domingo, 13 de novembro de 2016

Estudo sobre botos garante dupla titulação de doutor para estudante da Furg

O Programa de Pós-graduação em Oceanografia Biológica (PPGOB) da Furg formou, no dia 18 de agosto, o primeiro doutor que conquistou, simultaneamente, dupla titulação. Pedro Fruet obteve o título de doutor em Oceanografia Biológica pelo PPGOB da Furg e pela Flinders University, Austrália.

A iniciativa foi possível graças a uma parceria entre as duas universidades e já abriu portas para que outros estudantes do programa de pós-graduação sigam o mesmo caminho que garantiu a dupla titulação para Fruet. “Meu colega aqui no Museu Oceanográfico, Rodrigo Genoves, já está se preparando para isso”, comemora Fruet.

A tese de Fruet, intitulada “Estrutura Genética, Dinâmica e Viabilidade Populacional do Boto, Tursiops truncatus, do estuário da Lagoa dos Patos, Sul do Brasil”, foi aprovada por uma banca que contou com quatro examinadores da Furg, além de dois examinadores externos no processo de avaliação, uma exigência da Flinders University. A banca que examinou a tese de Fruet foi formada pelos professores doutores Eduardo Resende Secchi (orientador – Furg), Luciano Dalla Rosa (Furg), Paul Gerard Kinas (Furg), Leandro Bugoni (Furg), Luis Fernando Fernandes Marins (Furg), Alexandre Freitas Azevedo (Universidade Estadual do Rio de Janeiro - UERJ) e Artur Andriolo (Universidade Estadual de Juiz de Fora – UEJF).

O doutor em Oceanografia Biológica Pedro Fruet contou que sua conquista foi possível graças ao fato de vários formandos em Oceanografia da Furg estarem espalhados pelo mundo. “Entre eles, Luciana Möller e Luciano Beheregaray, que atualmente coordenam diversas linhas de pesquisa na Flinders University, na Austrália”, destacou Fruet.

Quando estudou na Furg, Luciana iniciou um estudo sobre a população de botos (Tursiops truncatus) existente no estuário da Lagoa dos Patos, informou Fruet. Foi isso que acabou aproximando e possibilitando o acordo entre as duas universidades. “Eu precisava de um laboratório especializado em análises genéticas e com pessoas capazes de me orientar nesses trabalhos. Na Flinders University, tem um laboratório de Ecologia Molecular e pessoas muito capacitadas”, explicou Fruet.

Para que o acordo entre as duas universidades fosse possível, o então estudante de pós-graduação do PPGOB da Furg teve que atender a algumas exigências da universidade australiana. Entre elas, a de estudar durante um ano na Austrália, período em que realizou as análises genéticas dos botos, por meio de amostras coletadas no estuário da Lagoa dos Patos.

