terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Estuário da Lagoa dos Patos abriga maior concentração de botos do Brasil

O estuário da Lagoa dos Patos possui a maior concentração de botos (Tursiops truncatus) de todo o Brasil, informou o doutor em Oceanografia, Pedro Fruet, revelando ainda que essa população é a mais bem estudada do mundo.

Há 10 anos, é realizado um estudo sistemático sobre a presença dos animais no estuário, mas, anteriormente, em 1974, o diretor do Museu Oceanográfico, Lauro Barcellos, já havia realizado estudos sobre essa população.

A pesquisa realizada por Fruet, “Estrutura Genética, Dinâmica e Viabilidade Populacional do Boto, Tursiops Truncatus, do estuário da Lagoa dos Patos, Sul do Brasil” lhe rendeu a primeira dupla titulação, simultânea, de doutorado em Oceanografia Biológica pelo Programa de Pós-­graduação em Oceanografia Biológica (PPGOB) da Furg e pela Flinders University, Austrália, em agosto do ano passado.

Fruet conseguiu realizar o levantamento da população de botos que vivem no estuário, hoje em torno de 85 indivíduos. Para acompanhar os impactos que essa população de botos pode estar sofrendo, o pesquisador realiza o monitoramento permanente da área. "Com esse monitoramento podemos definir a tendência de tamanho da população, se está sofrendo algum tipo de impacto significativo", explicou Fruet.

Para realizar o monitoramento, o pesquisador conta com o apoio dos doutorandos em Oceanografia, Rodrigo Genoves  e Elisa Seyboth, e do mestrando na mesma área, Lucas Otti. Todos ligados ao Museu Oceanográfico.

Este ano, os pesquisadores já conseguiram identificar cinco botos filhotes na população do Estuário. "Desde que iniciamos o monitoramento, nasce uma média de sete botos por ano. A população está se mantendo estável", comemora o pesquisador.

O estudo já serviu de base também para a criação da Instrução Normativa nº 12, de agosto de 2012, que delimitou uma área de proteção da espécie. A área de proteção costeira vai do Tecon até o navio Altair (Cassino) e do Tecon até a praia do Mar Grosso, em São José do Norte. Segundo a IN 12, fica proibida, nessa área, a pesca  de embarcações que utilizem a rede de emalhe. "É uma região onde são desenvolvidas várias atividades humanas como a pesca, atividades portuárias e industriais é importante estar constantemente monitorando o impacto dessas atividades sobre a população de botos". destaca Fruet.

Segundo Fruet, as populações de botos têm fidelidade às áreas onde vivem e eles dependem dessa área para sobreviver, por isso, a importância da preservação de todo ecossistema em áreas, como o estuário da Lagoa dos Patos. "Essa população de botos fica no estuário o ano todo. É um local protegido, onde, apesar da grande quantidade de atividades humanas que existe (porto, pesca, indústrias) , os botos ainda conseguem o suficiente para sobreviver", concluiu Fruet.

Nova tese de doutorado - Além de realizar a pesquisa ambiental, o projeto desenvolvido junto ao Museu Oceanográfico busca também o desenvolvimento humano. Nesse sentido, a pesquisa sobre os botos já está rendendo uma nova tese de doutorado. O também oceanógrafo Rodrigo Genoves está realizando o estudo da estrutura social das populações de boto que vivem na região. O monitoramento identificou três populações de boto, a do estuário, uma que vive mais ao Sul e outra ao Norte do estuário. "Já constatamos que são três unidades sociais diferentes", revelou Genoves.

Monitoramento - Nesta segunda (12) à tarde, a equipe do jornal Agora acompanhou o monitoramento realizado pelos pesquisadores. Inicialmente, é feito o registro fotográfico dos botos para conseguir identificá-los. Os pesquisadores identificam através de marcas das nadadeiras de cada um dos botos que vivem na região. "Aquele é o boto 105. Ainda não coletamos material dele", disse Rodrigo Genoves ao fotografar um indivíduo que se aproximou da embarcação.

Após essa identificação, com a ajuda de uma balestra (arco que dispara flechas) foi feita a coleta do material genético do boto. Os pesquisadores já realizaram a coleta de material de cerca de 44 botos, dos 85 que vivem no estuário. "Com esse material é possível identificar a análise genética. Saber o sexo, o parentesco entre os indivíduos e do que eles estão se alimentando", explicou Genoves.

Ainda de acordo com o doutorando, o material colhido também vem com um pedaço da gordura do animal, possibilitando ainda a análise do nível de poluição do local onde ele vive. "Ainda não temos uma conclusão em relação a essa análise", destacou.

Rodrigo Genoves está seguindo os passos de Pedro Fruet e deve estar indo, daqui a um ano, realizar o final da análise do material coletado no Santuário na Flinders University, Austrália.

Publicada no Jornal Agora 13/01/2015

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