quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Do Cassino ao Hermenegildo, 220 quilômetros a pé pela praia

“Amizade, dor e aprendizado”. Com essas três palavras, o servidor público Maurício Cunha, de 42 anos, definiu a aventura que ele e o amigo, Cássius Rocha de Oliveira, também de 42 anos - professor na área de Economia da Furg - enfrentaram durante dez dias de caminhada pela praia entre o Cassino e a praia do Hermenegildo, em Santa Vitória do Palmar.
Foram 220 quilômetros a pé, percorridos de 3 a 13 de outubro deste ano. “Nosso principal incentivo para fazer isso é nossa amizade de mais de 20 anos. Sempre sonhamos em fazer a conexão pela praia entre a casa do meu pai, no Cassino, e a do pai do Cássius, em Hermenegildo”, contou o rio-grandino Maurício.  
Para enfrentar a caminhada  e num lugar deserto, onde não há nenhum ponto de apoio, a dupla idealizou um carrinho de alumínio, que era puxado pelos dois, onde levam água, alimentação e outros pertences. “O carrinho foi planejado, primeiro fizemos a lista de tudo que precisaríamos levar e depois planejamos o carrinho, que batizamos de Cavia (Carro para vias alternativas), em alusão a uma espécie de roedor que vive nas dunas”, explica Cunha.  
 “Não somos atletas, fizemos uma pequena preparação física antes da viagem. Nosso objetivo não era um desafio físico, mas para colher o máximo de informações sobre essa região”, contou Cássius, ao revelar que um dos objetivos da aventura foi colher o máximo de informações sobre a região para alimentar projetos de pesquisa, informou o professor da Furg, que tem estudos na área de Economia Ambiental.  
Ao serem questionados sobre qual o principal desafio, os amigos são unânimes: “A grande dificuldade é enfrentar a própria cabeça”. De acordo com os aventureiros, os 100 primeiros quilômetros da viagem foram turísticos, a partir daí, a dor nos pés e o cansaço foram os grandes desafios.  
A dupla caminhava de quatro a seis horas por dia e dormiam em barracas. “Conseguimos fotografar dez barcos encalhados e vimos muitos animais. Teve um falcão que nos seguiu por quatro dias”, contou Maurício, destacando ainda que a região é completamente deserta, sem cidades, vilarejos, pessoas. O celular não funciona. “Só encontramos alguém no Farol do Albardão, onde dormimos uma noite”, complementou Cássius.  
“Tivemos momentos espirituais. Sem um incentivo, com certeza não teríamos conseguido”, avaliou Cássius ao lembrar-se de um momento em especial, quando o Maurício estava bastante cansado e com muitas dores nos pés e havia pedido para parar, dizendo que não conseguia mais andar. “Aí apontei um local onde havia uma boia para sentarmos, quando olhamos para o horizonte, enxergamos três bolotas, o barco três negrinhos, que meu pai tanto falava. Naquele momento, a felicidade foi tanta, que até esquecemos a dor. A felicidade cura a dor”, constatou Maurício.  
A 30 quilômetros da chegada, o pai de Cássius foi ao encontro dos aventureiros de jipe. “Ele nos convidou para concluir o trajeto no carro, colocamos o carrinho no jipe e nunca vou me esquecer do que o Maurício disse nesse momento: Se eu subir nesse carro, não vou ter coragem de olhar para o meu filho. E decidimos continuar a pé”, contou Cássius. A dupla teve todo o apoio dos familiares para realizar o sonho.  
Da aventura, a dupla disse que tira como experiência uma nova visão em relação ao mundo. “Passei a valorizar muitas coisas que antes não dava tanto valor, coisas simples mesmo”, concluiu Maurício com o aval de Cássius. 

Por Eduarda Toralles
eduarda@jornalagora.com.br

Publicado no jornal Agora - 31/10/2013

http://www.jornalagora.com.br/site/content/noticias/detalhe.php?e=3&n=50811

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