O estudo
Fruet explica que o projeto que garantiu a sua aprovação no doutorado existe desde 1974, mas, sistematicamente, somente a partir de 2005. “Uma das linhas de pesquisa desse projeto era a coleta de amostras de pele dos botos residentes no estuário da Lagoa dos Patos para análises genéticas”, destacou.
O agora doutor em Oceanografia Biológica salienta que a coleta de amostras foi feita apenas para uma 
parcela da população de botos. “Já tínhamos a identificação de alguns botos, feitas através de marcas naturais que eles têm nas nadadeiras. Com essas informações realizamos as coletas, que são feitas com o disparo de flechas no dorso dos animais conhecidos”, explicou.
Para realizar a coleta das amostras, Fruet percorreu do litoral de Santa Catarina até a baía de San Antonio, na Argentina, trecho no qual existem seis áreas de ocorrência dessa espécie de botos. “Foi importante coletarmos amostras de botos em todas essas áreas porque queríamos descobrir se elas representavam uma única população de botos ou se eram populações fragmentadas”.
Após coletar o material, Fruet passou todo o ano de 2012 na Austrália, realizando a análise das amostras. “Neste um ano fiquei muito focado no laboratório para concluir as análises, que são complexas, mas consegui participar de um congresso também, no qual apresentei meu trabalho”.
Com o resultado das análises, retornou para Rio Grande para dar seguimento a seu estudo. “Com a análise das amostras descobri que a população dessas seis áreas de ocorrência de botos forma unidades de manejo diferentes, pois reproduzem-se em maior intensidade entre os indivíduos das próprias populações do que entre populações vizinhas. Essa informação foi importante para definir que cada uma dessas seis áreas precisa de planos de manejo diferentes”.
Com essa conclusão, ele focou o seu estudo na unidade que vive no estuário da Lagoa dos Patos, que conta com uma população de 85 botos, considerada bastante baixa pelo pesquisador.
Segundo Fruet, as populações de botos têm fidelidade às áreas onde vivem e eles dependem dessa área para sobreviver, por isso a importância da preservação de todo ecossistema nessas áreas, como o estuário da Lagoa dos Patos. “O estuário é um ambiente muito produtivo e de extrema importância, não só para os botos, mas para a pesca também”.
Fruet destacou que, apesar do estuário ainda fornecer alimento suficiente e certa proteção para os botos, é uma área muito propícia a acidentes ambientais.
Um dos impactos para a população de botos analisados pelo estudo foi em relação à captura acidental pelas redes de pesca. “Concluímos que, embora ocorram capturas, a população de botos da área continua estável”.
Isso se deve ao fato de que a maior incidência de morte em redes de pesca ocorre com botos machos adultos e juvenis. Os botos machos e jovens não têm um valor biológico muito grande para a espécie, como as fêmeas adultas, informou Fruet. “Durante o período de estudo (2005-2012), as fêmeas adultas foram pouco impactadas pelas redes”.
O pesquisador explica que, embora esta população esteja atualmente estável, um pequeno aumento nas capturas acidentais pode levar essas populações de botos a declinar rapidamente, já que a capacidade reprodutiva da espécie já é bastante limitada.
As fêmeas da espécie só começam a sua vida reprodutiva depois de 9 anos de vida. Elas têm um filhote a cada três anos e, aos 32 anos, reduzem a sua capacidade reprodutiva. Na população do estuário, nascem aproximadamente seis filhotes por ano. “O filhote precisa da mãe durante os três primeiros anos para conseguir sobreviver, e a taxa de sobrevivência deles é bem baixa, cerca de 84%. Se uma fêmea for capturada pela rede, com certeza o filhote dela acabará morrendo também, porque ele depende dela nos três primeiros anos de vida”, salientou Fruet.
Com o estudo, Fruet conseguiu analisar o estado atual da população e projetá-la para o futuro, concluindo que, por enquanto, a população do estuário da Lagoa dos Patos está estável. “Simulamos vários cenários para conseguir fazer essas projeções. A população está estável e tem a tendência de continuar estável nos próximos 60 anos, considerando a situação atual de morte por pesca, mas é bastante sensível e está operando no seu limite. Qualquer alteração mínima poderá representar uma catástrofe”, destacou.
Com essa preocupação, Fruet reforça que o monitoramento da população de botos tem que ser permanente. Ele lembra que algumas precauções para garantir a sobrevivência dos botos já foram tomadas, como a delimitação de uma área de proteção da espécie (Instrução Normativa Interministerial nº 12, de 22 de agosto de 2012), mas que o estuário é um local onde são desenvolvidas várias atividades humanas, como a pesca, atividades portuárias e industriais. Por isso, é importante estar constantemente monitorando o impacto dessas atividades sobre a população de botos.
“Já estudo os botos há mais de 12 anos e pretendo continuar. Acredito que o estudo com os botos precisa de gente tecnicamente preparada. E acho que a maior mensagem que tiramos a partir da minha tese de doutorado é de que é preciso ter um monitoramento permanente dos botos para avaliarmos como eles respondem aos impactos humanos e quais estratégias de conservação devem ser tomadas”, concluiu Fruet.

O pesquisador continuará no Museu Oceanográfico, instituição pioneira no estudo desta espécie no Brasil, que o apoiou na realização de sua pesquisa e na qual participa de outras pesquisas sobre o meio ambiente.



Publicado originalmente no Caderno O Peixeiro (Jornal Agora), em Agosto de 2014

Nenhum comentário:

RPPN Rio do Brasil: Mais que uma aventura na natureza, uma iniciativa de conservação ambiental

Por: Maria Eduarda Toralles - Casulo Comunicação 25/05/2022 - Para o site O Xarope Desde junho de 2021, há exato um ano, a Reserva Partic...