Quatro jovens cegos são um exemplo de que a inclusão é possível, e que para isso, basta respeitarmos e valorizarmos os dons de cada um. Os jovens Fernando Jacinto Martins Neto, 15 anos, Ayslan dos Santos Fernandes, 13 anos, Uly Cardoso Pereira, 18 anos e Guilherme Brechanne Medeiros, 14 anos, se uniram há 3 meses e formaram a banda musical Fagy – Além da Visão.
Colegas na Escola Estadual Barão do Cerro Largo, os jovens sempre estudaram juntos, e com o apoio dos pais, foram desenvolvendo seus talentos musicais. Nenhum dos quatro cursou aulas de música, os quatro aprenderam a tocar instrumentos só ouvindo músicas.
A mãe de Fernando, Patrícia da Silva Martins, conta que o filho é cego de nascença e começou a tocar “Parabéns para você” num teclado de criança quando tinha apenas nove meses de vida. Hoje, além do teclado, o jovem toca cavaquinho e é um dos cantores da banda.
É impossível segurar a emoção quando Fernando começa a cantar Sunday Bloody Sunday, do U2. “Ele nunca teve aula de música, sempre tocou de ouvido. Até cursou teclado, mas o professor disse que ele já sabia tudo”, conta Patrícia. A relação com a música, Fernando faz questão de explicar. “Minha vida praticamente toda é a música. É um sentimento, é o jeito que tenho para me expressar”, diz Fernando.
O jovem Ayslan, que perdeu a visão aos quatro anos após uma queda com uma batida forte na cabeça, aprendeu a tocar rebolo e pandeiro com os primos, contou a mãe Gerusa Pereira dos Santos.
A única menina do grupo, Uly é responsável pelo pandeiro. “Às vezes também canto e danço. Não faço aula de dança, gosto de colocar a minha criatividade”, conta a jovem. A mãe de Uly estava doente na tarde de ontem (01), quando o grupo se reuniu para mais um ensaio, mas Uly conseguiu comparecer ao compromisso graças à união das quatro famílias. “Ela não tinha como vir sozinha, mas eu dei um jeito de buscá-la. Somos muito unidos, sempre acompanhamos nossos filhos, e quando algum pai não pode comparecer, damos um jeito”, revelou Gerusa.
O grupo ensaia quatro ou cinco vezes por semana numa peça reservada exclusivamente para eles na casa do baterista Guilherme, na Vila Municipal. Cego desde que nasceu e com autismo, Guilherme fez da música o seu mundo. “Ele começou a tocar bateria na casa de um vizinho, quando era pequeno. Aí decidimos dar uma bateria para ele”, contou a mãe do jovem, Estela Guedes Brechanne. “Gui”, como é carinhosamente chamado por todos, não consegue ficar sem cantar e batucar as mãos.
“Conheci o Gui na academia, fazíamos hidroginástica juntos e depois da aula ele ficava sentado esperando os pais e sempre tava cantarolando uma música, lembro que ele gostava muito de cantar ‘Esse cara sou eu’ ”, contou Pedro Alberto Jensen, um fã do grupo.
O repertório musical é variado, vai desde o MPB ao samba, rock, pagode, entre outros. Com apenas três meses de formação, a banda irá fazer o seu terceiro show, numa festa do programa Primeira Infância Melhor (PIM), no próximo dia 9. “Eles já cantaram em um aniversário e numa mostra cultural da escola”, contou Estela.
Os jovens contam com o apoio total dos familiares que, com certeza, são os principais fãs do grupo. “A música está fazendo com que eles superem qualquer deficiência. Com isso, eles estão mostrando que são capazes. A gente vê tantos jovens envolvidos com drogas, jogando a vida fora por uma bobagem e nossos filhos estão aqui, mostrando que é possível superar qualquer dificuldade”, conclui com orgulho a mãe do tecladista da banda.
Por Eduarda Toralles
eduarda@jornalagora.com.br
Publicado no jornal Agora - 01/11/2013
http://www.jornalagora.com.br/site/content/noticias/detalhe.php?e=3&n=50826
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