posso dizer que essa captura diminuiu em quase 90%", comemora o pescador.

A redução dessa captura deve-se, principalmente, a parceria dos pescadores, Projeto Albatroz, Poder Público e empresas como a Petrobras - por meio do Programa Petrobras Socioambiental. O Albatroz, além de atuar em Santos, opera em Rio Grande, Itajaí (SC), Itaipava (ES) e Cabo Frio (RJ). Os albatrozes são grandes aves oceânicas, que atingem até 3,5 metros de envergadura e só começam a reproduzir-se com 10 anos, colocando um ovo a cada um ou dois anos. Por causa dessa baixa fecundidade, as aves não conseguem compensar a perda das suas populações. Segundo estimativas mundiais, cerca de 300 mil aves marinhas são capturadas anualmente, 100 mil dessas são albatrozes, por isso a importância do trabalho de conservação dessas aves. A base do Projeto em Rio Grande fica sob a responsabilidade do biólogo Augusto Silva Costa. O biólogo apresentou à equipe do jornal Agora quais são as medidas mitigadoras desenvolvidas e implantadas, em parceria com os pescadores, que tem ajudado a reduzir a captura acidental dos albatrozes. “Nosso desafio é encontrar alternativas que ajudem na conservação dos albatrozes, garantam uma pesca produtiva e que sejam seguras para pescadores”, revelou.

A primeira medida mitigadora desenvolvida foi o Toriline, que consiste num par de postes, ou poste único, fixado na popa da embarcação, onde são presos cabos de 130 metros de comprimento, providos de fitas coloridas, que balançam com o vento, “As fitas funcionam como um espantalho, afugentando as aves. Assim, os albatrozes não atacam as iscas logo que as jogamos no mar, depois dessa distância de 130 metros, as iscas já afundaram e é muito difícil que alguma ave consiga alcançá-las”, explicou Celso.

“Na realidade, as aves acabavam morrendo afogadas, porque elas tentavam pegar as iscas e acabavam sendo capturadas”, explicou o biólogo. Estudos do Projeto Albatroz mostram que só com a adoção dessa medida mitigadora houve uma redução de 67% nas tentativas das aves em pegarem as iscas dos anzóis. A instrução Normativa Interministerial (INI) 04/2011 determinou o uso obrigatório do Toriline. A INI 04/2011 também determinou que a colocação do peso na linha de pesca deve ficar a dois metros do anzol. O usual era colocar o peso à distância média de cinco metros. A aproximação do peso do anzol é uma das medidas questionadas pelos pescadores, apesar de ter reduzido em 30% o ataque das aves às iscas, ela não é segura para os pescadores. “Como o peso fica mais perto da isca, quando estamos recolhendo o pescado, se acontecer da linha rebentar com o peso do peixe, o peso se volta contra o pescador com muita força. Quando o peso ficava a cinco metros, era mais difícil ter acidentes”, explicou Celso. “O peso à distância de dois metros do anzol faz com que a isca/anzol afunde mais rápido, mas estamos buscando alternativas junto com o Ministério do Meio Ambiente, Ministério da Pesca e Aquicultura e com Pescadores.




Busca de alternativas

O Acordo Internacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis (Acap) sugeriu a utilização de um peso mais leve. Estamos realizando pesquisas para encontrar alternativas”, explicou a coordenadora geral do Projeto Albatroz, Tatiana Neves, revelando ainda que a ideia é a flexibilidade para que o pescador possa escolher o que é mais seguro.

O biólogo Augusto apresentou uma das alternativas que está em estudo, que é um peso inglês chamado Lumo Leads (uma espécie de chumbo de luz). “A linha corre por dentro desse peso, os pescadores fixam ele na distância certa da isca, mas, se quando estão recolhendo o pescado, a linha se esticar e o peso correr na linha (não fica fixo como os utilizados hoje) reduz em até 80% o impacto contra o pescador, caso a linha rebente”, explicou.

Uma das barreiras para a adoção do Lumo Leads é o custo para os pescadores, mas segundo a coordenadora do projeto Albatroz, estão sendo pesquisadas alternativas com o apoio do governo federal, como a busca de recursos internacionais. Outra medida mitigadora adotada pelos pescadores é a Largada Noturna, que deve ser utilizada em conjunto com as demais medidas. “Essa medida é bastante eficiente já que grande parte das aves marinhas alimenta-se durante o dia. A largada de linha à noite evita a captura delas”, explicou o biólogo. Desde o início, a parceria entre pescadores e o Projeto Albatroz não se limita à pesquisa e implantação das medidas mitigadoras. Com o apoio dos pescadores, a equipe do Albatroz ainda consegue fazer a coleta de dados sobre essas aves importantes para as pesquisas sobre essas espécies. “Realizo o monitoramento diário nos cais recolhendo informações sobre os cruzeiros, através de planilhas que os pescadores preenchem para nós.

Tem também os observadores de bordo, quando conseguimos alcançar alguém de nossa equipe numa embarcação. Essa proximidade com os pescadores é muito importante para nós”, ressaltou o biólogo. “É um trabalho que não pode ser feito sem respeito e sem admiração. Para podermos ensinar, temos que aprender e é essa a troca que temos com os pescadores. Hoje, muitos deles são nossos amigos, como por exemplo, o Celso e o filho dele”, destacou Tatiana. Para o pescador Celso, que já adotou todas as medidas mitigadoras em suas embarcações e tem ajudado na pesquisa para a implantação de novas medidas, a parceria com o projeto Albatroz, além da redução da captura de albatrozes, resultou numa pesca mais produtiva. “Através das aves e das informações da equipe do Albatroz aprendemos a reconhecer os locais mais produtivos, onde iremos encontrar mais peixes”, concluiu. Em 2012, o Projeto Albatroz passou a fazer parte da Rede de Projetos de Biodiversidade Marinha (Biomar), que tem como principal objetivo a articulação de ações para a conservação marinha.

Eduarda Toralles/ Assessoria


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Importância de Rio Grande

Segundo a coordenadora do projeto Albatroz, Tatiana Neves, Rio Grande tem um link muito grande com o surgimento do projeto. Segundo Tatiana, foi um pesquisador da Furg que lhe apresentou uma grande quantidade de aves marinhas mortas. “Ele estava chegando de um cruzeiro e deparou-se com uma quantidade de aves mortas. Eu já tinha um trabalho ligado a aves marinhas quando me deparei com esse drama”, contou Tatiana. A coordenadora contou com o apoio do professor Carolus Maria Vooren, da Furg, que já realizava pesquisas com aves marinhas. “Fui a Rio Grande pedir o aval dele para a pesquisa”, ressaltou Tatiana, que chegou a morar em Rio Grande quando fez mestrado na Furg. “Minhas primeiras pesquisas foram a bordo do navio oceanográfico”, destacou. Tatiana ainda disse que no litoral do Rio Grande encontra-se a Elevação do Rio Grande, que é um local extremamente importante. “É um hotspots (área prioritária para conservação, isto é, de alta biodiversidade e ameaçada no mais alto grau) da biodiversidade marinha”, salientou.

Publicado Jornal Agora, edição 24/05/2014

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